28 DIMENSÕES
Prefácios e/ou Resenhas
ISBN 978-65-00-22308-8 - 1. Análise literária 2. Crítica
literária
Ensaio Literário
Autor: EDUARDO JABLONSKI
Professor e crítico literário, Eduardo Jablonski publicou pela B&M / Clube Literário, em 2021, o livro "28 Dimensões",
com resenhas e prefácios da obra de Borges Netto.
APRESENTAÇÃO
Comecei a escrever sobre Borges Netto por volta de 2013, trabalho que culminou na publicação de Natureza da Palavra em Borges Netto (2014). De lá para cá, foram dezenas de textos. Fiz 14 prefácios para suas obras e outros dez ensaios mais longos para formar o estudo que se chamou O anjo da asa partida, ensaio sobre a obra de Borges Netto, a ser publicado em 2021. Em meio às conversas de livros, tive a ideia de organizar uma pequena coletânea com os prefácios que escrevi sobre a obra dele, aprovada pelo autor. Na época, ele tinha 27 títulos publicados e um em vias de sair. Como 14 prefácios já estavam prontos, me propus a escrever resenhas sobre os 14 faltantes e por isso o nome desta antologia é Borges Netto em 28 dimensões, porque todos os seus 28 títulos estão analisados aqui. Também foi uma oportunidade para reescrever os prefácios, pois refazer sempre é positivo e dá a chance de encontrar problemas não identificados na publicação original.
Uma vez que um prefácio apresenta um tamanho diminuto, trata-se de um livro pequeno, com caráter de divulgação apenas, sem estudo aprofundado. Um prefácio tem o objetivo de apresentar o escritor e sua obra e é o que se faz aqui. Cada texto vem com o nome de um livro de Borges Netto, até para facilitar a conexão com a obra.
Revendo sua produção, algumas características diferentes foram descobertas. No livro de contos Foi Assim..., por exemplo, viu-se um Borges Netto mais lírico, embora com as mesmas qualidades narrativas. Enquanto vai contando a história, o narrador acrescenta imagens, o que ergue um clima poético perante o leitor.
Alguns detalhes técnicos aparecem em todas as obras. Um deles é o respeito pelo leitor. Borges Netto mostra cuidado ao tratar de cenas mais fortes na área sexual e nunca relata as minúcias. Prefere deixar tudo para a imaginação. No mais, é o mesmo narrador ágil que prende a atenção de todos.
28 - O HOMEM DO LIVRO (Prelo-2022) - Romance
A produção literária de Borges Netto sempre teve o poder de encantar o leitor e não deixá-lo largar o livro da primeira à última página. Esta obra não é diferente. Apenas aborda com um pouco mais de extensão um dos assuntos já mencionados pelo autor em outros momentos: sua amada agricultura. Nos demais livros, Borges Netto sempre traz comentários a respeito da sua antiga ocupação com hortaliças e cuidados com os animais. Desta vez, repassa os afazeres de uma chácara de porte médio. Parece até um manual de procedimento.
Como fazia Sergio Faraco, o fio condutor da narrativa se apresenta no começo da história, como um lead jornalístico ou uma introdução de texto. A mãe do personagem Lucas lhe sugere arranjar uma esposa para cuidar de si e da casa. E o bom filho pensa no assunto ao longo de toda a narrativa. Até por essa razão se envolve com algumas mulheres, apesar de que é natural todo o homem se relacionar com uma que outra ao longo da vida. Mas Lucas tem o objetivo de arranjar uma companheira, como lhe “mandou” a progenitora.
Visto que a história é totalmente ficcional e não se baseia em nenhum fato verdadeiro, o autor revelou ter deixado as personagens livres e vivas. O decorrer da trama se desenvolveu ao natural, e o desfecho é sensível e tocante. Perderia a graça revelá-lo. É melhor o leitor ir acompanhando as cenas de Lucas até a situação final. É linda.
27 - UMA NOITE ACAMPADOS (2021) - Memórias
Uma noite acampados não é um livro de memórias, mesmo que cite fatos da vida das personagens. Também não é uma novela ou um romance. É um ato de amor praticado entre um avô escritor, o maior da história de Gravataí, para com sua neta, uma menina de 9 anos.
Borges Netto parece um avô decidido a realizar todos os desejos da pequena. Quando ela sugeriu a publicação de uma coletânea de história com gatos, lá foi o avô construí-la. Quando a moça insistiu que ele a levasse para ter uma experiência num acampamento, o avô também o fez.
A história tem um fio condutor – os preparativos para o acampamento, a viagem, a estada e a volta. Nesse ínterim, alguns detalhes das situações que aconteceram despertam lembranças no autor, que as vai contando, em forma de flashbacks, como um Erico Verissimo. O texto é agradável e de fácil compreensão, como em todas as suas obras. Enfim, é uma literatura delicada, competente e que não dá o direito ao leitor de deixar de lê-la.
26 - O LAR DAS MENINAS (2021) - Contos
O Lar das Meninas saiu de uma ideia de Borges Netto para organizar livros com edições mais simples a escritores de menor poder aquisitivo. Afinal, além de poeta, contista e romancista, o autor ainda é editor, incentivador e organizador de clubes literários no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
A escolha por contos focados no envolvimento amoroso entre homens e mulheres, ou entre rapazes e moças, embala todo o livro. Embora se trate do mesmo tema, é abordado de maneiras tão diferentes, que oferecem ao leitor descobertas a cada página.
Freud não disse que o sexo é o que mais importa ao ser humano? É nisso que Borges Netto investe nessa pequena coletânea com os mesmos resultados que já o consagraram na literatura gravataiense.
Para fazer uma comparação que talvez outros críticos literários não concordassem, porém como Dalton Trevisan alcançou fama de contista em âmbito nacional? Explorando apenas dois personagens (João e Maria) e falando de sexo vulgar e tragédias no seu estilo despojado, simples e a cada texto mais reduzido. Pois Borges Netto se mostra muito superior ao gênio paranaense. Deveria seguir por esse caminho, que pode trazer bons resultados.
25 - A GATA CARMELITA (2020) - Contos
Literatura precisa de foco, e Borges Netto sabe disso: tantos anos de estrada. Organizou uma seleta com histórias sobre gatos. Algumas são cômicas, outras até sensuais, umas terceiras de suspense.
O estilo é o mesmo que o consagrou como o principal artista da palavra na história de Gravataí: frases curtas, ordem direta, expressões simples. Todo mundo entende. E, mais do que isso, não há como não ler até o fim. As histórias pegam o leitor, o dominam, tiram-lhe o fôlego.
A cada ano, é uma surpresa saber o que Borges Netto produzirá, por onde andará a sua veia literária. Trata-se de um contador de histórias, como foi Erico Verissimo, o melhor do estado.
No futuro, os estudantes de Letras, talvez para homenagear a cidade, vão fazer trabalhos de conclusão de graduação e especialização, dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre o gênio das Letras na região.
Infelizmente nem todos recebem a consagração em vida. Não dizem que O vermelho e o Negro, de Stendhal, vendeu apenas cinco exemplares enquanto o autor era vivo? Hoje o autor francês é um dos maiores de todos os tempos. Provavelmente isso acontecerá com Borges Netto. Talvez demore para vir o reconhecimento, mas virá com certeza.
24 - BATALHÃO DE GRAVATAÍ (2019) - Romance
Borges Netto parece interessado em explorar todas as possibilidades literárias. Já escreveu poesia, conto, crônica, novela, romance, teatro, viagem e agora embarca no romance histórico, muito tradicional na literatura do Rio Grande, porque houve um Érico Veríssimo e um Josué Guimarães no passado e um Luiz Antonio de Assis Brasil e Mauro Maciel hoje. Faltaria, talvez, a crítica literária. Em cada gênero, é possível escrever de quase infinitas maneiras. Logo, ainda há muito para ele se preocupar. Neste prefácio, comenta-se o seu romance histórico Batalhão de Gravataí. Borges Netto, apaixonado pela sua cidade natal como sempre foi, pesquisou um tema histórico-militar que aconteceu nela.
Tanto para este livro como para Longe de Casa, publicado em 2018, o autor precisou fazer uma longa pesquisa, o que de certa forma altera um pouco o seu modus operandi. Mas, como já ficou evidente no parágrafo anterior, trata-se de um beletrista que gosta de se reinventar. Parece deixar claro, nas primeiras páginas, o contexto e as personagens para assentar o romance. A seguir, entra na ficção, porque o trabalho é de escritor, não de historiador.
No início, também esclarece que teve a ideia de escrever essa obra para justificar aos leitores o porquê do nome literário Borges Netto, uma vez que seu nome verdadeiro é João, e o personagem inicial é Leonardo Borges, intelectual e professor que chamou a responsabilidade de formar um pelotão de cem homens originários de Gravataí para ingressarem na Revolução Farroupilha. Também esta foi uma escolha importante, visto que todos os gaúchos sabem da relevância que tal guerra tem para os sulistas.
“Ter apelido por ali parece ser uma constante. Ele próprio, Leonardo Borges, é conhecido como Maneca.” (NETTO, 2019, p. 21) A literatura necessita retratar os aspectos de um povo e de um período no tempo. E Borges Netto sabe disso. Por tal razão, comenta um detalhe do costume não só de Gravataí, mas de cidades vizinhas: pôr apelido uns nos outros, como se o nome não bastasse.
Enfim, é um livro que mistura fatos históricos e ficção.
23 - LONGE DE CASA (2018) - Viagem
Como seria um texto ideal de viagens? Pois não é que Borges Netto encontrou a forma, apesar de ser a estreia nesse subgênero literário? Alguns podem discordar dessa opinião, mas o livro perfeito de viagens uniria dados históricos sobre os locais e monumentos visitados, além do cotidiano da viagem em si. Foi exatamente o que Borges Netto fez em Longe de Casa I e parece que haverá continuidade, porque o autor de Gravataí acaba de retornar de outro país e promete outro livro.
Com Longe de Casa, se tem a impressão de estar viajando também. Ou pelo menos os que já tiveram essa experiência sabem que os contratempos enfrentados por Borges Netto são iguais aos de todos os turistas. E quem já foi se sente confortável, lembrando o que já vivenciou. O diferente são os fatos históricos, as praças, as obras de arte, as catedrais, os monumentos. Um intelectual da área de História, de Artes, de Literatura ou mesmo de idiomas se encantaria com uma viagem à Itália, a Paris, a Londres.
Mais que um livro bem trabalhado, Borges Netto oferece recreação ao leitor.
22 - EU TINHA UMA BONECA ENCANTADA (2017) - Romance
Todas as histórias de Borges Netto são interessantes e prendem o leitor do começo ao fim, porém despertam uma sensação, como se tivessem o foco de sensibilizar. Max, o príncipe guerreiro gera pena. O senso comum diz que mostrar pena por outra pessoa é negativo, mas não é uma verdade absoluta. Se um homem ou mulher é bom, tem caráter e sente pena por alguém, é a mesma coisa que mostrar compaixão, amor e carinho pelo outro.
Sobre Eu tinha uma boneca encantada, Borges Netto volta a despertar um sentimento nos que o leem, mas agora é de desgraça, de horror. Tudo de ruim aconteceu com Maria, a personagem principal: foi violentada pelo pai desde a infância, pelo namorado, agredida pelos pais e pela avó, trabalhou desde pequena e não aproveitou a infância, teve um dos filhos assassinados, o mesmo que já ficara anos no Presídio Central. Mesmo assim, parece ter gostado de viver. É necessário ressaltar que se trata de uma história verídica.
De resto, o texto apresenta as mesmas qualidades do maior escritor da história de Gravataí: frases curtas, bem-ritmadas e de fácil entendimento. No futuro, Borges Netto, que evolui de obra a obra, ainda será incorporado ao cânone da literatura sulista.
21 - CANÇÃO PARA ANA (2016) - Romance
Canção para Ana é o livro mais bem acabado de Borges Netto. Há boa concatenação de frases, texto dinâmico, como se o autor tivesse passado a vida em redações de jornal, da mesma forma que Hemingway. Aqui, ao contrário das obras anteriores, procura evitar os problemas de sons, como aliterações, assonâncias, ecos, colisões e anáforas. Não quer dizer que tenha conseguido extinguir todos os entraves sonoros. Por exemplo, Moacyr Scliar reescrevia dezenas de vezes cada texto, cortando e acrescentando palavras, sempre em busca da melhor sonoridade. Mesmo assim, a cada nova releitura, encontra outros problemas. Luiz Antonio de Assis Brasil disse que o texto nunca estará pronto, sempre há o que fazer.
E Borges Netto parece levar ao pé da letra uma frase que disse o escritor paranaense Wilson Bueno - que um verdadeiro escritor é um reescritor. Dos 27 livros publicados por ele até o momento, já refez 11 e provavelmente, ao longo da vida, retrabalhará todos eles, porque sua missão é buscar a mais pura amostra do estilo perfeito, se é que isso existe.
É como se Borges Netto fosse um escultor da palavra, um verdadeiro artista que encontra na reconstrução um caminho literário.
20 - POEMAS EM SI MENOR (2016) - Poesia
Estes Poemas em Si Menor, mesmo que não mostrem uma mudança de rumo na sua obra, voltam a surpreender o leitor. Aqui, Borges Netto ampliou todos os adjetivos que já havia mostrado nas primeiras coletâneas. Expandiu o número de metáforas, aproximando-se da poesia pura; inspirou-se mais uma vez na natureza e convidou a amada a uma longa conversa, cheia de imagens.
Às vezes se tem a impressão de que alguns homens não amam uma fêmea, mas o gênero feminino como um todo. E fica bem o poema falar com Ela, sem citar nomes, porque, assim, podem ser todas as mulheres. Uma vez Paulo Hecker Filho escreveu uma antologia denominada Para todas as mulheres, com perdão das que faltam. E Vinícius de Moraes amava a todas. Borges Netto é um poeta que ama o gênero feminino e a literatura.
Mesmo que os grandes temas já tenham sido abordados por todas as facetas, segundo Rilke, é belo ver as mulheres analisadas e amadas por um grande número de imagens.
Enfim, sua vida cumpriu uma missão. Futuramente poder-se-á lembrá-lo como um poeta que amou os livros e as mulheres.
19 - DAS COISAS DE POUCA IMPORTÂNCIA (2014) - Crônicas
Das Coisas de pouca Importância evidencia a maturidade de Borges Netto como escritor. O ritmo do texto é fluente e exato. Não se poderia acrescentar ou extrair nenhuma expressão. É uma escultura de palavras, que o autor limou, buscando o detalhe. Afinal, alguém já não disse que a perfeição mora aí? As frases curtas lembram Ernest Hemingway, inclusive citado pelo autor como uma de suas influências.
A respeito da temática, ele ingressa no mundo das lembranças de uma forma intimista. Fala da admiração por seu pai e por sua mãe, da vida difícil de agricultor, da descoberta da literatura, que deslumbraria sua vida, e do amor pela companheira, Denise Jorge, uma paulistana arrancada do seu berço natal para viver entre o pampa e o chimarrão gaudério. No entanto o autor não chega a se derramar pela mulher, mas cada passagem em que a cita é como um beijo literário na sua fronte.
Outro fato encantador para quem teve o prazer de passar os olhos pelos seus livros é que nunca faz comentários desagradáveis ou desabonadores a ninguém. No máximo lembra ter tido relacionamentos desastrosos com as primeiras mulheres, mas não chega a falar mal delas. Uma mulher é um ser tão extraordinário, que um homem que já dividiu a cama de uma delas jamais poderia falar mal de uma beldade.
Uma vez Mario Quintana afirmou que toda a sua vida está nos seus versos. Parece que o mesmo se pode comentar sobre o autor. Não que ele escreva apenas a respeito de si próprio, como fez em Das Coisas de Pouca Importância. Às vezes, retrata a vida de amigos, como um boêmio e mecânico, No Abismo de Rosas, e um artista plástico, nO Romance de Gravataí. Enfim, é um livro de memórias, não exatamente de crônicas.
18 - NO ABISMO DE ROSAS (2012) - Romance
Esta é uma das obras que trabalham no nicho descoberto pelo autor: o de entrevistar pessoas cujas vidas Borges Netto acha interessantes (uma história que ele ainda não fez, mas mereceria um romance é a do pastor da Igreja Batista Shane). O enredo conta a história do músico e boêmio Pedro Paulino, mas que também tocava na igreja e nas reuniões do Clube Literário de Gravataí e dava instruções no curso de noivos.
Como num filme de Hollywood, inicia-se por um acidente automobilístico, enquanto a personagem principal se encontra entre a vida e a morte, e toda sua existência aparece ao leitor em quadros ou episódios. Ao longo de 133 páginas, o romancista conta sobre as noitadas de violão e cerveja, as amantes e as brigas. O talento narrativo de Borges Netto lhe proporcionaria transformar esse enredo num filme, se ele morasse nos Estados Unidos. Aliás, vários dos seus romances teriam condições de ir para a telona.
A cena do começo traz muitos detalhes do acidente, do que as pessoas acharam, do que Pedro Paulino sentiu. Essa densidade possibilita aspectos humanos à situação. Lembra José Saramago, que também deixava as cenas ricas em detalhes.
Os longos diálogos - às vezes duas ou três páginas - fazem com que o leitor acompanhe o desenrolar da história, como se estivesse acontecendo naquele instante. Borges Netto exercita o seu poder de escritor de peças teatrais.
Outro recurso literário é o surgimento de notas de música na sua mente. As aparições vão se repetindo, se juntando ao longo da narrativa, até se tornarem a melodia completa, chamada “Abismo de Rosas”, música feita por Américo Jacomino em 1917. Igual como acontece na Comédia Humana, de Balzac, organizada em 95 romances, Borges Netto também relaciona situações que aparecerão em outros livros, como O Lar das Meninas, que aparece como capítulo a partir da página 21 de No Abismo de Rosas e em livro completo em 2021. Enfim, é mais um grande romance do autor.
17 - QUATRO LIVROS DE POEMAS (2010) - Poesia
Outro detalhe que aproxima Borges Netto de Machado de Assis é que ambos publicaram quatro livros de poemas e, depois disso, os reuniram numa coletânea. Ademais, nessa obra do autor de Gravataí, se encontra a característica de acrescentar muitas notas de rodapé para repassar informações históricas da cidade ou fatos da vida e da obra do autor, o que promove uma aproximação do leitor para com ele.
Por exemplo, o poema “Perda” homenageia a irmã Maria Heloísa, que morreu aos 33 anos. O poema “Museu” lembra o Museu Agostinho Martha, de Gravataí. Também aborda imagens rurais que marcaram sua vida. Às vezes, também faz citações em rodapé de livros que o fascinaram, como Lolita, de Vladimir Nabokov. Também menciona alterações feitas ao longo da obra. Enfim, é uma aventura percorrer as notas de rodapé do autor.
No mais, o livro é a antologia das quatro seletas de poemas publicadas por Borges Netto ao longo da vida: Muralhas de Cristal 1984 (2ª ed. 2004); Jogos de Calçada (1989); Maricás Floridos (2001); Moça Triste na Janela (2006). Como acontece com a maioria dos escritores, Borges Netto também começou com a poesia e, quando se sentiu maduro como escritor, foi para o conto e o romance.
Esse é o processo que envolve grande parte dos homens e mulheres de Letras. Porém a maioria deles também renega os primeiros livros, o que não é o caso de Borges Netto, que republicou Muralhas de Cristal, em 2004, individualmente, e depois em conjunto em 2010.
Isso mostra que Borges Netto só publicou sua primeira obra quando se sentiu em condições. Os autores têm pressa e, após alguns anos, se arrependem.
16 - O ROMANCE DE GRAVATAÍ (2009) - Romance
O Romance de Gravataí é mais uma história feita para homens. Relata a vida de um artista plástico, Nardini, que tem por hobby e profissão levar moças para retratar e fazer sexo com elas, talvez não nessa ordem. Pelo que se sabe conversando com Borges Netto, a maior parte das histórias realmente aconteceram, porém, como um escritor não tem compromisso com a verdade, pode mudar cada cena a seu bel prazer, deixando-as um pouco mais dramáticas do que na vida real. Um escritor em si é um mentiroso, ou sonhador. Um dos personagens de O Romance de Gravataí se chama poeta e provavelmente representa o alter ego do autor.
Borges Netto admira as pessoas que têm uma vida de artista e gosta de retratá-las, como já aconteceu em vários livros. Mas talvez essas experiências só aconteceriam na literatura do autor, jamais na vida real. Borges Netto foi diretor de Metalúrgica até se aposentar. Não é possível que trocasse a segurança de um salário fixo relativamente alto por uma vida de aventuras artísticas e insegurança com relação ao seu trabalho como pintor, ou músico, ou escritor, ou desenhista.
Esta obra também trata com respeito e consideração os amigos de Borges Netto. Vários deles já foram retratados nas suas narrativas. É como se o autor de
Gravataí estivesse criando um mundo singular, como fez Balzac na sua Comédia Humana. Porém o ambiente em geral é Gravataí, e os personagens são os amigos; às vezes, aparecem personagens totalmente inventados.
A grande incidência de conversas tanto neste como em outras situações mostra o talento de Borges para a produção de dramaturgia. Como sempre se envolveu com criação de associações literárias e artísticas, talvez pudesse escrever peças de teatro para grupos de Gravataí e também reproduzir essas obras em textos impressos. Seria outro caminho e o aproximaria ainda mais de Machado de Assis, que escreveu em torno de dez peças.
15 - MAX, O PRÍNCIPE GUERREIRO (2007) - Romance
Alguns escritores descobrem um nicho de mercado e o exploram, porque deu certo na sua carreira. Esse é o caso de Borges Netto. Às vezes, encontra pessoas que tem uma vida muito interessante que poderia se transformar num livro. Foi o que fez com um músico e escreveu No Abismo de Rosas em 2012 e com uma senhora que lhe proporcionou o romance Eu tinha uma boneca encantada, de 2017.
Dez anos antes, o autor ficou sabendo de uma história emocionante e a reproduziu em Max, o príncipe guerreiro, em 2007. Esse texto conta a vida de uma mãe que não poupou esforços para cuidar do filho com vários problemas de saúde. São muitas voltas e obstáculos para levar a médicos e hospitais. Sem recursos financeiros e sem as melhores condições, a mãe nunca parou de insistir para que seu filho tivesse um tratamento adequado.
Difícil um leitor não se emocionar com uma narrativa dessas, mostra a força e a dedicação da maioria das mães, que nunca perdem a esperança e se esforçam ao máximo por seus filhos. Mesmo que Borges Netto tenha escrito a vida toda enfatizando a visão do macho, dessa vez apresenta uma homenagem às mulheres que têm a força para se dedicar aos filhos nas piores .
De certa forma, a mesma visão de carinho e homenagem o autor apresentou pela sua companheira em várias situações e principalmente no livro Longe de Casa, publicado em 2018. Borges Netto ainda mostrou uma enorme compaixão pelo ser feminino em Eu tinha uma boneca encantada, uma vez que comenta a vida de uma moça que sofreu em todos os estágios da existência e, mesmo assim, continuou firme, acreditando em dias melhores.
Esses três livros (Max, o príncipe guerreiro, Longe de Casa e Eu tinha uma boneca encantada) comprovam a profunda admiração do seu autor para com o gênero feminino. Ele só analisa a sociedade pela ótica do macho, porque é o que conhece, não porque seja um machista.
14 - MOÇA TRISTE NA JANELA (2006) - Poesia
Uma das características de Borges Netto é que nunca agride ninguém. Parece o poeta Armindo Trevisan. Ambos, quando esboçam uma reprimenda, descem suavemente como uma gota de chuva. Em Moça Triste na Janela (2006), o eu lírico de Borges Netto faz uma rápida crítica: “Há poetas / Que gastam a vida / A garimpar em dicionários / Palavras que lhes justifique o pensar.”
Como sente uma espécie de saudade lírica da agricultura - e talvez por essa razão escreveu um romance como O Homem do Livro, que fala amplamente dos assuntos de uma chácara - volta e meia cria imagens próximas das lidas do campo: “E munido de picaretas e pás / Vou desencavando sensações.” A ligação com a agricultura aparece em toda a sua obra.
A seguir, o eu lírico de Borges Netto presta homenagem a outro elemento importante na sua vida: “E a palavra / Esta filha bendita / Que chega em idade tão avançada / Germina com a certeza / De uma proveitosa colheita.” Tudo que é importante para si está na palavra impressa: a agricultura, a literatura, as mulheres, as artes, os amigos.
Antonio Hohlfeldt escreveu uma espécie de biografia literária de Erico Verissimo, baseando-se na produção do autor. O mesmo se poderia fazer com Borges Netto. Tudo sobre ele está na palavra.
“Enchem a sala de vida / E de pios o meu coração.” Para o eu lírico de Borges Netto, os barulhos da natureza enchem uma casa. Como ele disse num dos poemas, o agricultor está sempre ajudando o poeta. E a flora e a fauna têm um papel nessa missão.
Talvez não tenha sido proposital, porém Moça Triste na Janela é a quarta coletânea de poemas do autor e, com ela, se iguala a Machado de Assis, que também publicou quatro antologias de poemas e uma reunindo todas elas.
13 - SOLTO NO AR (2006) - Monólogo
O teatro antigo era feito não com diálogos, mas com poemas. Esse era o caso do maior de todos: Shakespeare, por exemplo. Em 2006, Borges Netto decidiu ingressar na seara e escreveu Solto no ar, um poema para ser encenado em 20 minutos, como uma esquete, no Clube Literário de Gravataí. E mais uma vez o personagem principal é um artista plástico. O autor já escreveu sobre isso em O Romance de Gravataí, Erosão e Um Deserto Logo Ali. O tema abordado pelo artista plástico é a paixão. Em geral, os poemas de Borges Netto falam do envolvimento com as mulheres, e esse não poderia ser diferente.
Quando a personagem declara: “Assim me senti / por um longo tempo: Dez minutos” - pode despertar o riso na plateia, que recebe a frase como se estivesse desprevenida. O eu lírico dá a entender como se falasse da mesma personagem de O Romance de Gravataí, o artista plástico Nardini, porque este foi descrito como um conquistador, a não ser que os artistas sejam idealizados por Borges Netto e todos, na sua visão, tenham essa característica.
O humor volta a aparecer algumas frases a seguir: “Aquele olhar / De gata no cio / Que todo o homem quer / E após / O presente maior do casamento / Roupas para lavar, passar”. A peça foi encenada apenas uma vez e deve ter animado a plateia. Se fosse usada a classificação de filmes, se diria que se trata de uma comédia romântica.
“Queria estar à beira do mar / No inverno / Sem a presença incômoda dos turistas. / Senhor mar.” Essa passagem descreve um desejo do autor, realizado há alguns anos, de comprar uma casa na praia e ficar por lá o máximo de tempo que pudesse ao lado da sua companheira de décadas.
Enfim, parece que Borges Netto acertou a mão nesse monólogo. Se escrevesse outras esquetes apenas com diálogos, mais personagens e humor, provavelmente encontraria o sucesso nos palcos do Sul.
12 - O JARDIM CHINÊS DE PU-UAN (2004) - Contos
Em geral, a maioria dos escritores começa da mesma forma. Primeiro escrevem poesia, depois vão para o conto e aí para o romance. É claro que alguns estacionam em um ou dois gêneros. Jorge Luis Borges fazia poesia, conto e ensaio; Moacyr Scliar, conto e romance, crônicas e ensaios e viagens; Machado de Assis perambulava por todos os gêneros.
Borges Netto trilhou o caminho natural de todo escritor. Publicou dois livros de poemas (Muralhas de Cristal, 1984, e Jogos de Calçada, 1989), antes de ingressar no conto com Foi assim... (1989). Depois vieram seis romances (O Lorde do Casarão,1990; Limites de Segurança,1991; Erosão, 1992; O Cantor, 1995; Um Deserto Logo Ali, 1997; A Amante do Rincão da Madalena , 1998), um livro de crônicas (Passeio, 1996) e um de poesia (Maricás Floridos, 2001), até retornar ao conto novamente com O Jardim Chinês de Pu-Uan em 2004.
Algo interessante na sua obra é que ele não recusa seus filhos intelectuais. Parece aceitar a todos, mas com retrabalho e reescritura. O mesmo ainda não aconteceu com O Cantor, devido ao incidente da Feira do Livro de 1995, mas provavelmente o autor vai reconsiderar, porque nunca fez uma obra de baixa qualidade, e O Cantor não é uma delas.
O Jardim Chinês de Pu-Uan mostra as características dos outros livros, a linguagem simples e as orações curtas. Aparecem temas infantis, como uma pandorga presa na antena de um vizinho, uma casa abandonada, como em O Lorde do Casarão, as putas e os boêmios, rotina numa empresa, quando Lucas obteve uma colocação com carteira assinada, parecia relatar a animação do autor quando saiu da agricultura para trabalhar num escritório. Também fala de passeios noturnos da personagem para caçar mulher e pegar uma garota de programa. E o personagem principal volta a ser Lucas, como em O Homem do Livro. Borges Netto apresenta predileção por alguns nomes. Lucas é um deles; Júlia, outro. Este último foi dado a várias personagens ao longo do seu trabalho. Embora sejam nomes comuns e possam aparecer em várias situações (por exemplo, todo o professor tem uma Júlia e um Lucas por sala numa escola), talvez tenham algum significado para o autor, como João e Maria para Dalton Trevisan.
11 - MARICÁS FLORIDOS (2001) - Poesia
A coletânea de poemas Maricás Floridos destaca as flores, porque Borges Netto acredita na força da natureza como inspiração e como poder para relaxar o ser humano. Além disso, na epígrafe, o eu lírico do autor revela a fascinação que mulheres leitoras de pernas bonitas têm sobre ele. Talvez por essa razão, em 2021, ou seja, duas décadas depois, colocou uma mulher leitora como a personagem que conquistou Lucas no romance O Homem do Livro.
Como sempre gostou de todas as demonstrações de arte, o primeiro poema da antologia recorda um piano. Borges Netto já falou de desenho, de violão, de pintura, já descreveu músicos, escritores, leitores e artistas plásticos. Mas o tema principal tanto dos versos quantos dos romances são as mulheres.
O poema “Piano”, como o próprio eu lírico menciona em nota de rodapé, revela seu amor pela História. Futuramente, no romance Batalhão de Gravataí (2019), ao mesmo tempo em que fala da Revolução Farroupilha, descreve a personagem da sua família de onde tirou o seu nome de escritor.
Às vezes, Borges Netto dá ares de Machado de Assis. Nestes versos, por exemplo, promove imagens concatenadas, bem ao gosto do velho mestre da Literatura nacional: “Ofertou ao meu paladar / O sabor da maçã do seio / E me embriaguei / Com duas taças de expectativa.”
A qualidade dos versos é a mesma de livros anteriores e posteriores: seleção vocabular simples e imagens que descrevem com precisão o que o autor pretende. Daria para se dizer que Borges Netto é tão bom poeta quanto prosador. Já que se fez a comparação com o Bruxo do Cosme Velho, não se fala de Machado de Assis a mesma coisa.
Muitas vezes, os poetas entram no jogo dos compositores de música sertaneja ao mostrar sentimento por mulheres que não parecem dar muita importância ao choroso compositor. Vários poemas entram nesse ritmo, e um deles é “Heresia”.
10- A AMANTE DO RINCÃO DA MADALENA (1998) - Romance
A Amante do Rincão da Madalena conta uma história que talvez todo o homem gostaria de viver. Qual macho não pensou em parar para atender a uma linda mulher com problemas no veículo no meio de uma estrada? Pois é esta a situação que desencadeia uma série de outras entre a personagem principal e a amante. Com certeza, o narrador a idealizou como ex-prostituta para facilitar a relação com o empresário que se propôs a ajudá-la.
Borges Netto escreve a um leitor masculino. E um homem ficaria tensionado ao ler essa obra, sempre na expectativa de acompanhar o desenvolvimento dos fatos, que vão se sucedendo um atrás do outro. A narrativa traz um foco sexual, mas seu autor mostra respeito pelo leitor mais sensível que não gosta de pornografia. Então nunca entra em detalhes de uma cena mais forte. Vai na contramão de um Henry Miller, por exemplo, que descrevia as minúcias dos episódios sexuais, da mesma forma que um João Gilberto Noll no RS.
E a história de A Amante do Rincão da Madalena já deve ter acontecido com qualquer homem que já teve um relacionamento semelhante. Os fatos se dão da mesma forma como na vida das pessoas. O homem a conhece, começam a se encontrar, principalmente numa cama, e a relação vai se dissolvendo aos poucos, até o seu desfecho.
09 - UM DESERTO LOGO ALI (1997) - Romance
Depois de ler todos os trabalhos de Borges Netto, principalmente os contos e os romances, tem-se a impressão - e Um Deserto Logo Ali comprova - que o autor desenvolveu dois ciclos: o dos artistas e o do ex-roceiro. Talvez se deveria pensar em nomes adequados, em imagens, em criar trilogias.
Há dois romances a respeito de pessoas que tocam violão: No Abismo de Rosas (2012) e Lorde do Casarão (1990), e isso que Borges Netto não sabe tocar, mas revelou estar aprendendo. Há três obras sobre artistas plásticos: O Romance de Gravataí (2009), Um Deserto Logo Ali (1997) e Erosão (1992).
Sobre o ciclo do ex-roceiro ou a saudade da roça, todos os livros fazem menção ao trabalho de agricultor, porque Borges Netto desempenhou essas funções. Na Teoria Pós-Colonial ou Decolonial, inserida na escola pós-moderna, somente um homem da roça conhece os sacrifícios por que eles passam, como apenas uma mulher entende o que é ser mulher, e um gay, o que é ser gay, assim por diante.
A nova edição de Um Deserto Logo Ali aborda a vida de Jacó, um ex-roceiro que procurou sobreviver como artista plástico, transferindo-se para o Guarujá.
É uma obra mais densa, que pode ser incluída em ambos os ciclos. O texto é fluente e ágil, como o dos melhores redatores. Uma vez Hemingway disse que devia tudo à experiência nas redações de jornal. Borges Netto parece dever tudo ao jornalismo, sem nunca ter estado numa redação.
08 -PASSEIO (1996) - Crônicas/Poesia
Misturar gêneros literários é comum. Depois de Joyce, vários escritores enveredaram por esse caminho, mesclando romance e poesia. No entanto Ulysses e Finnegans Wake não vinham em forma de versos, mas num emaranhado textual e com vários recursos estilísticos. Apenas um escritor integrante do cânone (salvo desinformação) procurou resgatar os épicos antigos, ao mesmo tempo contando uma história, usando figuras de linguagem e compondo em versos: Mario Benedetti. Borges Netto utilizou a mesma técnica, porém narrando e poetizando sua crônica sexual. Dependendo do leitor que se deparar com essa obra aparentemente despretensiosa, poderá classificá-la como novela, embora não abrigue todos os elementos do gênero, como poesia, porque traz metáforas, sinédoques e outras figuras retóricas, minicontos ou até mesmo crônicas. Entretanto esse livro é tudo isso ou não é nada disso, porque da mescla surge o novo. A temática é a mesma: os relacionamentos amorosos do eu lírico e vai por uma trilha: a enumeração de fatos. Para os que apreciam uma obra de arte, esta é uma delas.
07 - O CANTOR (1995) - Romance
Michel Montaigne já disse, nos seus ensaios, publicados em 1595, que as pessoas não sabem nem criticar, nem elogiar. Falta-lhes a percepção verdadeira da coisa, como se não prestassem atenção no que dizem. No Brasil de 2021, essa colocação do pensador faria mais sentido. Parece que se está numa época estranha de pós-verdade, quando as pessoas emitem opinião sem considerar os fatos. E isso aconteceu na publicação de “O Cantor”, na Feira do Livro de Gravataí em 1995, o que magoou muito Borges Netto e fê-lo evitar a republicação da obra.
A secretária de Educação do município, autoritariamente, mandou retirar o livro de circulação, porque o romance se chamava “O Cantor de Corno”. Ela deve ter entendido que a obra ofendia alguém ou não gostou simplesmente do termo “corno”, sem levar em consideração o básico da literatura. O que significa “cantor de corno”? Ora, “elementar, minha cara” (para usar uma expressão de Sherlock Holmes), isso quer dizer apenas cantor de música sertaneja, de música brega, cafona, de pessoas que gostam de curtir uma “sofrência”, nada além disso.
Mas a obra mereceria reedição, talvez com o nome original, que o autor, por vergonha, modificou na lista que apresenta da sua produção. O enredo traz tudo aquilo que consagrou Borges Netto na literatura gravataiense: a boemia, a música, as mulheres, o álcool, ou seja, a alegria de quem gosta de aproveitar momentos com os amigos e as mulheres, vida que Borges Netto gostaria de ter tido, mas que não conseguiu, porque não sabe cantar, não sabe tocar, não é afeito à boemia e é muito bem casado há décadas com a mesma companheira. Porém a literatura abre possibilidades de sonho e convida tanto o leitor como até o próprio autor para que vivam existências diferentes das que possuem. São momentos singulares que proporcionam a abstração e a fuga da dureza cotidiana. As qualidades do Borges Netto na estilística também se encontram nesse romance. É claro que um retrabalho sempre contribui. Porém “O cantor de Corno” mereceria melhor sorte.
06 - EROSÃO (1992) - Romance
Neste romance, Borges Netto volta a falar de arte. Desta vez, aborda uma artista plástica, como já havia feito em O Romance de Gravataí, de 2009. O aspecto diferente da narrativa é que também discute, ou melhor, descreve como natural um relacionamento lésbico entre a artista Lione e sua companheira Júlia. Elas também vivem num sítio. Borges Netto prefere ambientar as personagens numa situação que domina. Talvez nunca tenha colocado suas personagens em apartamento por não ter tido essa experiência.
Algumas frases e até parágrafos, principalmente os de descrição de ambientes, aparecem elípticos, isto é, sem verbo, como na produção literária de Laury Maciel. Não chega a ser uma grande mudança na forma de construir o texto, até porque as frases vêm de uma maneira simples e compreensível, como em todos os textos do autor. Mas é uma pequena mudança. Igual ao que fez nos contos de Foi Assim..., insere metáforas nas descrições, como nesta passagem: “Apesar da previsão da meteorologia de outro dia quente e abafado, havia no ar uma leve friagem que chegava a ser uma carícia.”
Júlia acaba se relacionando com um ex-namorado, que furta o casal lésbico. Esse fato pode ter algumas interpretações, como tudo na vida, aliás. Talvez o narrador tenha sentido a necessidade de introduzir um relacionamento heterossexual na história, mas, ao deixar
uma pessoa estranha ingressar num ambiente desconhecido, ela age como um aproveitador, talvez até sentiu inveja das posses das duas mulheres e procurou tirar proveito da situação.
Borges Netto não chega a enumerar as atividades que se realizam em uma chácara, como fez em O Homem do Livro, mas cita algumas delas, o que coloca o leitor nesse ambiente do campo, tão amado pelo autor.
Júlia desperta Lione para lhe mostrar a beleza do sol. Essa passagem é enigmática na obra de Borges Netto, sempre à procura da beleza nos melhores momentos da vida, misturando-os à arte que vem da criação cultural do homem, como à arte da natureza. É um belo romance, enfim.
05 - LIMITES DE SEGURANÇA (1991) - Romance
Sempre que se lê uma obra de Borges Netto, é mais que do fazer um trabalho de análise para escrever um ensaio e uma apresentação, é mais do que revisar, a pessoa se diverte lendo. Limites de Segurança gera uma aura de mistério, que aos poucos vai se desvendando, e isso prende o leitor.
Outro aspecto estilístico é que Borges Netto deixou de apresentar “ecos” de texto, isto é, rimas internas na prosa. Assim a leitura sai muito mais suave e perfeita, como um Hemingway. O Prêmio Nobel de 1954 tinha por característica oferecer textos com frases curtas, sem eco, muito diálogo, falando a respeito de questões masculinas, mulheres, farras, a noite. Até aqui é tudo parecido com Borges Netto. A diferença é que Hemingway ainda explorou temas ligados a caçadas, touradas, festas em cidades espanholas, participações em guerras, o que não aparece com o gravataiense, até porque é gaúcho e brasileiro, vive em outra época e em outra região.
Escrever explorando a história é um grande achado, não porque fosse original. Muitos escritores gaúchos trabalharam com isso. Há muita coisa a ser resgatada, e história é a cultura de um povo. Não que Borges Netto aborde um fato histórico. O que faz é detalhar situações que colocam o leitor provavelmente em 1950 no Rio Grande do Sul.
Talvez uma atitude que poderia fazer com que a maioria dos escritores e estudiosos de literatura do Estado conhecessem a sua produção é que Borges Netto tentasse se encontrar com esses intelectuais e lhes presenteasse com pelo menos um exemplar de alguma de suas publicações mais recentes. É como se estivesse plantando, agricultor que foi. Se algumas plantas não nascerem, isso é normal, outras germinarão.
04 - O LORDE DO CASARÃO (1990) - Romance
A literatura de Borges Netto pega o leitor pelo sentimento. É difícil largar um livro desse autor de Gravataí. Mas O Lorde do Casarão é especial, é o melhor dos melhores, principalmente se lido por um homem. Uma pessoa do sexo masculino parece que se identifica com a personagem principal, que se aposenta de uma padaria e decide ter uma vida diferente, vivendo num casarão abandonado, indo a bares, conversando com as pessoas.
A cada reedição de livro, Borges Netto deixa a sua história cada vez mais densa, mais penetrante, mais humana. O mercado editorial do Brasil, ainda mais do Rio Grande do Sul, é um dos piores do mundo. Pouca gente lê, pouca gente compra. Mas com certeza, num futuro a médio ou longo prazo, Borges Netto vai ter o reconhecimento que merece. Impossível um escritor desse quilate não ser estudado nos cursos de mestrado e doutorado do Rio Grande do Sul.
Grande poeta que também é, de vez em quando Borges Netto apresenta uma imagem: “Mentalmente agradece às palavras por terem se mantido na superfície do rio da memória” (p. 17). Luiz Antonio da Assis Brasil também age dessa maneira.
03 - FOI ASSIM... (1989) -Contos
Alguns escritores reaproveitam um que outro dos seus textos em outras produções. É o caso de Borges Netto com o livro de contos Foi Assim..., publicado inicialmente em 1989, quando o autor ainda morava em São Paulo. Numa mensagem de e-mail, o autor revelou ter reescrito “Estranhos Fenômenos de L” e “A Impressora” e os incluiu na antologia de contos O Jardim Chinês de Pu-Uan. “A Bailarina” integrou O Lorde do Casarão e “A Gata Carmelita” faz parte do livro de mesmo nome.
O primeiro conto, chamado “Clarice”, já começa bem, com figuras de linguagem, dando o ambiente do enredo: “O relógio acaba de vencer a vigésima quarta hora. A sala está repleta de silêncio.” Muitos estudiosos de literatura mostram predileção pelo início, como se fossem a parte mais relevante.
“O mesmo sofá de segredos infinitos.” Ao que parece, Borges Netto trabalhava a imagem na prosa. Não daria para dizer que se trata de um texto de prosa poética, mas a narrativa aparece carregada com elementos poéticos, que dão um clima diferente aos relatos.
“(...) em trajes mínimos, provocando, num jogo de pernas que parecia um balé inovador, contracenando com seus cabelos sempre desajeitados.” Essa ambientação do
conto provoca num leitor masculino as sensações típicas de uma situação como essa. Qual homem já não presenciou uma deusa em trajes mínimos fazendo jogo de pernas? Com certeza é um dos espetáculos mais fabulosos do mundo na visão masculina. I. A. Richard já não ensinou que um conto ou um poema devem provocar uma sensação no leitor? É o que faz Borges Netto nesse começo de relato curto.
O conto segue num ritmo de imagens e mistério. Outros apresentam essa qualidade. Por tal razão, o autor os aproveitou em outras coletâneas. Talvez devesse tratar essa antologia com mais carinho, pois mostra qualidades que poderiam ser retomadas, como a utilização da imagem na prosa.
02 - JOGOS DE CALÇADA (1989) - Poesia
Aqueles versos de Fernando Pessoa que já viraram clichê de tão usados (o poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente) se ajustam bem à produção de Borges Netto. O autor de Gravataí sempre gostou de falar de bebida, descrever personagens alcoólatras, porém não é o caso pessoal dele.
No primeiro poema de Jogos de Calçadas (1989), o eu lírico diz, em “Realidade”, que ela está “resumida num copo e nas garrafas vazias”, como se a personagem tivesse o costume de “beber todas”, como se diz por aí, talvez para esquecer a sua vida ou talvez até para festejar. Como dizia Schopenhauer, tudo leva a pessoa a cair no seu vício. O poema seguinte também fala de um assunto importante para Borges Netto, a pescaria, a possibilidade de se envolver com a praia, tanto que adquiriu uma residência no Balneário Gaivota, em Santa Catarina. Em outro poema, o eu lírico trata do sino de uma igreja. Para os fiéis, quando ele badala, está na hora de se dirigir ao culto. Para um trabalhador ateu, que deseja descansar no domingo, depois de uma longa semana de dedicação, “o badalo estraçalha casas” e incomoda uma barbaridade.
Borges Netto nunca teve o costume de escrever sobre questões políticas. Mas, no poema “Esquina”,
mostra preocupação social com os desassistidos: “Favelas e suas frestas / Ventos que assobiam / E congelam as almas”, como se fosse um escritor de esquerda, o que não deve ser o caso.
No poema que dá nome ao livro, o poeta mostra respeito às atividades simples: “Ciganas / Nos seus vestidos coloridos / Ofereciam tapetes / Às atarefadas donas de casa”. Em diversas outras passagens (talvez em todos os volumes da sua extensa obra), também apresenta seus respeitos à profissão de agricultor.
Trata-se de uma coletânea de poemas ao mesmo tempo simples, porém com imagens delicadas e de significado preciso, que mostram como o poeta reflete acerca da existência dos viventes.
01 - MURALHAS DE CRISTAL (1984) - Poesia
Poucos escritores apresentam a qualidade de escrever sobre vários gêneros literários. Machado de Assis é um deles, fez poemas, conto, crônica, novela, romance, teatro e crítica literária. Mas os críticos questionam a qualidade dos seus poemas e do seu teatro. Borges Netto escreveu poemas, crônicas, contos, livros de viagens e romances e não se poderiam apontar defeitos em nenhum deles.
Outro detalhe importante é que, em geral, os autores recusam as suas primeiras publicações. Moacyr Scliar, por exemplo, visitava com frequência as livrarias de sebos para ver se encontrava algum exemplar das suas Histórias de um médico em formação, publicado em 1962. E para quê? Para usá-los na preparação do fogo no churrasco de domingo. Borges Netto não precisaria se arrepender de Muralhas de Cristal, tanto que chegou a republicar a obra em 2004.
Mesmo se tratando de um livro de estreia, apresenta as características que o consagrariam na literatura de Gravataí: o texto simples, as imagens exatas e belas, tudo de fácil compreensão. Aliás, esse é um dos problemas de alguns poetas - escrevem de uma forma que o leitor não compreende. Borges Netto vai por outro caminho, tem muito respeito pelo leitor. Comunicar-se é talvez sua meta.
No poema “Momentos de Lucidez”, parece estar analisando a possibilidade do suicídio. Talvez o autor se encontrasse num momento de encruzilhada, pensando no caminho a escolher na vida e optou pela literatura. Isso talvez fosse em 1983, pouco antes de publicar a antologia. E hoje possui uma bela carreira de escritor citadino com 28 volumes publicados. Todos ganham com isso - ele próprio e os leitores. Pode ser também uma referência a Pedro Nava, que escreveu “Baú dos Ossos” e se suicidou em 1978. Ou seja, pode não ter nenhuma relação com sua vida e ser apenas uma homenagem e lembrança ao memorialista mineiro.
Em geral, os rapazes começam a escrever poemas por causa de alguma paixão. Talvez seja o caso de Borges Netto: “Estou solto no ar / Paraquedas, nem preciso! / Seu olhar me sustenta / Suaviza minha queda / E brinca com minha alma.” As mulheres têm o poder de deixar os homens mais sensíveis.
ÚLTIMAS PALAVRAS
Enfim, este é Borges Netto em rápidas pinceladas, o maior escritor da história de Gravataí, que tanto ama a cidade e a descreve a cada título publicado. No começo da sua carreira, como na antologia de contos Foi Assim..., era um escritor que explorou as imagens em meio à prosa. Com o passar do tempo, foi largando essa característica, focou mais no desenrolar dos episódios e das cenas e ficou mais dramático, mais forte no sentido de controlar as emoções do leitor. Aliás, se quem estiver lendo uma obra de Borges Netto for um homem, será difícil parar com a leitura, porque os enredos mexem com todo o sistema nervoso de um macho. Talvez uma leitora mulher - se é que já teve alguma - pudesse chamá-lo de machista. Mas um escritor se importa em relatar as situações como acontecem na prática, afora o que as pessoas pensam na sua época e na sua região. Borges Netto descreve a sociedade gaúcha de fins do século XX e início do XXI exatamente como é.
Seu texto é simples e facilita a compreensão. Trata-se de frases curtas, com seleção vocabular coloquial. Seu objetivo é descrever o que um homem pensa da vida. Seu autor gosta de criar personagens boêmios, que cantam, tocam violão, apreciam o belo sexo, viram a noite em farras, bebem demasiado e saem com as mulheres. Ou seja, as características que não se veem no autor, pois é o contrário de tudo isso. Parece que Borges Netto incorpora aventuras que gostaria de ter vivenciado, como uma pessoa que vê filmes com a mesma razão. Mas ele escreve. Essa é a diferença.
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O
Anjo da Asa Partida
Ensaio sobre a obra de
Borges Netto
ISBN: 978-65-00-21516-8
ESPERA
(Deste poema foi extraído o verso utilizado para homenagear Borges Netto em Cachoeirinha/RS, e que dá título a este Ensaio: “...o anjo da asa partida...”).
Quase
não durmo.
Minhas
noites
Eternas
peregrinações
No
único bar noturno
Que
me recebe
Na
companhia solitária
Do
meu Eu.
O
garçom,
Quase
como quem ressuscita,
Pousa
outra cerveja sobre a mesa.
E
alço voo.
Sou
o anjo da asa partida
Voando
desajeitado
Para
contar estrelas perdidas
Numa
noite suave.
Quando
as estrelas se escondem
Pouso
no silêncio da minha dor
Este
envolvente silêncio
Que
me abraça
Me
afaga e me afoga
Enquanto
te espero.
Borges Netto
APRESENTAÇÃO
Cada texto vem com o nome original dos livros analisados. Não me
preocupei em destacar um tema por obra. O que sempre fiz foram análises de
leitura, reflexões literárias que surgem ao correr da pena, como diziam os
escritores do século XIX.
A ordem da exposição dos textos obedeceu a um critério bem simples:
peguei um por um dos ensaios que já estavam prontos numa pasta em que os
armazenei no drive. Mas por sorte tive a chance de reescrever tudo, não só “O
Anjo da Asa Partida” como “Natureza da Palavra em Borges Netto”, pois
reescrever é algo fundamental para qualquer amante das Letras.
HOMEM
DO LIVRO
Romance,
2022 – Livro 28
Seria natural que um narrador como Borges Netto algum dia escrevesse um
romance a respeito de um homem que amava livros, porque essa é a sua realidade.
Sobre a estilística do texto, uma vez Dostoievski revelou gostar de copiar
Tolstoi à mão para aprender a como reproduzir o jeito do velho mestre de compor
frases curtas. Se essa prática voltasse entre os escritores, Borges Netto
poderia ser o alvo dessas imitações, porque seu texto alcançou uma espécie de
perfeição formal, se é que isso existe. É claro, flui, envolve o leitor, não
traz nenhum tipo de dificuldade à compreensão. Não daria para elencar todas as
suas qualidades em apenas um parágrafo. Até por isso já foram produzidas duas
obras de estudos a respeito da produção de Borges Netto.
O Homem do Livro deveria ter algum pé na agricultura e na criação de
animais, porque esta foi a realidade de Borges Netto até os 18 anos. O curioso
é que a personagem principal da história lê montada num cavalo. Mas um
escritor, um amante de livros pode ler das mais variadas formas, numa fila de
banco (antigamente as pessoas precisavam esperar em pé. Hoje ficam sentadas, o
que facilita a leitura), dentro de um ônibus ou metrô, numa rodoviária, num
bar, numa praça. Enfim, qualquer local é propício a um leitor voraz.
“Firma bem o pé no estribo direito e coloca o pé esquerdo sobre o
pescoço de Tordilho. É uma posição cômoda para a leitura durante uma
cavalgada.” (NETTO, 2021, p. 25) Já se viram pessoas lendo nas situações mais
diversas, porém num cavalo enquanto cavalga é a primeira vez. Seria
interessante perguntar ao narrador se já conferiu de perto um caso desses, se
alguém efetivamente já leu enquanto cavalgava.
“Apanha o livro preso à sela e dá início a leitura. É sempre assim
quando não quer pensar num assunto preocupante.” (NETTO, 2021, p. 25) Talvez a
maioria das pessoas não compreenda essa passagem, mas um leitor voraz, sim. A
leitura, para quem ama, representa vida, transmite calma, proporciona
concentração e suaviza a existência. E Borges Netto está contando a história de
uma pessoa como ele, um leitor voraz.
“Mas é o quarto ideal para que ele ocupe. Pequeno e perto da cozinha.
Ali ficará um armário. E uma cama. E a estante para os livros. Nada mais é
preciso para se viver bem a vida.” (NETTO, 2021, p. 17) Nesta passagem, o
narrador parece estar defendendo uma visão epicurista da existência, uma vez
que se importa com o prazer das pequenas coisas, uma vida simples com o
necessário para o seu conforto, por mais singelo que pareça.
Uma frase que ficou famosa em Euclides da Cunha sobre o nordestino é “o
sertanejo é acima de tudo um forte” poderia ser reproduzida a respeito do homem
do campo no RS: “Reparar cercas, ordenhar, cuidar da lavoura... É sempre uma
infinidade de tarefas numa área rural. Mas ele não está arrependido. Tudo isso
lhe forjou o espírito e a resistência.” (NETTO, 2021, p. 19) A quantidade de
serviços a cumprir diariamente não deve ser reduzida. Então, parafraseando o
autor de SP, pode-se afirmar que o gaúcho é acima de tudo um forte.
Parece que Borges Netto, nesse romance, se cercou das coisas de que
gosta: a vida no campo e os livros, além das mulheres. Ter a possibilidade de
criar um mundo ficcional é um dos elementos que satisfaz um escritor. Ele pode
ser o que quiser e elaborar uma sociedade que se ajuste a seus desejos.
Muitos escritores, como já se disse na cultura nacional, gostam de
miséria e de pobreza, de criticar, de discutir questões sociais, políticas ou
econômicas. Borges Netto vai por outro caminho. Nunca ofende ninguém, afasta-se
de questões mais duras, prefere uma sociedade que traga elementos importantes
para si, como a música, a arte, a literatura, a vida de boemia e as mulheres.
Quem o conhece sabe que ele não é mulherengo, não bebe álcool, não entra a
madrugada num bar com os amigos, não sabe tocar nenhum instrumento musical,
também não canta e não sabe desenhar. Mas esse mundo é o que lhe chama a
atenção. Talvez admire as pessoas que sejam dessa forma e façam tudo isso. Como
não tem essas qualidades, transfere para a literatura. Borges Netto é ateu, mas
acaba sendo o deus da sua criação.
Como gosta de ver um homem se relacionando com várias mulheres ao mesmo
tempo, o narrador pôs sua personagem principal envolvida com diversas, entre as
quais a sobrinha de uma cliente, uma jovem que aparece de bicicleta em meio à
chuva, a filha do ex-morador da chácara, a dona de uma livraria. Como a
história é 100% fictícia, Borges Netto deixou as personagens por sua conta,
como se tivessem carne e osso. E chegou a revelar a amigos: “Vamos ver se uma
delas vai ter alguma coisa com Lucas”. E agiu corretamente. Não se deve forçar.
As situações precisam acontecer ao natural.
Quando a filha do ex-proprietário da chácara aparece de repente, entra
na casa, vasculha - como em geral fazem as mulheres - e depois vai dar uma
olhada no lago e vê o homem se banhando sem roupas, ela pensa que ele poderia
estar possuído pelo demônio. Borges Netto já revelou em outras oportunidades
ser ateu e aqui está fazendo uma brincadeira. Em muitas passagens, sua
literatura se assemelha ao humor britânico, exatamente como fazia Machado de
Assis. Não chega a escrever piadas que gerem risos descontrolados, mas faz com
que elas esbocem um pequeno sorriso. Esse é um caso. Por que alguém acharia que
um homem tomando banho nu estaria possuído pelo demônio? Isso não faz nenhum
sentido e não existem provas da existência nem de Deus, muito menos do demônio.
Mas há quem acredite, apesar de não se encontrarem evidências.
Um leitor nunca sairá depressivo de uma obra de Borges Netto, ao
contrário do que aconteceria com um leitor de Lúcio Cardoso, que escreveu a
“Crônica da casa assassinada”. Difícil uma pessoa sorridente, alegre e feliz
não ser afetada por este livro de Lúcio Cardoso. O mesmo aconteceria com o
leitor de Borges Netto, mas em outro sentido: ficaria alegre e de bem com vida.
Acharia que tudo vale a pena.
O senso comum diz que o cão é o melhor amigo do homem, seu companheiro
fiel de todas as horas, mas Borges Netto reescreveu esse dito popular. Para
ele, o livro é o companheiro fiel de todas as horas. Pela literatura, se pode
viajar a outros países, como o próprio Borges Netto proporcionou aos leitores
no livro “Longe de Casa”, viver histórias de mistério, como em “Limites de
Segurança”; vivenciar belos romances, como em “A amante do Rincão da Madalena”;
se emocionar com a luta de uma mãe para salvar o filho, como em “Max, o
príncipe guerreiro”; ter uma vida de prazeres e divertimento, como em “O lorde
do casarão”; ou sentir uma pena infinita, como em “Eu tinha uma boneca
encantada”.
A mãe da personagem principal, no momento em que vão se despedir, porque
Lucas vai passar a viver sozinho, enquanto a mãe permanecerá, ela diz: “E trate
de encontrar uma boa mulher para te fazer o café” (NETTO, 2021, p. 23), como se
fosse algo natural, a mulher teria a função de preparar o café e cumprir com as
tarefas domésticas. Essa ainda pode ser a realidade de muitas famílias, e o
trecho representa a sociedade machista em que vivemos. Não quer dizer que o
autor pense dessa forma, mas deve reproduzir na literatura como as coisas são,
como as pessoas se relacionam, o que pensam e os valores da sociedade.
“Lucas tira o dia para consertar a carreta que quebrou durante a
mudança. Finalmente conseguiu rebocá-la para a chácara. Monta e lubrifica o
eixo. Testa a roda, já encaixada no eixo, girando sobre um cavalete. Está
exausto.” (NETTO, 2021, p. 30) Uma das características pessoais do autor – de
saber arrumar as coisas, de ter habilidades manuais – ele também repassa às
suas personagens. Embora a maioria dos homens saiba fazer as coisas, nem todos
os escritores apresentam essas condições, mas Borges Netto é um dos que sabe,
tanto que construiu uma casa numa árvore para sua neta.
“Volta e meia uma minhocaçu, que por ali se diz cobra-cega.” (NETTO,
2021, p. 32) Não é a primeira vez que o narrador traz informações de animais da
região de Gravataí, como se fosse um professor de Ciências ou de Biologia. Além
disso, Borges Netto ainda gosta de falar da história e da geografia da região,
trata dos fatos sociais como um sociólogo e poetisa as belezas naturais da
cidade. Edgar Morin ficaria realizado se dominasse a língua portuguesa e lesse
as obras de Borges, porque o gaúcho parece seguir os ditames do raciocínio
complexo inventados pelo francês.
Nessa obra, Borges Netto descreve detalhadamente como são as lidas do
campo, igual a outro escritor de Porto Alegre, Pio Furtado, que, no romance
“Anatomia de um certo cirurgião”, publicado em 2015, ensina sobre o cotidiano
de futuros médicos. Como certa vez disse Roland Barthes, se tudo fosse
destruído, mas restassem apenas os homens e a literatura, nada teria se
apagado, porque tudo se encontra impresso.
Ao longo da narrativa, a personagem principal recorda um conselho da mãe
- de arranjar uma esposa, para que cuide dele e da casa. E Lucas pensa no
assunto o tempo todo, embora talvez nunca tivesse tido uma namorada e não
esteja a par de como é o relacionamento com uma mulher. No entanto - ou talvez
por isso - reflete sobre a importância de ter uma mulher como se elas servissem
apenas como empregadas domésticas, o que também faz sentido, levando em
consideração que Borges Netto sempre descreveu os fatos sociais pela visão do
macho.
Embora o título seja “Homem do Livro”, o narrador fala apenas dos
afazeres do campo e da agricultura. Só de vez em quando a personagem principal
dedica alguns minutos a ler. E tal atitude faz todo o sentido. Carlos Fuentes,
o grande romancista mexicano, uma vez disse que todos os escritores, para se
dedicar à produção literária, precisavam ter outra profissão e por isso em
geral cursavam Direito. Lucas, o “homem do livro”, não é um escritor, mas ama
os livros e essa é sua forma de se dedicar à literatura, lendo. A agricultura
seria a atividade de sustento que lhe proporciona a dedicação às letras.
Ademais, como já se disse em outro ensaio, Borges Netto parece ter
instituído o tema das lidas do campo na literatura do RS. Salvo engano, nenhum
outro escritor abordou esse assunto em profundidade, explicando passo a passo
as tarefas que um chacareiro executa diariamente.
“Quando filhote foi batizado Cérbero. O cão de Dante.” (NETTO, 2021, p.
41) Exatamente assim fazem os amantes das Letras: põem tudo em homenagem a
alguma coisa que faça referência à literatura. Existe um professor de Língua
Portuguesa, por exemplo, que, em todos os exemplos que prepara a seus alunos,
usa como personagens Joaquim e Maria, porque são os dois primeiros nomes de
Machado de Assis, ou seja, Joaquim Maria Machado de Assis. E esse mesmo docente
ainda comemora o dia 21 de junho como se fosse o seu aniversário, mas é o
aniversário do Bruxo do Cosme Velho. É o que faz aqui Lucas ao homenagear Dante
por escolher o nome do cachorro da Divina Comédia. Celso Gutfreind disse, em
“Hotelzinho da Sertório”, que lê Dante todos os dias à tarde e sempre se
emociona. Carlos Nejar também o cita com frequência. Parece que alguns autores
do Sul tem o bardo italiano em grande conta.
“Felizmente a companhia de eletricidade reinstalou os fios. Vieram antes
das chuvas. Agora tem todo o conforto de uma casa como se morasse na cidade.”
(NETTO, 2021, p. 53) Se fosse outra situação, teria conforto de uma cidade se
tivesse Netflix, redes sociais e talvez até livros em pdf. Mas Lucas parece um
epicurista, isto é, curte os pequenos prazeres, o relacionamento com a natureza
e os livros. Não precisa de muito mais para viver. Só sente falta de uma
companhia de saias.
Borges Netto já escreveu um livro de contos a
respeito de gatos, não porque gostasse do assunto, foi pedido da neta. E volta
a introduzir um gato numa história. Lucas, que vive sozinho, recebe a visita de
um gato que não sabe de onde vem, mas é o bicho da mulher que fora visitá-lo.
Embora seja ateu, Borges Netto, igual a José
Saramago, sempre fala alguma coisa de religião, até porque tal assunto é
importante para a maioria das pessoas: “Sobrando um tempo, irá conhecer a
igreja Matriz. No vilarejo de onde veio há apenas uma capela. O padre aparecia
lá aos domingos para rezar a missa no meio da tarde. Era sempre o maior evento
social da localidade.” (NETTO, 2021, p. 92) Outros escritores nem mencionam o
lado espiritual das pessoas. É como se para eles nem existisse. E não é
correto. Um escritor, que tem por missão retratar o que se passa na sua
comunidade e na sua época, precisa abordar aspectos religiosos dos seus
concidadãos, mesmo que os ache absurdos.
Talvez o narrador saiba da diferença entre cão e
cachorro na língua. O gramático Napoleão Mendes de Almeida criticava quem
chamasse o animal de cachorro. Para ele, só poderia ser cão. E se entende. A
língua espanhola, irmã e quase igual à portuguesa, entende o cão como o bicho
em si e cachorro como filhote de quaisquer animais, inclusive dos gatos. O
narrador do Homem do Livro, quando visita uma igreja, diz:
Cerbe continua na porta da igreja. Lucas não
quer que o cão entre. Sabe que não conseguirá, só com o olhar, mantê-lo fora da
igreja por muito tempo. Volta e meia olha para o cão lá na porta. O cão já não
sabe se deve entrar ou permanecer lá pelo número de vezes que o dono se volta
para ele. (NETTO, 2021, p. 93)
Talvez todos os romances precisem de um norte, de algum ponto para
prender a atenção do leitor, um objetivo a ser desvendado até o final da
narração. No caso do “Homem do Livro”, é a tentativa de arranjar uma esposa com
as características que ele deseja: mulher do campo, que saiba de todos os
afazeres domésticos, cuide da casa, entenda das lidas de um chacareiro, essas
coisas. Não poderia ser uma moça da cidade.
Volta e meia, o narrador de Borges Netto desenvolve sua forma de ver o
mundo, mas não que estivesse representando o que pensa do ser masculino. Chama
para si a responsabilidade de reproduzir uma parcela da população com
pensamento machista da sociedade e da mulher. Em resumo, quando a personagem
fala do amor, diz que os homens, em geral, mentem para conquistar a fêmea, até
porque só pensam em sexo, e diz que, no homem, não existe amor: no máximo, uma
afinidade. O importante mesmo é pegar a mulher:
Tão mentirosos quanto nós, homens. Mascaramos as
verdades no intento da conquista. Depois não reconhecemos as promessas e
argumentamos sob outro ângulo. Para não cumpri-las. É sempre assim.
Definitivamente não existe esta coisa de amor no mundo masculino. O que para as
mulheres é amor, nos homens não passa de uma simples afinidade. (NETTO, 2021,
p. 95)
No interior, parece que as pessoas não têm nada para fazer ou para
ocupar suas mentes, tanto que o tema da maioria, senão de todos, é falar da
vida dos conhecidos. Há famílias que se reúnem em festas, comemorações,
aniversários e só discutem a vida alheia. Gravataí deve ser uma dessas cidades,
tanto que Lucas vai ao dentista e a moça da recepção pensa o seguinte: “Que
sorte a dela ter o estranho homem diante de sua mesa aguardando o doutor. Ouviu
tanto falar dele. E de tanto ouvir já havia formado uma imagem.” (NETTO, 2021,
p. 98)
Igual situação acontece quando vai a um mercado na Aldeia. Pergunta se
há uma livraria por perto, e o dono do mercado começa a contar toda a vida da
proprietária, como se interessasse a Lucas, mas ele não tem apego por falar da
vida dos outros. “— Sim. A livraria é da Joana. Ela mora sozinha nos fundos do
prédio. O marido deixou dela faz muitos anos… / — Para! Para! Não preciso da
ficha completa dela.” (NETTO, 2021, p. 121)
Parece que todos os moradores dessa Gravataí idealizada se impressionam
com a existência de um Homem do Livro, e essa atitude é bem natural, porque, na
realidade, pouca gente “perde” seu tempo com leituras. Uma vez uma pedagoga
formada numa Universidade em Gravataí criticou sua amiga, porque fora a uma
feira comprar um livro. A pedagoga achou um absurdo. Uma mulher, na sua visão,
deveria comprar roupas, bolsinhas, calçados, maquiagem, nunca um livro. E os
índices oficiais de leitura do RS comprovam esse desapego. Na pesquisa Retratos
de Leitura no Brasil, executada pelo instituto Pró-Livro, dados lançados em
2020, registrou uma diminuição de 4,6 milhões de pessoas que perderam o hábito
no Brasil. Essa diminuição teria acontecido entre 2015 e 2019. Foram
entrevistados 8.076 pessoas de 208 municípios de 26 estados brasileiros, entre
outubro de 2019 e janeiro de 2020. Apesar disso, a média de leitura nos últimos
três meses (porque é assim que a pesquisa é feita) se manteve estável, girando
em torno de 2,6 livros por pessoa. Borges Netto, que de certa forma homenageia
a si próprio e a pessoas como ele nesse romance, deve ler um livro por semana,
quando não mais do que isso, e sua média de leitura deve girar em torno de 48
por ano.
Lá pelas tantas, o narrador faz um resumo da história de vida de cada
uma das filhas de Outeiro, o ex-dono da chácara, e tal procedimento dá um
andamento diferente à história, que, até aquele instante, detalhava os afazeres
de um chacareiro.
Renata visita Lucas e combinam de se encontrar naquela noite mesmo.
Quando ele chega à residência da mulher, ela já aparece despida. Isso às vezes
acontece com mulheres mais velhas. Elas sabem o que querem e vão atrás, sem
constrangimento, o que facilita as coisas. Muitos homens gostam das mulheres
mais velhas exatamente por essa razão, por não terem “frescuras”.
“Diz que o autor é tão bom que é possível imaginar-se dentro daquela
pescaria.” (NETTO, 2021, p. 120) Aqui a personagem Lucas aborda um livro que
leu numa matéria de jornal - “O Velho e o mar”, de Hemingway. Pois é o que o
narrador pensa a respeito da literatura. Seus romances também apresentam essa
característica: fazem o leitor vivenciar a história, sentir-se dentro dela. Tudo
fica real.
A dona de uma livraria convida Lucas para um jantar, porque está
interessada nele e, lá pelas tantas, ela “analisa a vizinhança sob a ótica
feminina.” (NETTO, 2021, p. 130) Esse é um ponto crucial. As mulheres sempre
analisam as situações pela ótica feminina. Por essa razão, é difícil para um
homem compor personagens femininas com alguma qualidade, apesar de se dizer o
contrário. Há leitores, críticos literários e escritores que elogiam as
personagens femininas de um Erico Verissimo ou de um Machado de Assis. Pode ser
que eles tenham refletido com algum acerto em alguma situação, mas a verdade é
fica mais difícil para um escritor formatar o mundo feminino, exatamente porque
um homem pensa como um homem, não como uma mulher.
Quando Joana fala sobre a narrativa russa e diz que é lenta, o Homem do
Livro a corrige, defendendo a maestria russa na narrativa longa. Aqui a
personagem tocou num detalhe nevrálgico para o desenvolvimento das conversas do
dia a dia na sociedade brasileira. Quase ninguém mostra conhecimento de coisa
nenhuma. O Brasil é um povo inculto. Difícil conversar com outra pessoa a
respeito do que quer que seja, porque muito pouca gente estuda. Acerca de
livros a coisa é pior. O brasileiro não tem costume de ler. Porém, apesar da falta
de estudo e de leitura, todos pensam ter condições de emitir opinião sobre
qualquer tema, e acabam falando as maiores atrocidades, como essa de sugerir
que um Tolstoi ou um Dostoievski não sabem escrever, e compuseram narrativas
que transmitem a sensação de arrasto. “Guerra e Paz”, de Tolstoi, por exemplo,
apesar das suas 1531 páginas, é só movimento, é um constante fluxo de ações e
diálogos, intercalando situações de tensão e por esses e outros detalhes esse
romance é tido como uma das maiores obras do gênio humano, bem ao contrário da
lentidão sugerida pela personagem.
Outro fator interessante, mas que Borges Netto já usou em outras
narrativas, é que não descreve com pormenores os atos sexuais. Apenas sugere o
que se passou, sem mais palavras. Embora existam leitores que apreciam o
pornográfico, talvez a maioria não se agrade de cenas pesadas. E não
mencioná-las funciona como uma espécie de respeito para com o leitor mais
sensível.
Uma das personagens, Zinho Garcia, pai de duas moças, diz para elas que
“ficassem em cima dos cadernos, estudando. Evitariam ter o mesmo destino dele,
trabalhando de sol a sol no cabo da enxada.” (NETTO, 2021, p. 154). Em Santo
Antônio da Patrulha, há um dito popular segundo o qual “a caneta é mais leve do
que a enxada”, e todas as pessoas poderiam ter profissões de bom rendimento e
pouco sacrifício, até porque hoje em dia existe a Universidade Aberta do
Brasil, que oferece cursos universitários gratuitos e de qualidade a todas as
pessoas, mas parece que os jovens de hoje em dia pensam tão somente no hoje,
nunca no amanhã. O que eles querem é ter prazer hoje e, por isso, se livram
cedo da escola. No futuro, isso lhes trará consequências, como o desemprego ou
anos de vida se dedicando a afazeres penosos e de pouca rentabilidade. Aí vão
se queixar da vida, usar drogas, beber e até roubar. Quando tiveram a
oportunidade, não a aproveitaram, porque, para eles, o importante é sempre
aproveitar o hoje.
Algumas vezes, o personagem Pedro
Outeiro é mencionado como estando infeliz por ter tido várias filhas mulheres,
e não um homem que o ajudasse a cuidar da chácara: “E o pai olhava aqueles
meninos todos e se sentia tão frustrado por não ter os próprios meninos.” (NETTO,
2021, p. 157) É mais uma vez a visão machista da sociedade. Platão dizia que
tanto homens quanto mulheres poderiam exercer quaisquer funções. Dependeria
apenas das aptidões de cada um. Mas é claro que não se veem tantas mulheres
trabalhando arduamente na roça. Essa atividade, em geral, fica para os homens.
Enfim, mais uma vez Borges Netto
apresenta as suas características de narrador: frases pequenas, intercaladas de
uma forma que facilita a leitura, seleção vocabular simples, o que também deixa
o texto agradável. Está longe de um Luiz Antônio de Assis Brasil, de um Pio
Furtado ou de um Luiz Nicanor, que amam expressões eruditas.
Os livros de Borges Netto sempre envolvem o leitor, mas, ao contrário de
outros enredos em que sempre falou de boêmios, músicos e bêbados, desta vez
aborda um homem que, como o próprio narrador, ama os livros e a agricultura.
Então fala um pouco de livros, mas investe quase toda a narrativa na descrição
das lidas do campo. É quase um manual de como cuidar de uma chácara.
REFERÊNCIAS:
CARDOSO,
Lúcio. A crônica da casa assassinada. 15.ed. RJ: Civilização Brasileira, 1999.
CUNHA,
Euclides da. Os Sertões. Rio de
Janeiro: Edirouro, s/d.
MARTINS,
Cyro. Estrada nova. 7. ed. Porto
Alegre: Movimento, 1992.
___.
Porteira fechada. 10. ed. Porto
Alegre: Movimento, 1993.
___.
O príncipe da vila. Porto Alegre:
Movimento, 1987.
___
A entrevista. Porto Alegre: Sulina,
1968.
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Sem Rumo. 6.ed. Porto Alegre:
Movimento, 1997.
PLATÃO.
A República. Rio de Janeiro: Ediouro,
s/d.
___.
Diálogos. São Paulo: Nova Cultural,
1996.
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Apologia a Sócrates. Pará de Minas:
Virtualbooks, 2000.
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Hípias Maior. São Paulo: Nova Cultural, 1997.
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Teeteto e Crátilo. 3.ed. Belém: UFPA,
2001.
___.
O banquete. Pará de Minas:
Virtualbooks, 2000.
TOLSTOI,
Liev. Guerra e Paz. São Paulo: Paulus
Editora, 2004.
UMA NOITE ACAMPADOS
Memórias, 2021 – Livro 26
Borges Netto parece apaixonado pela neta. Já escreveu um livro inteiro
por solicitação da moça: A Gata Carmelita,
publicado em 2020, e Uma Noite Acampados,
que estava previsto para 2021. No começo deste último, o autor revelou que se
organizou para um acampamento, porque a neta desejava fazer isso. É bem como
diz o senso comum: os pais educam, e os avôs deseducam, fazendo todos os
desejos das crianças. “Ela tem as ideias, e eu tenho que criar as condições e
executar.” (NETTO, 2021, p. 12)
Embora James Joyce tenha escrito Ulysses
em mais de 500 páginas acerca de um único dia, não é fácil escrever um livro
todo sobre a experiência de uma noite de acampamento. Precisa ter enormes
possibilidades de discurso, e Borges Netto, autor de 25 livros individuais e
tendo participado de 10 coletâneas, está preparado para o intento.
Talvez para transformá-lo numa situação mais emocionante, Borges Netto
inventa um personagem, o Homem do Machado, que “persegue crianças perdidas na
mata com seu machado” (NETTO, 2021, p. 12) Os pequenos acreditam nas coisas que
os adultos falam e, na mão de um escritor, uma garota poderia viver grandes
aventuras, tudo vindo da imaginação dele.
“Ambos os personagens, Homem do Machado e Homem da Espingarda, têm uma
tarefa específica: aterrorizá-la para tornar a noite mais aprazível com as
histórias que já estou preparando.” (NETTO, 2021, p. 13) Porque a esposa também
criou um personagem, o Homem da Espingarda, que tinha por missão afastar os
intrusos do acampamento.
A função das histórias não é exatamente assustar a mocinha, mas fazer
com que ela fique com medo e, assim, não tente se afastar dos avós:
O Homem do Machado vai entrar pelo camping
cortando as barracas ao meio. Depois perseguirá os homens em fuga. Passará o
machado naqueles que conseguir alcançar. As crianças terão que correr para a
mata que estará infestada de monstros. Sem contar com o bando de esqueletos
saltando do alto das árvores. Haverá também alguns tiranossauros famintos.
Monstros, esqueletos e tiranossauros, todos buscam as meninas mais bonitas. Ela
sabe que está neste elenco. Então pergunta como faz para escapar de todos estes
monstros, esqueletos e tiranossauros. A resposta é simples: ficando sempre do
lado do avô e da avó. É a pedagogia da criança segura. (NETO, 2021, p. 13)
É interessante acompanhar o carinho do escritor para com sua neta.
Borges Netto já emocionou o leitor em várias situações, mas é a primeira vez
que o faz ao descrever cenas entre avós e a neta. Por exemplo, todos os pais se
divertem e até se emocionam quando veem seus filhos dizerem expressões
equivocadas para descrever alguma coisa. Isso faz parte do senso comum da
relação entre adultos e crianças, e sua neta não ficou para trás: em vez de
dizer chapeuzinho, dizia “Saupezinho” (NETTO, 2021, p. 14), com acento aberto
no “e”. É tão belo acompanhar as conquistas das crianças. Há pais que choram
copiosamente ao ver os primeiros passos de um filho, por exemplo. “Como é
maravilhosa a vida entre um avô e sua neta.” (NETTO, 2021, p. 15)
Borges Netto é um escritor de imaginação. Raramente expõe fatos do que
estão acontecendo na vida lá fora. Porém se viu forçado a falar sobre a greve
dos caminhoneiros, que infernizou o país entre os dias 21 e 30 de maio de 2018.
Como mora em Gravataí e pensou em realizar o sonho da neta indo acampar em
Rolante, ficou preocupado com a gasolina que dispunha no carro e não sabia se
daria para ir e voltar, mas temia entristecer a neta, caso não desse para
viajar.
Aos poucos, surgem alguns detalhes da vida do autor. Afinal, ele está
escrevendo um livro de memórias com um propósito bem claro: contar as situações
para a realização do sonho da menina Alice. Lá pelas tantas, o autor fala da
profissão de ferreiro: “Não quero perder o espetáculo que é um ferreiro em seu
ofício em seus últimos suspiros. Adoro as coisas arcaicas e que o tempo,
infelizmente, está soterrando.” (NETTO, 2021, p. 19)
Outra característica de Borges Netto, que parece ser a de todos os
escritores, é a necessidade de ter sempre um livro à disposição para situações
em que terá de esperar muito. Há pessoas da área das Letras que nunca vão, por
exemplo, a uma fila de banco sem um livro. Nesse caso, Borges Netto está
contando como enfrentou a fila no posto para conseguir gasolina:
Não tenho muita paciência com esperas. Salvo se tiver um livro. Aí toda
a impaciência se vai. Me entrego à leitura de corpo e alma. E relaxo. É para
isso que se inventou o livro. É então que tenho uma triste surpresa: na pressa,
saí de casa sem um livro. Como vencer a espera? Já sei: vou ligar para a Denise
e pedir um livro. Ela é meu anjo salvador. Um livro ajudará a vencer o tédio e
a impaciência desta fila gigantesca. (NETTO, 2021, p. 19)
“É feriado de Corpus Christi.
É uma das vantagens de morar em país de maioria católica. Muitos feriados
religiosos.” (NETTO, 2021, p. 21) Gilberto Freire revelou, em Casa Grande Senzala, que, no período de
colonização, quando o governo brasileiro foi à Europa fazer campanha para que
imigrantes de vários países viessem morar no Brasil, só havia uma exigência:
que o europeu se declarasse católico. Por isso ainda somos um país católico.
Segundo o IBGE, 86,8% dos brasileiros são cristãos.
O autor se surpreende de a neta não conhecer o músico Roberto Carlos,
apesar de ela ter apenas 9 anos e conhecer somente o funk. Quando chegam à
cidade onde farão o acampamento, o avô mostra a estátua de Teixeirinha, um
famoso cantor popular do Rio Grande do Sul, falecido em 1985. Mas nada surte
muito efeito com a pequena. Estamos numa época desastrosa para a música
nacional. Milton Nascimento chegou a dizer que a música praticada no Brasil
atualmente era uma M. E Moacyr Scliar, anos atrás, numa crônica de Zero Hora, fez um pequeno deboche e
sugeriu que somente poetas ou compositores consagrados tivessem o direito de
compor as melodias, porque a situação, no início dos anos de 1990, já estava
calamitosa.
Alice se encanta com a possibilidade de pegar livros perto da biblioteca
de Rolante e levar sem burocracia ou custo e escolhe o de Rapunzel. Parece que
o amor aos livros já está sendo compartilhado com a pequena.
Um detalhe bonito e honesto é que o autor, conhecido por ser ateu,
explica imparcialmente as informações acerca das procissões religiosas. Fosse
outro pai ou avô, incutiria na mente da criança todas as suas crenças e modos
de pensar. Borges Netto quer que a moça tenha a liberdade de escolha e por isso
tenta não influenciá-la.
“— Passou por cima da represa e já estarão no distrito de
Mascarada.”(NETTO, 2021, p. 27). Uma das características da literatura de
Borges Netto, desde os seus primeiros livros, é mencionar localidades que
visita ou onde aconteceu algum fato da história. Por essa razão, este parece
ser um dos pontos de Rolante, para onde o autor levou sua neta a uma aventura
de acampamento.
“Ela confia cegamente nas coisas que digo e sabe que vou atrás de cada
resposta para satisfazer completamente sua curiosidade. Não posso
decepcioná-la. Me esforço muito para isso.” (BORGES, 2021, p. 30) Poucos avós
são escritores e transformam em palavras o que acontece entre avô e neta.
“Vou sempre a rumo, como diríamos na roça.” (BORGES, 2021, p. 31) Borges
Netto, embora tenha largado a agricultura há décadas (Na verdade, trabalhou na
capina somente quando jovem), sempre traz memórias do campo, às vezes uma
frase, às vezes uma situação. “Mal sabe ele o quanto o invejo por estar ali,
diante de uma terra tão bem trabalhada, com seus canteiros bem cuidados,
produzindo uma infinidade de hortaliças.” (BORGES, 2021, p. 32) É por essa
razão: o autor ama isso tudo.
Em algumas situações, Borges Netto faz flashbacks, como um Erico Verissimo. Lembra algum fato semelhante
ao daquele momento, conta-o e volta para a história. Quando a avó e a menina se
equilibram nas pedras do riacho, se recorda da pequena tentando aprender a
andar de bike.
Como o texto é elaborado em flashbacks,
com várias lembranças, o narrador, quando recorda o irmão, explica a estratégia
dele e faz algumas reflexões a respeito para só depois retornar ao fio da
narrativa.
O avô está sempre disposto a fazer tudo pela neta, arruma os arredores
da barraca, para que o ambiente seja mais civilizado, observa a avó e a menina
jogando palha no riacho e dizendo que isso tem a ver com pedidos a serem
feitos. O avô pensa quais poderiam ser, porque ele quer atender.
É realmente uma aventura criar uma criança, observar e registrar suas
conquistas, as palavras que inventa, os seus desejos. Dá muita possibilidade de
criação a um escritor. E foi o que Borges Netto fez, não só nesse livro, como
em outras produções também, usar a convivência com a neta para escrever. Se o
leitor foi pai ou mãe, achará lindas as histórias e os cuidados feitos entre
avós e neta.
“Então aproveito o grito de uma aracuã e levanto o dedo em sinal de
atenção e pedindo silêncio.” (BORGES, 2021, p. 48) A sabedoria do autor de
animais e plantas dá um toque especial ao texto, porque, além de proporcionar
ao leitor uma história de cuidado com a neta, ensina detalhes da flora e da
fauna. É quase como se o leitor estivesse tendo uma aula de Ciências, na mesma
proporção que no livro Longe de Casa,
publicado em 2018, recebeu uma de história.
Em cada aventura, a menina de 9 anos percebe que o avô sempre é o líder
e pergunta o porquê disso. (NETTO, 2021, p. 49) Está despertando para o direito
das mulheres, para a igualdade de gênero, isso que não sabe muita coisa da
vida, nem as lutas que as belas já travaram pelas suas possibilidades de ação.
Como líder, a menina quer o bastão do escritor, uma espécie de bengala
que ele usa por ter problemas de locomoção. Não se dá conta de que um líder não
utiliza obrigatoriamente um bastão. A garota também inventa histórias, como o
escritor faz para diverti-la. Essas atitudes provam que os filhos ou, nesse
caso, uma neta, se espelham em quem os cria. Se admiram o pai ou a mãe, é este
ou esta que irão copiar provavelmente em tudo, nas ideias, na ideologia, no
comportamento.
O escritor observa o que acontece no acampamento e descreve cada uma das
cenas. Embora sejam situações verídicas, dá a impressão de uma novela de
aventura, mas de situações do dia a dia, que talvez sejam mais saborosas que as
aventuras mirabolantes.
“E é isso que quero. Que ela tenha todas as experiências possíveis,
enquanto as coisas estão acontecendo.” (NETTO, 2021, p. 61-62) Tudo é
aprendizado o que as pessoas necessitam para se adaptar à sociedade.
“Não entendia como podiam aqueles ciganos, com carros tão luxuosos,
morar dentro de uma barraca. E nós, que tínhamos uma casa, andávamos de
carroça.” (NETTO, 2021, p. 62) No Facebook, circulou algumas vezes algo no
mesmo sentido: professores reclamando dos salários, porém, quando se via o
estacionamento, carros luxuosos. Talvez a explicação faça parte do comportamento
social. As pessoas compram veículos para quitar em cinco ou seis anos, com
prestações elevadíssimas. A meta é a ostentação. As pessoas mais responsáveis
preferem algo seguro, equilibrado e não tem por meta aparecer. Por isso compram
carros de preços razoáveis, de preferência até à vista ou de uma forma que não
deixe a família endividada.
A seguir, dá satisfação ao leitor e diz que se perdeu na leitura. Mal
sabe o narrador que essas andanças proporcionam maior densidade ao texto:
Perdi o foco da narrativa. Não se preocupem. Não
é a minha idade. Isso sempre me acontece. Preciso estar muito atento para que a
narrativa saia o mais linear possível. Mas coisas do passado, armazenadas
indiscriminadamente em meu cérebro, surgem quando menos espero. Sempre quando o
tema é correlato. Lembrei: estava levando Alice para ver o acampamento cigano.
(NETTO, 2021, p. 65)
Claro que se trata de um livro de memórias entre um escritor e sua neta,
mas, aos poucos, a cada passagem, percebem-se informações pessoais sobre o
autor, que daria até para escrever uma biografia ou um grande ensaio. Lá pela
página 69, por exemplo, descobre-se que o autor ama história e se surpreende
quando a neta não mostra interesse pela vida de Dom Pedro I. Antonio Hohlfeldt
escreveu uma espécie de biografia de Erico Verissimo somente a partir da
literatura. No caso de Borges Netto, não faria muito sentido um escritor de
fora produzir uma biografia dele, visto que ele próprio, por ser escritor,
poderia escrevê-la.
Outra informação que o leitor colhe é que Borges Netto costume ler dez
livros por mês. Isso lhe proporcionaria uma enorme erudição. Mesmo assim, nada
de pomposo ou esnobe transparece nos seus livros. Borges Netto não é um autor
que deseje se exibir, não quer se mostrar, nem parecer melhor que os outros. Lê
apenas porque lhe é importante, porque sobrevive com a literatura. Nada além.
Voltando aos traços autobiográficos que se podem apontar nesse livro, o
autor afirmou que foi culpa do ex-presidente Lula o fato de a língua portuguesa
perder o trema no U. A neta passou a achar que todas as culpas do mundo talvez
devessem ser creditadas ao ex-presidente.
Algumas mulheres têm uma estranha vontade de mandar. A menina de 9 anos
decidiu que todas as moedas de casa lhe pertenciam. E o avô, que faz tudo que
ela deseja, só disse que sim.
— Sim. Coisas de mulher. Quando se é loira e
gostaria de ser morena; usar óculos quando não gostaria de usar...
— Já entendi: ser baixinha quando gostaria de
ser alta...
(NETTO,
2021, p. 71)
Talvez o autor tenha escrito essa obra para registrar os momentos com a
neta, não só o acampamento em si, mas todas as situações que vivenciaram
juntos. Quando a moça estiver um pouco maior, lerá com saudades e emoção essas
páginas, com certeza, elaboradas com muito sentimento. No próximo capítulo,
envereda-se pelo romance histórico, mais um texto ambientado em Gravataí.
REFERÊNCIAS: FREIRE, Gilberto. Casa Grande Senzala. Arquivo em pdf.
HOHLFELDT, Antônio. Érico Verissimo. 4. ed. Porto Alegre:
Tchê, 1984.
VERISSIMO, Erico. O Continente. São Paulo: Círculo do
Livro, s/d.
___. O retrato. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
___. O arquipélago I. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
___. O arquipélago II. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
___. O senhor embaixador. Rio de Janeiro: Globo, 1987.
___. Incidente em Antares. Rio de Janeiro: Globo, 1987.
___. Solo de Clarineta. Porto Alegre: Globo, 1976.
___. O
Prisioneiro. Porto Alegre: Globo, 1967.
A GATA CARMELITA
Contos, 2020 – Livro 25
Em dois momentos do primeiro conto – “O Gato e Apollo”, o autor se
aprofunda em digressões, se arrepende e fala que está perdendo o foco. Machado
de Assis conversava com o leitor, brincava com ele. Que tipo de reação um
leitor pode ter com esse procedimento vai depender de pessoa para pessoa. Cada
um pode apresentar um comportamento diferente.
O primeiro conto da antologia é um relato de mistério. Dois rapazes e
uma criança vão caminhando e ouvem o som de um gato. Um deles afirma que uma
moça estava ali. O menino se assusta. Parece claramente que vão pregar uma peça
na criança. O diálogo expande a tensão. No final das contas, era um encontro
entre uma adolescente e o “grosso” do Apollo. O menino se impressiona que uma
mulher fosse querer um tipo cascudo como ele. Mas os homens não entendem o que
passa na cabeça de uma bela. Certa vez, Apolinário Porto Alegre, em O Vaqueano, disse, não com estas
palavras, que é mais fácil contar todos os grãos de areia do fundo do mar do
que entender uma beldade.
“Escrever o que via e ouvia foi um hábito que adquiri neste tempo. Para
não esquecer e contar para meus irmãos lá em Canoas.” (NETTO, 2020, p. 20-21) O
autor já revelou isso em outras oportunidades. Foi por essa razão que se
transformou em escritor. E o ponto favorável é que escreve com uma linguagem
simples. Há escritores difíceis que atrapalham a leitura, como Paulo Leminski,
em Catatau, ou Carlos Nejar na
maioria dos seus livros. Não são maus autores, pelo contrário. Mas escrevem
para especialistas, críticos ou professores de literatura, não para leitores
comuns. Não é o caso de Borges Netto.
Do pouco que se sabe da vida do autor, é que ele não se ajustava às
brincadeiras normais dos outros garotos e, por essa razão, se dedicava às
leituras e, futuramente, à produção de livros. Essa é a vida de um escritor.
Aliás, vários deles não sabem fazer nada da vida normal de um homem, só ler e
escrever:
Já não me convidavam para partidas de tacos. Com
bolas de gude eu era uma negação. Pandorgas, jamais consegui empinar. E
confirmaram-se as previsões: fui afastado dos torneiros seguintes do Gato ao
Alvo. Primeiro fiquei triste. Depois feliz por não ter jeito com estes jogos
infantis. Afinal era apenas mais um jogo bobo e cruel. Melhor ficar só com as
leituras. (NETTO, 2020, p. 51)
A personagem principal do conto, a narradora, é uma criança e por isso
mostra sua ingenuidade de então. Vários filósofos estudaram o belo na vida e
nas artes, Kant, Hegel e outros. Kant, por exemplo, achava que o belo estaria
na natureza. Hegel disse que se encontrava nas artes. Mas se vê em todas as
situações, pessoas, atos e coisas, e a ingenuidade de uma criança é bela:
Melhor então esperar o namoro de Apollo terminar
e seguirmos os três juntos. Fui tranquilizado de que o namoro era rápido. Para
mim o namoro era passear com uma garota de mãos dadas pela praça De Cima.
(NETTO, 2020, p. 20)
Talvez não seja interessante descrever cenas explícitas de sexo, como
fazem alguns autores, Henry Miller entre eles. O ideal quem sabe é sugerir mais
do que dizer. Isso pode despertar o sentimento sensual no leitor mais até do
que se o autor dissesse claramente as coisas. Foi o que fez Borges Netto no
seguinte pensamento: “Aquela parte que levou a garota a arrancar dois pés de
mandioca se segurando neles com as mãos, enquanto o namoro acontecia. Além de
lavrar a terra com os calcanhares.” (NETTO, 2020, p. 20)
Como o livro são histórias de gatos, é natural que algumas delas sejam
cômicas, igual a esse trecho de “O Gato da Dona Rita”. Uma vez que pega o
leitor de surpresa, este acaba rindo das estripulias da cadela Flor, que corre
atrás de todos os gatos, o que termina gerando confusão:
Mas não tenho soltado a Flor. Não sei por onde
ela escapa. Ela parece ter um radar. Detecta o gato mesmo antes de ele aparecer
na rua. Teve um dia que escapou e ficou desorientada na calçada. Demorou a
localizar o bicho. Quando identificou o alvo, partiu em disparada e não
percebeu a bicicleta do carteiro que ia passando. O carteiro se desequilibrou e
foi de encontro ao barranco. A pancada o jogou no chão e entortou a roda da
bicicleta. Então liberei o menino que se esconde dentro de mim, me escondi
atrás do portão e dei muita risada. (NETTO, 2020, p. 25)
A antologia de contos tem por objetivo, de certa forma, trabalhar com
todas as possibilidades de inserção do tema gato na literatura. O primeiro
conto apresenta aspectos sensuais, até pornográficos, se o leitor compreender o
ponto a que o autor quer chegar; o segundo é humorístico. O terceiro dá a
impressão de que percorrerá o estilo terror, até porque o nome do conto é “O
Gato da Defunta”. Mas, na verdade, é um conto acerca de remorso.
Neste, fala-se do comportamento do filho que não via a mãe há cinco
anos, tudo por causa da esposa dele que procurou afastá-lo da progenitora.
Interessante que o homem obedecia à mulher, principalmente porque ela retribuía
da forma que todo o macho espera. O importante do enredo é que intercala o fato
de que a mãe morreu e o filho ficou com o arrependimento de não ter mais ido
visitá-la. É um conto de remorso.
Pouca gente mostra respeito em situações graves. Ficar contando chistes
e dando gargalhadas num velório é no mínimo desrespeitoso, mas as pessoas não
se importam com os sentimentos dos semelhantes. O autor reproduz isso nesta
passagem: “Os homens estão lá fora. Estão conformados com a perda da
costureira. Já contam piadas naquela escuridão. Dão gargalhadas. Marco Aurélio
não sabe se aquele clima descontraído é bom ou ruim para a mãe encontrar o
caminho do céu.” (NETTO, 2020, p. 32-33)
O gato se acomoda no corpo da defunta, e o personagem decide permitir,
porque, como ressaltou, foi a companhia que a mãe teve nos últimos cinco anos.
É mais uma vez o remorso em ação.
Todos os livros deveriam ter um fio condutor, algo que fizesse sentido
do início ao fim. Nos romances, isso é mais fácil de alcançar, porque se trata
da mesma história, mas na poesia, na crônica e no conto é mais difícil, uma vez
que o autor pode se entreter com outros temas e ir por caminhos diferentes.
Borges Netto teve o cuidado de se ater ao assunto e, por essa razão, trata-se
de uma coletânea focada.
Uma das figurantes, Dona Princesa, critica o fato de o personagem não
saber rezar o Pai Nosso e faz referências maldosas à esposa dele, que não reza,
mas sabe fazer filhos, como se tal procedimento tivesse alguma relação. Dona
Princesa perdoa o rapaz, pois se lembra de que “ela mesma, católica fervorosa
que é, não se apaixonou por um ateu na juventude?” (NETTO, 2020, p. 35) Os
católicos, talvez a maioria deles, fazem um silogismo aristotélico por
instinto, sem pensar, isto é, que apenas os católicos são boas pessoas. Fulano
não é católico. Então, não é boa pessoa.
Os contos são densos, talvez porque não aja muita ação. Por esse motivo,
o autor precisa preencher os espaços com impressões e detalhes, dando vida às
situações. O leitor recebe vários elementos para entender melhor o que tem à
frente. E tudo é facilitado, porque o autor escreve com frases curtas e bem
claras, não impondo nenhuma dificuldade para a compreensão.
“O Gato da Taquareira” começa falando do mundo dos insetos, como se o
autor fosse um Manoel de Barros, que só escrevia sobre os bichos, pelo menos
nos primórdios da sua produção. Depois, por causa de exigências editoriais, o
poeta de Campo Grande mudou de rumo. E Borges Netto vai despejando o seu
conhecimento de agricultura, de como funciona a cadeia alimentar, que bicho
come o quê.
Com o enorme conhecimento que tem de animais e plantações, imaginem que
romance ou talvez uma antologia de contos Borges Netto poderia fazer com esse
material? Se der voz aos bichos e às plantas, não terá realizado nada de
diferente, porque muitos já tiveram essa atitude, mas se fizer uma aventura
pela natureza, como se estivesse apenas observando-a, aí sim terá algo
diferente nas mãos.
O conto fala ainda de um menino que nasceu sem o movimento das pernas e
anda de cadeira de rodas. “Sempre é um esforço sobre-humano chegar à igreja.”
(NETTO, 2020, p. 45) O escritor é ateu, mas, apesar disso, volta e meia aborda
assuntos referentes à religião, visto que sabe que as pessoas acreditam em Deus
e levam a sério os preceitos católicos. Um escritor deve reproduzir a linguagem
de um povo e descrever e narrar o que acontece na sua época.
Em “Gato ao alvo”, o autor fala que era de responsabilidade das crianças
matar os filhotes de gatos (que estranhamente Napoleão Mendes de Almeida
chamaria de cachorros, para imitar a procedência da língua espanhola): “Era a
modalidade esportiva do Gato ao Alvo.” (NETTO, 2020, p. 50) O autor disse que
as crianças em geral têm parceria com o “Coisa Ruim”. Não seria o exercício da
maldade humana, domesticada aos poucos pela educação e pela necessidade de
viver em sociedade?
A antologia de contos acerca de gatos fala de histórias inicialmente
verdadeiras, mas que terminam apresentando aspectos ou desenvolvimento
diferentes do que aconteceram. Afinal, o escritor é um ficcionista, não um
historiador. Não tem compromisso com a verdade.
“Tinha talvez dez anos. Por aí. Naquela época não havia esta preocupação
com trabalho infantil. Todo mundo tinha que ajudar os pais.” (NETTO, 2020, p.
49) O atual Presidente adoraria ler essa passagem, porque disse mais ou menos a
mesma coisa na mídia de todo o país. Só é compreensível pensar dessa maneira se
os pais que mandam a criança para as lides não têm instrução e, por isso, não
sabem o que pode acontecer com o desenvolvimento dela, como funcionaria
psicologicamente um pequeno não ter tido infância etc.
O conto “João Peixeiro e o Gato Amarelo” parece que lida com pessoa com
poderes mentais ou talento para controlar gatos. João Peixeiro trabalha
pescando e vendendo peixes. Os restos e até alguns peixes são pegos pelos
gatos. João conhecia todos os bichanos, mas havia um diferente, um amarelo.
Este parece ter sido enviado por uma mulher, que desejava atrair o pescador:
“Ele mia como se anunciasse o peixeiro. A mulher olha o peixeiro e seus olhos
brilham. É tudo o que ela quer. E o seu gato também.” (NETTO, 2020, p. 63) A
melhor parte de “João Peixeiro e o Gato Amarelo” é exatamente o desfecho, que
está aberto e faz o leitor pensar. Teria a mulher algum poder paranormal? Ela
conhecia João Peixeiro? Teria alguma história com ele no passado ou era apenas
uma admiração presente? O final pode ser preenchido pela imaginação de cada
leitor.
Como o autor já se encontra aposentado e vivendo no Litoral, muitas das
histórias se passam ali. “O gato da pensão de dona Alice” é uma delas. “João
Peixeiro e o Gato Amarelo” é outra. Como Borges Netto sempre fazia referências
verdadeiras a pontos conhecidos ou até nem tanto de Gravataí nas suas outras
produções, quando mencionou a Pedra do Jacaré, uma rápida pesquisa no Google a
identifica em Caraguatatuba/SP, cidade inclusive referida no início do conto.
Portanto, é mais um local que realmente existe.
Nesse texto, há a personagem Denise, uma menina, nome da esposa do autor
e talvez seja uma história antiga dela mesma, já que todos esses contos se
iniciaram por passagens verídicas. Borges Netto, igual a Carlos Nejar, a
Armindo Trevisan e a José Saramago, está sempre fazendo referência à esposa.
Apesar dos quatro nomes, isso não é comum na literatura. Rubem Fonseca, por
exemplo, em Memórias de um Fescenino,
arrola todas as suas conquistas. Dizem que o próprio Machado de Assis foi um
grande “pegador”.
Quando a menina Denise tenta passar por um local onde há um cachorro
dormindo, e um homem a ajuda, logo nos vêm à mente cenas do livro Eu tinha uma boneca encantada, publicado
por Borges Netto em 2017, acerca de abusos sofridos pela personagem da
narrativa. Mas, por sorte, isso não aconteceu na história em questão. Os
leitores acabam tendo essas experiências que terminam transmitidas para a
interpretação das obras.
Em “O Gato Amarelo do Niquinho”, o bichano pula sobre um cavalo de
competição e o faz escapar. O pai da família enfurece e manda todo mundo,
filhos e empregados da fazenda, atrás do animal. Ninguém jantaria antes disso.
Quando voltam para casa, a tensão aumenta, porque o filho narrador está na
expectativa de que o pai fará alguma coisa com o gato. Em vez de matá-lo, que
era o que o menino estava pensando, o pai o castra, para que fique mais dócil.
Em alguns contos, os personagens se repetem, como Apollo, o narrador em
primeira pessoa, que parece uma criança ou jovem adolescente. O mundo em geral
é uma fazenda ou a praia, lugares aos quais Borges Netto sempre esteve
acostumado. Graciliano Ramos, em Infância,
disse que só sabia escrever sobre o que já vivenciou, sugestão que fica para
qualquer pessoa das Letras.
Em Infância, aprendem-se
detalhes sobre a produção textual, como rimas internas num texto de prosa,
aliterações (repetição de consoantes), assonâncias (repetição de vogais),
colisões (quando uma sílaba final de uma palavra é semelhante à inicial da
próxima) Borges Netto trabalha o assunto em: “— Olha que gracinha — diz dona
Mariazinha. Nossa! Ficou feia esta rima. Mas o que posso fazer? Foi assim mesmo
que ela disse. As pessoas deviam se policiar para não rimar palavras dentro da
mesma frase.” (NETTO, 2020, p. 82)
Em “Conheço este gato”, a personagem-narrador, que parece uma criança
pelo comportamento, está entregando leite de casa em casa com o capataz da
fazenda. Numa das casas, não há ninguém à primeira vista. O menino entra e vê
uma leiteira em cima da mesa. Então a enche com um litro, mas ouve barulho e
decide ver do que se trata. A tensão vai aumentando. Um leitor imagina que o
menino vai se deparar com uma mulher tomando banho e pode se divertir com a
ingenuidade dele, que não se dá conta disso. E foi exatamente o que aconteceu:
o rapaz viu a mulher nua, mas saiu correndo e foi contar a Apollo.
“Rescende a um perfume suave. Minha memória busca aquele perfume no
compartimento das lembranças. Não consigo encontrar. Sei que já senti este
aroma bom antes. Mas onde? Esta minha péssima memória sempre me atrapalhando.
Sei que já senti este perfume.” (NETTO, 2020, p. 89) O menino pode até não se
lembrar, mas um leitor atento recordaria. Numa das caminhadas com os irmãos e
com Apollo, este se esconde para “namorar”, e esta mulher, que é casada, parece
o alvo. Depois se vê que a mulher em questão é a filha.
“Foi um período mágico na minha vida. Me fazia sentir importante indo
para a escola.” (NETTO, 2020, p. 91) Incrível ler tal frase vinda de um
jovenzinho. Os adolescentes de hoje em dia odeiam a escola e só vão por serem
obrigados não exatamente pelos pais, que também não estudaram, mas pelo
Conselho Tutelar. A quase totalidade das famílias das classes C e D pensa que a
escola não serve para nada. Nunca ouviram falar que o estudo promove a ascensão
social e econômica. Basta ver quanto recebe um cortador de grama, um operário
de uma fábrica, um professor, um advogado, um médico, um engenheiro.
“O Gato Atropelado” parece mais uma crônica, pois descreve uma situação
do cotidiano. O autor e sua mulher andando de carro terminam atropelando um
gato. Realmente deve ser a coisa mais difícil do mundo de acontecer, mas, do
jeito que o escritor descreveu, dá para compreender o que houve.
No conto “O Gato Preto”, aparece uma frase que pode tirar gargalhadas de
um leitor desprevenido: “Mas não descartava a possibilidade de jogar o gato por
cima do muro do canil municipal.” (NETTO, 2020, p. 99) A literatura de Borges
Netto é um excelente entretenimento e mexe com o emocional do leitor.
Depois de uma frase engraçada, o conto se assemelha a uma história de
aventura, uma vez que o bichano sobe no telhado, e o ficante da dona do animal
resolve ir atrás. Os vizinhos se aglomeram na rua para ver as peripécias do
homem. Parece uma cena de um romance de Jorge Amado, mas no escritor baiano uma
linda mulher sobe no telhado para buscar um gato, e expõe todo o seu poderio
abundante aos homens que ficam na parte de baixo, admirando-a. Se o leitor
fizer essa comparação, o que não é provável (visto que pouca gente lê), a cena
volta a ser hilária novamente.
Em “O Gato Xiru”, como ele era grande e forte, uma vez subiu numa
árvore, e dois cachorros ficaram latindo embaixo dela com violência. O narrador
estava na casa da sua mãe e se preocupou com o gato dela, que não deu a mínima,
porque estava ciente do que iria acontecer: “Pois não é que desceu
tranquilamente e saiu a passos? E os cachorros ficaram grunhindo sem reagir?”
(NETTO, 2020. p. 105) É a falta de coragem tradicional tanto nos animais quanto
nos humanos. Em geral, os bichos e os animais se mostram corajosos quando estão
em grupo. E, mesmo assim, se tiverem dúvida de que poderão atacar sem se
comprometer vários contra um, se aquietam.
Sobre “O Velho Sábio e seu Gato Branco”, o autor parece claramente
ironizar, porque não acredita em mistérios do além. “Percebe que o cliente
considera pouco o valor investido. Melhor então aumentar um pouco a conta.”
(NETTO, 2020, p. 113) Machado de Assis fez algo próximo em “A Cartomante”. No
desfecho do Bruxo do Cosme Velho, depois de a cartomante dizer que tudo ia bem
ao homem pilantra que saía com uma mulher casada, este, feliz, foi até a casa
dela, e terminou assassinado pelo marido da moça.
O conto “A Gata Carmelita” é realmente o melhor da coletânea. Mistério
do início ao fim, aborda os acontecimentos de um bichano do mal. Sempre que
mia, alguma coisa acontece às pessoas e, se alguém tenta matá-la, morre
primeiro. É o estilo de Edgar Allan Poe, o mestre do conto terroresco.
“O homem ficou sem escolha. Como não executar a ordem de uma esposa
decidida? Ordens matriarcais são ordens matriarcais. Por mais duras que sejam.”
(NETTO, 2020, p. 127) A esposa ordenou que o marido se livrasse da gata, porque
todos sempre diziam que tinha cruza com o demônio. O personagem obedece à
mulher. Afinal, devido às suas qualidades, as fêmeas dominam os machos, como
sempre aconteceu.
Enfim, os contos de Borges Netto o transportam para a alta literatura. É
um escritor experiente, escreve fácil, agrada ao leitor, prende-o nas suas
histórias. É sempre uma emoção ler um novo texto do maior escritor da história
de Gravataí. O próximo, Uma noite
acampados, mostra as mesmas qualidades que o consagrou, porém falando de um
acampamento que fez com a neta Alice.
REFERÊNCIAS:
ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática metódica da Língua Portuguesa.
39. ed. São Paulo: Saraiva, 1994.
BARROS, Manoel de. Concerto a céu aberto para solos de ave.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
___. Gramática expositiva do chão. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1992.
O
livro das ignorãnças. 3.ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1994
___. Livro
sobre nada. 2.ed. Rio de Janeiro: Recodr, 1996.
FONSECA, Rubem. Diário de um Fescenino. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.
LEMINSKI, Paulo. Catatau. Texto em pdf.
PORTO ALEGRE, Apolinário. O Vaqueano. Texto em pdf.
RAMOS, Graciliano. Infância. 28. ed. Rio de Janeiro:
Record, 1993.
BATALHÃO GRAVATAÍ
Romance, 2019 – Livro 24
Borges Netto parece interessado em explorar todas as possibilidades
literárias. Já escreveu poesia, conto, crônica, novela, romance, viagem e agora
embarca no romance histórico, muito tradicional na literatura do Rio Grande,
porque houve um Érico Veríssimo e um Josué Guimarães no passado e hoje está em
atividade um Luiz Antonio de Assis Brasil. Faltariam, talvez, a crítica
literária e o teatro, mas, em cada gênero, é possível escrever de quase
infinitas maneiras. Logo, ainda há muito para ele se preocupar. Neste ensaio,
analisa-se o seu Batalhão Gravataí.
Borges Netto, apaixonado pela sua cidade natal como sempre foi, pesquisou um
tema histórico-militar que aconteceu nela.
Tanto para este livro como para Longe
de Casa, publicado em 2018, o autor precisou fazer longa investigação, o
que de certa forma altera o seu jeito de trabalhar. Mas, como já ficou evidente
no parágrafo anterior, trata-se de um beletrista que gosta de se refazer.
Parece deixar claro, nas primeiras páginas, o contexto e as personagens para assentar
o romance. A seguir, entra na ficção, porque o trabalho é de escritor, não de
historiador.
No início, também esclarece que teve a ideia de produzir essa obra para
justificar aos leitores o porquê de ter escolhido o nome literário de Borges
Netto, uma vez que seu nome verdadeiro é João. E o personagem referência é
Leonardo Borges, intelectual e professor que chamou a responsabilidade de
formar um pelotão de cem homens originários de Gravataí para ingressarem na
Revolução Farroupilha. Também esta foi uma escolha importante, visto que todos
os gaúchos sabem da relevância que tal guerra tem para os sulistas.
“Ter apelido por ali parece ser uma constante. Ele próprio, Leonardo
Borges, é conhecido como Maneca.” (NETTO, 2019, p. 22) A literatura necessita
retratar os aspectos de um povo e de um período no tempo. E Borges Netto sabe
disso. Por tal razão, comenta um detalhe
do costume não só de Gravataí, mas de cidades vizinhas: pôr apelido uns nos
outros, como se o nome não bastasse.
“Zeca recebeu aquele lote de terras do pai que não tinha os papéis de
posse. Mas isso não tem importância. Desde a época de seu avô, todo mundo sabe de quem são as terras.” (NETTO,
2019, p. 24) O autor fala a respeito de cidadãos humildes, principalmente os
que trabalham no campo, até porque uma vez, há muitas décadas, ele foi um deles
e sente orgulho disso.
Borges Netto parece ter aperfeiçoado o recurso de desenvolver uma
história no momento em que acontece. É isso que dá a impressão no leitor.
Descreve detalhes no instante em que faz a narrativa, junto de um diálogo
tenso, como quando o capitão convida Zeca para integrar o Batalhão de Gravataí. (NETTO, 2019, p. 25)
Há humanidade entre os soldados que recrutam Zeca, roubam o milho do seu
campo, um cavalo e um bezerro. O capitão pergunta se há mais coisas. Os
soldados percebem que sim, mas sentem pena da situação do matuto, que será
tirado da família. “Zequinha baixa a cabeça. Vê evidências das vacas. Há
esterco fresco por ali. Mas não quer falar apiedado com aquela família que será
separada. Os outros também viram. Estão todos calados. Inclusive Cabeçudo.”
(NETTO, 2019, p. 29)
Como nos livros anteriores, Borges Netto sempre arrola pensamentos
masculinos, formando uma completa identidade do que é ser homem. A primeira
mostra desse teor aparece adiante: “Algumas vezes não acredita que mulher tão
bela lhe aceitou o pedido para casar-se.” (NETTO, 2019, p. 30) Os homens acham
as mulheres lindíssimas, ainda mais no Rio Grande, onde há uma possível Miss
Brasil a cada cinco metros. É como se o gaúcho vivesse em meio a beldades,
deusas, fadas ou, como diria um gaudério, potrancas. E muitos acham incrível
como um fenômeno de saias se dispôs a ficar com ele, um simples mortal como
tantos outros.
“Ora, um homem só é homem e só pode governar se tiver submetido uma
mulher aos seus caprichos.” (NETTO, 2019, p. 54) Certa vez, num seriado
americano de televisão (House of Cards),
o personagem principal disse que sexo não tem a ver com amor ou satisfação, mas
com poder. Parece que é esse pensamento do narrador ou até da maioria dos
homens e das próprias mulheres. Hilda Hilst, grande poeta que já foi Miss
Campinas, comentou a uma repórter que gostava de se sentir submissa a um homem,
porém este precisava ser inteligente, o que ela não encontrava muito por aí.
Ainda sobre as mulheres, os homens têm a impressão de que, a qualquer
momento e por qualquer motivo, sua mulher pode estar se deitando com outro. E
foi o que aconteceu com a mulher de Teatino, um dos soldados da Revolução. Como
seu marido não aparecia, ela começou a se prostituir, talvez para sustentar a
ela e a sua mãe ou talvez somente por prazer: “Tem saudade do marido na
lavoura, surgindo por detrás do arvoredo, com a enxada às costas. Mas é o
destino. Não há como ir contra o destino. É muito tempo sem Teatino.” (NETTO,
2019, p. 71)
“Tivesse Joana por perto, certamente lhe responderia.” (NETTO, 2019, p.
107) Nessa passagem, o narrador está querendo dizer que, pelo menos neste
casal, quem pensa é a mulher. O homem talvez haja somente pelo instinto, com
sua força e determinação. Cabe à mulher ser o cabeça do relacionamento.
Como o autor tem somente algumas
informações históricas, deve preencher os espaços com suas reflexões. Assim
forma um livro denso e humano. A cada frase percebe-se a maneira de Borges
Netto se comportar. Seu jeito de cidadão fraterno dirige os trabalhos.
É emocionante conferir uma ligação entre o ancestral e o próprio Borges
Netto, como um respeito cultivado pela família e suas origens:
É o soldado João P. Garcia. — Entretanto todos
vão conhecê-lo apenas como Zeca. Na chácara fica o filho João Antônio. É seu
único filho que será conhecido como Joca Borges. Este Joca, muitos anos depois,
terá um neto que se meterá nas escritas contando histórias e assinando como
Joca Borges Netto. (NETTO, 2019, p. 31)
“Vai para frente de batalha. E deixará para trás a plantação. Os campos.
Os animais que vivem na volta da casa. Joana Antônia e o menino João Antônio.”
(NETTO, 2018, p. 33) Mais uma vez, como já apareceu em livros anteriores, o
autor utiliza uma técnica às vezes encontrada em outros beletristas, como
Nélida Piñon: a de separar um sintagma por ponto. Em tese, não seria correto na
língua portuguesa, mas os autores agem dessa forma para dar realce à oração.
O lado negativo é saber que, na tão elogiada Revolução Farroupilha, os
soldados eram pegos à força, tirados de suas famílias, entre pessoas pacatas.
E, se quisessem fugir, seriam enforcados. Mas não foi só isso de mal que
aconteceu na Revolução. O que os generais farroupilhas fizeram com o Batalhão
de Lanceiros negros envergonha até hoje. Mas não é assunto para este ensaio.
“Não se importa que Zeca esteja nos braços de outra. É mulher do campo.
Sabe que, após a aventura, um marido sempre volta ao lar.” (NETTO, 2018, p. 34)
Uma frase semelhante aparece em várias passagens de O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. Mas não se trata de plágio.
É uma reflexão que contribui com a identidade do ser gaúcho. Aqui no Sul se
pensa assim ou alguns pensam assim. Não quer dizer que em outras regiões também
não seja dessa forma.
Embora fale muito sobre como é um homem, o que faz e como pensa, Borges
Netto nunca se posicionou contra as mulheres. E, neste Batalhão Gravataí, faz uma declaração em favor das belas: “O
capitão sabe depender das mulheres a condução do mundo. Sempre transformando os
homens por meio da paixão.” (NETTO, 2019, p. 62)
Às vezes se pode dizer que o belo está nos detalhes. É bonito acompanhar
uma cena com personagens humildes, geralmente sem muitos sonhos, que sabem
apenas trabalhar:
Mas ele não tem aventuras. É dela toda a noite.
Se lava na bacia da sala e vem manso para o seu lado. Algumas vezes dorme antes
de qualquer sonho realizado. Está cansado do cabo da enxada. Da corrida a
cavalo na busca das vacas. De trotar atrás do arado. De juntar as batatas para
vender na Aldeia. E quando volta de lá, às vezes lhe compra o pano para um
vestido novo na loja de fazenda dos Gomes, que ela mesma alinhava e costura.
(NETTO, 2019, p. 35)
Talvez Borges Netto nem tenha lido Retirada
de Laguna, de Visconde de Taunay, mas parece ter organizado sua obra de
igual maneira, descrevendo cada semana de combates. Acontece que as batalhas,
no século XIX, aconteciam da mesma forma. Logo, é natural que os dois trabalhos
sejam parecidos, pois a literatura deve reproduzir a vida.
Ainda falando sobre o livro de Visconde de Taunay, parece que o que os
soldados mais enfrentaram em Laguna foram as caminhadas longas e a fome. Porém
Taunay era tenente e participou daquela expedição. No caso de Borges Netto, um
inventivo escritor, ele dá a entender que o que mais os soldados farroupilhas
fizeram foi esperar: “Há muitos boatos por ali. Estão à espera do general Bento
outra vez.” (NETTO, 2019, p. 56) No entanto, ao longo do livro de Borges Netto,
há tantas aventuras, emboscadas, confrontos, que fica interessante. Difícil um
leitor parar de ler. A obra de Taunay é mais lenta e cansativa, até porque não
foi elaborada para ser um livro, mas para ser um relatório de guerra.
As lembranças da lide no campo se misturam com os fatos do acampamento e
das viagens a cavalo em busca de inimigos. Zeca lembra a sua lide. Como Borges
Netto foi agricultor, sabe de todas as tarefas e as descreve. Dá a impressão de
que é o trabalho mais estafante que há. Schopenhauer já não afirmou que devemos
conversar apenas sobre os assuntos que uma pessoa domina? É o caso de Borges
Netto com relação à agricultura, entre outros temas, como a produção literária,
por exemplo.
“Zeca então prepara café e mate. Pensa em Joana toda a vez que o cheiro
do café dispersa da chaleira. Sabe que ela está com a mesa posta. Tem pão
caseiro. Manteiga batida na lata.” (NETTO, 2019, p. 61) É por ter sido
agricultor e ter morado em sítio que Borges Netto sabe como é um café da
colônia, não um café colonial como os oferecidos em Gramado, mas da colônia
mesmo, de uma casa de gente humilde. Os escritores deveriam escrever apenas
sobre o que entendem, para alcançar a verossimilhança preconizada por
Aristóteles. E, se não souberem do que estão falando, é imperioso fazer uma
pesquisa. Tudo isso foi o procedimento de Borges Netto, como tem de ser.
O autor chega até a ensinar a como fazer manteiga caseira: “Ela coloca o
leite fervido numa lata, aperta a tampa para que não escape uma gota sequer. E
fica batendo a lata contra a perna. Quando cansa, troca de perna. Não vai longe
e já ouve a bola de manteiga rolando dentro da lata. Pronto. Bem simples.”
(NETTO, 2019, p. 62)
“Podia estar na chácara consertando uma cerca. Tomando um mate, enquanto a noite não chega.” (NETTO, 2019, p. 38)
Será que foi uma referência literária, lembrando Josué Guimarães, que publicou Enquanto a noite não chega em 1981? Os
escritores mais cultos em geral realizam esse tipo de homenagem, e Borges Netto
fez várias citações em Longe de Casa.
No livro Uma noite acampados, revelou
ler perto de dez obras por mês. Isso é um volume intenso de leitura. É possível
que tudo seja realmente alusão literária.
Cabe lembrar que esse trabalho de Borges Netto ingressa num rol de
livros que abordam a Revolução Farroupilha, como O Tempo e o Vento, do já citado Erico Verissimo; O Vaqueano, de Apolinário Porto Alegre; Os Varões Assinalados e Neto Perde sua alma, ambos de Tabajara
Ruas, A Ferro e Fogo, Tempo de Guerra, de Josué Guimarães e
outros. Para um gaúcho, a Revolução Farroupilha é o pasto do qual se alimentam,
como diria João Gilberto Noll. É um acontecimento de dez anos que até hoje mexe
com o imaginário sulista. Se já disseram que todos os intelectuais do Brasil
deveriam escrever sobre Machado de Assis, talvez todos os escritores gaúchos,
em algum momento da sua obra, precisariam revisitar a Revolução Farroupilha.
Trata-se de uma obrigação intelectual de um gaúcho. E Borges Netto fez a sua
parte nessa obra.
Enquanto os homens se preparam para o cerco a Porto Alegre, ainda que
embaixo de chuva, o personagem Zeca raciocina: “Uma de suas ferramentas da
lavoura está ali. É sua segurança. É tudo de que precisa.” (NETTO, 2019, p. 43)
Interessante este detalhe: porque Zeca sabia lutar apenas com sua foice, é a
ligação com uma arma marcial japonesa chamada kobudo. No Japão antigo, como
eram proibidas as espadas samurais e os treinos de luta, os agricultores
praticavam com seus instrumentos de trabalho, e assim nasceu o kobudo, que não
é muito praticado no Brasil.
Não daria para comparar o Batalhão
de Gravataí com Os Sertões, de
Euclides da Cunha, visto que esta obra perde umas cem páginas em descrições
inúteis a respeito dos sertanejos e outras cem a respeito da terra, mas, quando
Os Sertões enveredam pela Luta entre
o Exército Imperial e os sertanejos de Antônio Conselheiro, a situação melhora,
e o livro passa a ser empolgante. Com Borges Netto, é diferente: a primeira
parte já é boa de ler, porque faz um introito acerca dos preparativos para a
Revolução, o recrutamento e, quando se aproxima do cerco de Porto Alegre, Batalhão de Gravataí se transforma num
livro de aventura.
“Se tiver a oportunidade de estudar, será um grande homem.” (NETTO,
2019, p. 56) Quem disse isso foi o personagem Zeca, que, segundo o narrador,
era analfabeto. Se uma pessoa sem estudo acha importante que o filho aprenda a
ler e a escrever ou que talvez até se forme numa graduação, é porque está a
favor da vitória pelos livros. Estudar não é fácil, porém é a maneira mais
simples para atingir os objetivos na vida.
Mas, ao contrário do que disse linhas atrás, o personagem Zeca faz uma
reflexão que é amparada pelas pesquisas sobre o ensino: “Ele sabe. Sabe desde
sempre que um chacareiro só pode ter filhos chacareiros.” (NETTO, 2019, p. 57)
Anos atrás, um curso organizado pelo Governo para os professores estaduais
defendeu que, se os familiares não estudam, aumenta a possibilidade de os
filhos também não estudarem. Mas o contrário também é verdadeiro: se os pais
têm nível superior, aumentam as chances de os filhos também terem.
“Poucas foram as vezes em que foi dono do próprio destino. O casamento
com Joana foi uma delas.” (NETTO, 2019, p. 60) Certa vez, um escritor disse que
os pobres só têm uma coisa de seu: a sua mulher. E parece que a história de
Zeca está confirmando esse raciocínio. A todo o momento, o personagem principal
se recorda da esposa.
“Ali estarão seguros. É sentar e aguardar pelo retorno do general Bento
da prisão. Sabem que voltará. Um dia ele surgirá em seu cavalo num tropel
magnífico seguido por mais republicanos.” (NETTO, 2019, p. 86) Embora o
escritor não seja católico nem acredite em Deus, construiu essa passagem que,
se interpretada pelo viés religioso, dá a sensação ao leitor de que a volta de
Bento Gonçalves era esperada pelos farroupilhas como a de Cristo pelos
seguidores.
Os homens do campo trabalham com indumentárias tradicionais. É mais ou
menos essa a descrição de um homem que os soldados de Gravataí encontram no
campo: “Levanta-se nos calcanhares e demonstra ser mais vigoroso ainda. Está
com a indumentária do pampa. Chapéu, lenço, bombacha, botas, esporas.” (NETTO,
2019, p. 86)
Sobre o cavalo Baio de Zeca, o autor utiliza letra maiúscula para
designar o animal. Isso faz com que dê a sensação de que se trata de alguém
importante. Afinal, como já se discutiu em José de Alencar, em O Gaúcho, e Apolinário Porto Alegre, em O Vaqueano, o cavalo é o melhor amigo do
sul-rio-grandense.
Depois de ter escrito sobre mulherengos e boêmios, homens que pegam todas
as mulheres que podem ou pagam, se não conseguem, agora cria um personagem com
a disposição contrária, que é fiel e deseja apenas a sua mulher: “E ele não
trocaria Joana por bugra nenhuma.” (NETTO, 2019, p. 88)
Aí pela página 100, o personagem Zeca participa de uma batalha e, como o
autor já comentou algumas vezes, o rapaz é habilidoso com a foice na mão e, com
ela, mata o seu primeiro imperial. Além disso, como também possui talento para
laçar animais, arrebanha alguns cavalos para a causa farroupilha, o que
surpreende a todos, até porque Zeca teve a chance de fugir e não o fez.
A descrição dos embates entre farroupilhas e imperiais é tão viva que dá
a impressão de que Borges Netto já participou de um evento como esses. A emoção
da luta está em cada palavra, em cada frase. É como se Platão estivesse correto
quando escreveu que o conhecimento se encontra em nós e que precisamos apenas
relembrá-lo. Borges Netto parecer reviver, pelo DNA, as estripulias do seu
parente Zeca.
“Sabe que será difícil não ir para frente dos combates, assistindo calado ao avanço dos imperiais.” (NETTO,
2019, p. 107) Aqui o autor não parece estar falando do personagem Zeca, mas de
si próprio, sentimento que transportou ao protagonista. Ele, Borges Netto, é
que provavelmente não ficaria parado numa situação dessas, quando os amigos são
mortos pelo adversário.
Enquanto a personagem vivencia situações da revolução, tem flashes da sua vida como agricultor e o
sentimento pela esposa. Parece um seriado de tevê, pois muitos apresentam esse
tipo de técnica. E é positiva, porque dá um tom humano à história.
“Sabe que, em breve, cavalgará ao lado do grande general Bento.” (NETTO,
2019, p. 119) Em várias passagens, o autor mostra admiração pelo herói
farroupilha. Como Borges Netto é gaúcho e vive a cultura do Sul, é possível que
apenas esteja reproduzindo o que se pensa a respeito do general e presidente da
República do Piratini.
“Zeca, muito rápido e de um só golpe, baixa a foice e lhe decepa a
cabeça. O outro tenta a reação e consegue engatilhar a arma. Nada mais que
isso. A foice, a ceifar como ceifava o capim para recolher o alimento para os
animais, decepa mais uma cabeça. O sangue esguicha.” (NETTO, 2019, p. 127) O
autor não se furta à necessidade de descrever seu ancestral como um
super-herói. Mas que soldado não foi herói não só na Revolução Farroupilha como
em qualquer outra? Na mesma proporção, que policial ou brigadiano não é um
herói? As funções de militar são propensas a isso: à heroicidade nos atos.
Enfim, Borges Netto volta à narrativa longa com algumas características
que já marcaram a sua produção: texto ágil, frases curtas, seleção vocabular
simples e de fácil entendimento. Um detalhe diferente é que se trata de um
romance histórico, muito cultivado no Rio Grande, mas um caminho pelo qual o
autor de Gravataí ainda não tinha enveredado. No entanto ele parece desejar
escrever sobre todos os detalhes da sua terra natal. Já falou de vários
personagens locais, músico, pintor, menino com problemas de saúde, moça
violentada pelo pai e pelo namorado e que teve uma vida de sofrimento e muito
mais. Borges Netto analisa as mais variadas nuanças de Gravataí, como se
desejasse entendê-la e registrar suas descobertas. A sociedade não é justa.
Quem sabe por isso Borges Netto não seja um ícone estadual, mas acreditamos que
um dia será descoberto e respeitado pelo público e pela crítica literária.
Talvez até os nossos estudos auxiliem nisso.
A seguir, o livro analisado é de crônicas Das coisas de Pouca importância, que tratam da memória do autor,
outra maneira de registrar os fatos que aconteceram consigo e seus
familiares.
REFERÊNCIAS:
ALENCAR, José de. O gaúcho. 2. ed. São Paulo: Ática, 1982.
PORTO ALEGRE, Apolinário. O Vaqueano.
Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00031a.pdf
Acesso em 31 de janeiro de 2019.
ARISTÓTELES, Horácio, Longinus. Crítica e teoria literária na antigüidade.
Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro: Edirouro, s/d.
GUIMARÃES, Josué. Enquanto a noite não chega. 6. ed. Porto Alegre: L&PM, 1981.
NETTO, Borges. Longe de Casa. Gravataí: Clube Literário, 2018.
PIÑON, Nélida. A força do destino. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
PORTO ALEGRE, Apolinário. O
Vaqueano.
Disponível em:
RUAS, Tabajara. Netto perde sua alma. 3.ed. São Paulo: Record, 2005.
___. Os Varões Assinalados. 5.ed. Porto Alegre: L&PM, 2008.
TAUNAY, Visconde de. A retirada de Laguna. Disponível em: https://cs.ufgd.edu.br/download/A%20Retirada%20da%20Laguna%20-%20Visconde%20de%20Taunay.pdf Acesso em
31 de janeiro de 2019.
VERISSIMO, Erico. O Continente. São Paulo: Círculo do
Livro, s/d.
___. O retrato. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
___. O arquipélago I. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
___. O
arquipélago II. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
DAS COISAS DE POUCA IMPORTÂNCIA
Crônicas, 2014 – Livro 19
Neste ensaio, estuda-se Das Coisas
de Pouca Importância, uma antologia de crônicas que tratam das memórias do
autor. Logo, tem importância; é tudo o que ele é e o que viveu. De alguma
forma, o título apresenta uma rápida ironia, porque traz um significado oposto
ao das palavras ou se pode compreendê-lo como uma lição de humildade, situação
que ele reproduziu em Poemas em Si Menor.
No início, como se fosse um ensaísta da sociologia da literatura,
primeiro aborda o que se passava no mundo em 1957 para depois dizer que foi o
ano em que nasceu (NETTO, 2014, p. 11). Como explicou Zilá Bernd (1995, 1998,
1999), esse hibridismo é uma das características da literatura contemporânea ou
do pós-moderno.
Grande parte das crônicas fala da sua vida de agricultor em Canoas.
Talvez por isso use uma linguagem simples e fluente. Borges Netto faz ironia,
mas sem a tradicional maldade, com o pensamento da mãe, que perdera uma menina
e, por isso, pensava na punição de Deus (NETTO, 2014, p. 11).
A comédia também está presente em grande parte dos cronistas, Luiz
Fernando Verissimo, Paulo Mendes Campos e Stanislaw Ponte Preta que o neguem.
Borges Netto faz piada com o seu nascimento:
Vó Norica chegou para o corte do cordão
umbilical e foi quem sentenciou: — É homem. Há quem diga que ela teria
completado ao examinar as genitais: — Podia ser um pouquinho maior. Mas não há
provas de que tenha dito isso. Deve ser intriga familiar. Despeito dos irmãos.
(NETTO, 2014, p 14)
O cronista recorda que a mãe, devido às suas crenças, sem base nenhuma
nos fatos, como geralmente acontece com a fé, acreditava que nasceria uma guria
e assim preparou o enxoval rosa e rendado, mas nasceu Borges Netto, que
terminou usando aquelas roupas. O autor lembra tudo isso com naturalidade, sem
rancor, e ainda se refere ao pai e à mãe com carinho e admiração: “O sábio da
natureza, dos animais e das coisas”, (NETTO, 2014, p. 13); “Deveria estar no
lugar do padre Reus sempre que a mãe se ajoelhava por uma graça alcançada” (NETTO,
2014, p. 17); “Como é seguro e doce os braços de mãe” (NETTO, 2014, p. 16).
Também comenta que “o pai não era dado a saidelas de madrugada” (NETTO, 2014,
p. 13), ao contrário do que acontecia com as personagens da literatura que ele
desenvolveu desde o livro Foi Assim,
contos, publicado em 1989.
Ainda que Das Coisas de Pouca
Importância enfatize a memória, o autor não deixa de expor algo da sua
visão de mundo: “Finalmente ele poderia retornar à única diversão possível a um
homem da roça naquele tempo. Claro que tão logo o período de quarentena fosse
contemplado” (NETTO, 2014, p. 13). Um homem normal, no entender de Borges, só pensa
no sexo feminino, e os casamentos, noivados, namoros e pegações acontecem por
causa desse propósito. Um vídeo da internet mostrado por um educador apenas
para dar risinhos apresenta uma suposta psicóloga dizendo, com expressões bem
chulas: “Homem não gosta de mulher; homem gosta de b... (o órgão sexual
feminino)”. É mais ou menos o que pensam as personagens de Borges Netto, o
mundo do macho.
A crônica “Do Talo de Couve” relata duas passagens que, se não despertam
uma gargalhada no leitor, pelo menos conseguiriam abrir-lhe um sorriso:
Naquela época as mães estimulavam o bolo fecal a
descer a ladeira de forma indecente. Utilizavam o talo da couve para forçar o
intestino a funcionar. Algo como um carro com bateria arriada a pegar no
tranco. Devia ser uma tortura. Os irmãos levariam a minha experiência, à guisa
de gozação, se não para o resto da vida, por um bom tempo da infância. Naquela
época não se falava nestas coisas de traumas e terapias. Cada um se virava como
podia. E naqueles dias era certo que no cardápio haveria refogado de couve.
Claro que sem o talo. (NETTO, 2014, p. 17)
Já adulto eu ainda era famoso pela preguiça
estomacal. Os colegas de escritório chegavam a marcar o dia da semana em que
aconteceria a avalanche: sempre às quintas-feiras. E me acostumei com isso. Nas
quartas-feiras começavam as contrações que eclodiam com o parto fecal às
quintas. Era a maior gozação quando eu sumia do escritório três, quatro vezes
durante o expediente quando o calendário chegava à quinta. Ficava mais assado que
churrasco de gaúcho distraído. (NETTO, 2014, p. 18)
Uma das crônicas narra a história de um cavalo, a égua Rosilha. Conforme
José de Alencar (1982), esse é um dos símbolos do gaúcho, porém Borges Netto
não comenta como se estivesse explorando palavras gaudérias. Apenas conta o
relato, porque o animal fazia parte da sua família.
A crônica “Dos Pés da Égua” (NETTO, 2014, p. 14-17) também explora a
tensão narrativa. O bebê (na verdade, Borges Netto) cai entre os pés da égua,
que se mostrava nervosa e tinha personalidade forte. Cada um dos enredos que
viraram tradição na família é relatado por ele.
O livro parece uma espécie de homenagem ao avô, aos pais, aos irmãos e à
mulher que passou a viver o resto da vida com ele. Em todas as crônicas, mesmo
que divulgue certas desavenças, sempre fala de todos com amor.
Quanto à estilística, igual aos livros anteriores, apresenta embalo de
texto condizente com as narrações contemporâneas, períodos curtos, linguagem do
dia a dia, temas do cotidiano. Todos os casos são verossímeis e poderiam ter se
passado com qualquer pessoa. O leitor percebe verdade em cada história.
Segundo Schiller (apud LIMA org., 1983, p. 140), citado por Martin
Fontius, “é a missão da beleza fazer-nos caminhar para a liberdade”. Quanto à
literatura, é a chance de fazer o leitor refletir através de um texto. Borges
Netto alcança melhor esse aspecto na sua poesia. As crônicas talvez façam o
leitor pensar sobre o que é importante para cada um, apesar do título irônico.
Aí quem sabe se encontre a ampliação do significado em Das Coisas de Pouca Importância.
Todas as curiosidades dos parentes de Borges Netto são retratadas, ou
seja, as melhores ou mais divertidas lembranças do autor. Eles souberam apenas
no dia do alistamento militar que o tio não se chamava Mario Borges, porém
Vilmar da Silva. Antes de chegar nesse ponto, Borges Netto dá uma explicação de
caráter histórico, de como se comportavam as pessoas do Rincão da Madalena em
1920 e 1930.
O pai conta que ele descobriu que não se chamava
Mário quando foi sentar praça no exército. Havia centenas de agricultores como
eles no pátio da inscrição. Ele e o pai. É que foram registrados no mesmo dia,
mês e ano. Como se fossem gêmeos para evitar a multa pelo registro atrasado.
Era comum no Rincão da Madalena, região de difícil acesso nos idos 1920/1930 e
por muitas décadas depois. Então se fazia assim: as crianças do lugarejo iam
nascendo e, quando um dos moradores vinha
entregar a produção agrícola na Vila, fazia-se o registro de todas. Traziam
anotado num pedaço de papel o nome das crianças nascidas no último ano. Ou nos
últimos dois anos, caso do pai. Dois anos mais velho que o tio e gêmeo. Mas o
assunto não é sobre o pai, que recebeu o pomposo nome de Ary, com “ipsilone” e
tudo. (BORGES, 2014, p. 29)
Certa vez Roland Barthes afirmou que, se houvesse uma catástrofe e se
perdesse tudo, mas sobrassem homens e livros, tudo estaria a salvo. As obras
também servem para registrar a vida como ela foi e não apenas como poderia ter
sido. Os conhecimentos mais variados das ciências humanas ou da natureza, das
linguagens, das matemáticas e outras estão na escrita. Borges Netto também
contribui para que estudiosos conheçam como era a existência dos humildes numa
cidade de porte médio na Região Metropolitana de Porto Alegre, Sul do Brasil,
ao longo do século XX, início do XXI. É o autor por excelência de Gravataí.
Outro exemplo disso foi a troca de nome da avenida Flores da Cunha para
Dorival Cândido Luz de Oliveira, ex-deputado e ex-prefeito da cidade (NETTO,
2014, p. 31). A todo o momento, não só nesse livro, como em outros, registra
detalhes históricos.
Quando o autor se considerava “famoso por ser esquecido” (NETTO, 2014,
p. 31), é claro que o termo não está correto. Pouca gente é famosa, apenas os
que aparecem na mídia com tanta frequência que as pessoas sabem de quem se
trata. Assim é Xuxa, Didi, Faustão, Pelé, Sílvio Santos, hoje Neymar. Porém,
quando pararem da sair na imprensa, quase todos esquecerão. Isso aconteceu com
Garrincha, Machado de Assis, Oscarito, Ataulfo Alves, Grande Otelo, para citar
um de cada arte: jogador de futebol, escritor, comediante, cantor e ator, nessa
ordem. Quando Borges Netto faz uma declaração como essa, é porque o seu mundo
envolve os familiares e os amigos, exclusivamente dentro de Gravataí. É nessa
realidade que se acha famoso.
Como se trata de crônicas, e esse gênero aborda questões biográficas, é
pelo esquecimento que se tornou escritor, uma vez que anotava as coisas que se
passavam na sua vida para contá-las aos familiares, e daí surgiram crônicas,
poemas, contos e novelas, tudo ambientado na cidade natal.
Fui arrecadando muitas outras cenas ao longo da
vida para dar movimento às personagens que passei a criar depois que iniciei a
lidar com a escrita. Tenho apenas medo de que tudo se acabe. Que se esgotem
minhas lembranças. Que desapareça meu material de pesquisa para criar
personagens, cenários e enredos. (NETTO, 2014, p. 32)
Até o seu processo de criação aparece em meio às crônicas, funcionando
como uma oficina literária ocasional:
Anos mais tarde, ao escrever A Amante do Rincão da Madalena, busquei
inspiração neste lenhador para compor a personagem Israel. Imenso, forte,
camisa arremangada, golpeando as árvores. Um lenhador daqueles que se vê nos
filmes de colonizadores. Desmatando tudo para iniciar as plantações de roças e
de casas. Durante anos este lenhador adormeceu na maciez dos meus neurônios.
Num instante despertou e saltou para dentro do Rincão. (NETTO, 2014, p. 31)
Daí se conclui que esse gênero possibilita falar de lembranças, de fatos
históricos, de crítica literária, e o autor também faz uma citação pós-moderna:
“Com seu poderoso machado — quase Thor, o Deus do Trovão — subiu no tronco
vencido e atacou a galharia menor.” (NETTO, 2014, p. 32) Segundo autores como
Andreas Hyussen, Jean-François Lyotard, Linda Hutcheon e Frederic Jameson,
entre outras características, essa escola da literatura promove a união do
sofisticado e do popular. Assim faz sentido uma citação de um herói das
Histórias em Quadrinhos.
Ezra Pound (1990, 1995) também dizia que o escritor é a antena da raça,
precisa escrever a língua do seu povo e registrar os assuntos relevantes na sua
época. “Lembrando que em Gravataí os mutirões são chamados pixurus.” (NETTO,
2014, p. 32) Aqui o cronista fala da linguagem praticada na região.
Em alguns momentos, como acontece em grandes autores, entre os quais o
romancista Luiz Antonio de Assis Brasil, Borges Netto insere uma imagem em meio
ao texto, neste caso, crônica: “E abri as porteiras do passado” (NETTO, 2014,
p. 36). Até por causa da expressão “porteiras”, desperta o caráter de
agricultor, que sempre foi a vida de Borges Netto, pelo menos até os seus 18
anos.
Os seus traumas também aparecem nesta obra que deve ter sido escrita
para fazer um apanhado geral da sua existência:
Ali perto da piscina ficava o
matadouro do Alvício. Era onde o pai trabalhou por muitos anos. Levava os três
filhos homens para iniciar nas lidas da vida. Paulo, Flávio e eu. Éramos os
três pequenos trabalhadores. Tenho um quarto irmão, o José Carlos. Ainda bebê
de colo que ficava em casa. Íamos para o matadouro de carroça puxada pela égua
Rosilha. Eu era o mais novo dos três, coisa de cinco ou seis anos.
O odor de sangue e dejetos ficaram impregnados
na pele. Náuseas não sinto mais. Apenas rejeito um bom bife acebolado ou uma
picanha no espeto. Raríssimas vezes uma ponta de bife. Uma carne moída. Para
não esquecer por completo de todo os caminhos da vida. Este é o resultado dos
meus fantasmas. Os fantasmas do matadouro. Entretanto não resisto a uma bandeja
de quibe. (NETTO, 2014, p. 36)
O autor é de uma época diferente, quando os tempos de locomoção eram
mais longos. Levava entre cinco e seis horas para se deslocar de Canoas a
Gravataí, percurso que hoje se faz em menos de 30 minutos (NETTO, 2014, p. 39).
Também pertenceu ao período que se deveria fazer prova de admissão para o
ginásio. Tratava-se de um momento da história em que os meninos e meninas
sentiam orgulho de sair pelas ruas com o uniforme da escola (NETTO, 2014, p.
40) e talvez respeitassem os professores.
Hoje em dia, um aluno inábil no futebol se refugiaria nos jogos em
celular ou tablet. Naqueles anos,
havia poucas opções, e o menino se escondia na biblioteca (NETTO, 2014, p. 40).
Aí nasceu o escritor. Não se quer dizer com isso que todos os pequenos que leem
muito se inclinam para a literatura, mas não existe escritor sem grande quantidade
de pestanas cansadas. É quase uma condição sine
qua non.
Numas das crônicas, revela ter brincado de bonecas com as irmãs, e elas
eram o público inicial das histórias do futuro escritor. (NETTO, 2014, p. 41).
Tudo na vida tem começo, meio e fim. No caso de um artista da palavra, sua
atividade intelectual só termina com a morte, nesta situação no auge de duas
dezenas de títulos e presidente do Clube Literário.
Certa vez, Guy de Maupassant – que desejava se tornar escritor –
perguntou a Gustave Flaubert o que precisaria para ingressar na carreira
literária, e o velho mestre respondeu: “- Viva”, pois é das próprias
experiências e das de outras pessoas que o autor se nutre para criar. É
exatamente assim que age Borges Netto. Tudo na sua vida pode servir para
desenvolver uma personagem, uma cena, uma história:
Cheguei na casa do vovô, soluçando e com
a moral abalada. Só me reanimei quando encontramos as bergamoteiras carregadas
de frutos maduros — Lembram da bergamoteira carregada que o Israel de A Amante do Rincão da Madalena precisou
erguer com uma vara para sustentar os frutos? (NETTO, 2014, p. 42)
A natureza é importante para a obra desse autor, motivo pelo qual o
primeiro estudo a respeito dos seus primeiros 17 livros se chamou de Natureza da Palavra em Borges Netto:
Noutra vez fui com a mãe e a irmã Lea a pé.
Levamos a manhã inteira para percorrer a estrada. Saímos bem cedinho e fomos
acompanhados por todos os sons do amanhecer. Um cão que latia a distância. Uma
ovelha que balia. A infinidade de canto dos pássaros. (NETTO, 2014, p. 42)
Em inúmeros livros – talvez em todos – são trabalhados personagens
instrumentistas. Por exemplo, no Lorde do
Casarão, a personagem principal tocava num bar. No Abismo de Rosas, a personagem era boêmia. Talvez a importância
da música tenha relação com o vivenciado pelo jovem Borges Netto:
Tinha eu seis anos. Nesta idade costumávamos
atravessar a rua 15 de Novembro. Morávamos no número 81. A travessia era para
chegar na cerca do Colégio José Maurício. Lá havia aulas de música. Ficávamos
ouvindo os alunos nos ensaios. (NETTO, 2014, p. 42)
De volta a Canoas, Borges Netto trocou o amor pelos livros da biblioteca
da escola na sua cidade natal pela coleção de gibis vendida e trocada por um
pipoqueiro. Chegou também a escrever histórias em quadrinhos, criando os seus
próprios super-heróis. (NETTO, 2014, p. 43).
Talvez um escritor tenha por missão criar símbolos, como faz Borges
Netto. Vários detalhes da sua vida ocupam um lugar na sua memória, como tudo
que se liga ao pai:
Nestes dias saíamos mais cedo da lavoura. O pai
afiava sua boa faca carneadeira na pedra do rebolo tocado à manivela. Herdei
dele esta faca. Mas não a utilizo por tratar-se de objeto sagrado.
Apesar de existirem escritores praticantes de artes marciais, como Paulo
Leminski, faixa preta de judô, o senso comum diz que os autores não gostam de
violência e preferem a vida calma dos livros, caso de Borges Netto. Um episódio
de briga entre dois valentões de escola o marcou e fez com que escrevesse uma
crônica a respeito:
Fiquei longo tempo ali, nervoso, pensando na
cena selvagem. Eram apenas dois cães na disputa por território. Garotos de
cidade. Apenas isso. (NETTO, 204, p. 47)
Além disso, várias das crônicas – da metade para o final da obra –
homenageiam a convivência com sua mulher. Mesmo que Borges Netto comente sobre
os pequenos desentendimentos que o casal contabilizou ao longo dos anos - nada
muito relevante, como a mulher insistir em pôr louça dentro da pia e pedir para
ele lavá-la – quase todas essas crônicas têm o caráter de uma declaração de
amor.
Enfim, pelo que se percebe, talvez Das
Coisas de Pouca Importância tenha sido desenvolvida visando reconstruir o
passado com a finalidade de resgatar as origens, as situações que fizeram com
que o autor se tornasse o que é hoje como pessoa e como homem. Canção para Ana também traz alguma coisa
de si, mesmo que seja uma história de ficção.
CANÇÃO PARA ANA
Romance, 2016 – Livro 21
Em Canção para Ana, antes de
começar a história, o autor faz agradecimentos aos colegas da Escola
Polivalente de Vila Progresso, hoje Visconde do Rio Branco, em Canoas, mas
lamenta a infinidade de sonhos não realizados. No entanto, ele alcançou o que
provavelmente seja o principal: se tornar escritor. Ao fundar o Clube Literário
de Gravataí, as amizades que a associação englobou, além de sua editora,
inventou o seu próprio lugar, deu oportunidade a muita gente e criou um nicho.
Para quem é de Gravataí e a ama ou até para quem se mudou para lá e se
sentiu adotado por ela, o autor mostra como foi o município, suas
características, seus locais pitorescos, suas histórias: “Gravataí é assim. As
coisas vão num ritmo todo próprio. O rural e o urbano andam sempre de mãos
dadas” (NETTO, 2016, p. 9).
Alguns autores parecem cultivar a filosofia japonesa de passar décadas
retomando, refazendo e qualificando suas atividades. Paulo Freire garantiu
sempre trabalhar com as mesmas ideias de livro a livro. Antônio Carlos Resende
apresentava, em todos os seus romances, personagens que estudaram Direito,
nunca exerceram a profissão e passaram a vida a se envolver em casos amorosos
com mulheres mais jovens e interesseiras. Borges Netto sempre lida com a
realidade do campo. O pai das personagens, em geral, tem estas características:
O pai era homem prático. Suas trombas e
caprichos eram inquestionáveis. Sua cara fechada não permitia que se discutisse
qualquer assunto. Cedo tinha seguido para as lidas do campo. Sempre determinado
e prático. Despedidas eram desnecessárias.
“Diferente deles, na minha infância não havia uma menina. Era garoto da
lavoura.” (NETTO, 2016, p. 22) Em várias situações na sua obra, a personagem
principal é do campo e vai para a cidade. Foi exatamente o que aconteceu com
Borges Netto: trabalhava na agricultura, mas fez apenas um curso de
datilografia e conseguiu emprego num escritório, posição que aperfeiçoou, até
se tornar um alto executivo de uma metalúrgica e se aposentar.
“Muitos outros meninos já estavam por lá e a todo instante encontrávamos
um deles pelo corredor, pela sala de leitura, na lavanderia ou na cozinha”
(NETTO, 2016, p. 11). Essa passagem lembra José Lins do Rego e seus romances
que tratam da história de um garoto que estudava num internato. Nem o autor
nordestino nem o gravataiense fizeram literatura para jovens, embora fosse a
visão de mundo pela ótica de um guri.
O que se percebe no romance Canção
para Ana é uma evolução no desenvolvimento do texto. Borges Netto sempre
foi um bom prosador, mas parece que a narrativa flui mais; os períodos estão
concatenados de maneira harmônica, a linguagem é mais clara e precisa, e a
correção da gramática melhorou, ainda que o autor sempre envie os seus livros a
um professor de língua portuguesa. Borges Netto é a prova do que disse o
filósofo Ralph Waldo Emerson (2003): com o passar dos anos, exercendo uma
função, a tendência é melhorar.
Em meados de 1990, em Curitiba, o escritor Wilson Bueno disse que o
verdadeiro escritor seria um reescritor. O texto deve ser entendido como uma
escultura, e cabe ao artista da palavra tirar as arestas até encontrar a
essência. Borges Netto parece refletir por esse caminho: “Li todo o texto e
encontrei algumas coisas para mudar. Fiz apontamentos nas bordas, risquei
palavras e substituí outras. Primeiro vou mudá-las no texto e só então darei
continuidade. É assim que fazem os grandes escritores.” (NETTO, 2016, p. 23)
Moacyr Scliar, numa crônica de Zero Hora,
uma vez disse que o melhor camarada do escritor é o cesto de lixo, porque
durante quase toda a vida escreveu à máquina. Hoje é a tecla delete do
computador. Borges Netto pensa igual: “E não basta dividir as frases apenas,
mas reduzi-las. Cortes. Cortes. Cortes. O texto deve ser enxuto.” (NETTO, 2016,
p. 25)
A evolução na qualidade de texto é tão grande, que Borges Netto mostra
indícios de ter assimilado quatro melhorias com relação à sonoridade: eco,
colisão, aliteração e assonância. Todos esses problemas empobrecem o texto em
prosa. O eco é a rima involuntária; a colisão, quando a última sílaba de uma
palavra tem som parecido com a primeira da expressão que vem a seguir;
aliteração é repetição de consoantes em palavras próximas; assonância,
repetição de vogais. Veja como Borges Netto tem consciência disso. Na parte em
que fala de metalinguagem, diz: “Três palavras iniciando com “t” “Tinha também
o tambo... na sequência não ficam bem. E as palavras também e tambo juntas soam
mal. Troquei tudo. Retirei o tambo e deixei só o estábulo de ordenha.” (NETTO,
2016, p. 28).
Mostra preocupação metalinguística. Em certo momento, é o autor/narrador
que assume o papel e fala do processo criativo, sempre visando captar o
interesse do leitor. Quer descobrir como ele pensa para poder cativá-lo, o que
não é simples, porque as pessoas são diferentes.
Com esta frase, o
leitor monta em seu pensamento as primeiras indagações. O que farão no bar da
rodoviária? Por que o mês de janeiro? E, como detalhe, a Chica com a carroça.
Atraio e estimulo a prosseguir na leitura. Não devo me preocupar em que ele
leia a história até o final, mas as primeiras dez páginas. Conseguindo
segurá-lo por dez páginas, vou conseguir levá-lo
por mais dez. Aí é só seguir visando aos múltiplos de dez.
Preciso também evitar o “mas” e trocá-los todos
por “e” ou outro substitutivo. Ou mesmo por um ponto. Então desconsidere “Não
devo me preocupar em que ele leia a história até o final, mas as primeiras dez
páginas.” Troque-a por: “Não devo me preocupar em que ele leia a história até o
final. Apenas que leia as primeiras dez páginas”. Ficou melhor. Tenho certeza
que conseguirei escrever a história toda de maneira surpreendente. Desta forma, meu leitor se manterá interessado até o final.
(NETTO, 2016, p. 16)
Claro que todo o escritor deve ser, inicialmente, um amante de livros.
Borges Netto já relevou ter começado a escrever para contar o que se passava em
Gravataí. E o personagem da história não foge à característica dele próprio de
quando era jovem:
Depois seguimos para a escola e nos apresentamos
ao diretor. E novas regras foram passadas. A mãe falava por mim. Que aprendi a
ler muito rápido. Antes mesmo de ir à escola. Que ela foi que me iniciou nas
letras. Que logo eu já estava com um livro debaixo do braço. Que li todas as
suas coleções que trouxera da vida de solteira. Omitiu que, casada, o pai
jamais lhe comprou livros. Quando ela comprava trazia escondido para a estante.
Que só líamos quando o pai não estava.
O verdadeiro mestre, quando diz que vai fazer algo, ele cumpre. E isso
lhe dá credibilidade. As pessoas acreditam e lembram. Talvez seja essa a
explicação que fez o personagem do romance recordar o episódio: “Prometeu que
viria uma vez ao mês para me ver. Cumpriu à risca a promessa nos seis anos em
que fiquei estudando” (NETTO, 2016, p. 13).
Uma das cenas mais belas é quando um pai ou uma mãe incentivam o filho
para algo, até porque não é rotina. Uma quantidade muito grande de
progenitores, talvez movidos por suas frustrações, coloca os jovens para baixo
e pisam no sonho deles. Borges Netto dá essa lição de beleza e compreensão
entre mãe e filho neste diálogo: “Ainda quer que eu cante? / — O grupo precisa
da tua voz — foi o que ela disse.” (NETTO, 2016, p. 15) O rapaz estava buscando
o sonho da música e ingressou no coral da escola, mas, como queria cantar
melhor que os colegas, terminou errando o tom. Sua mãe o incentivou a
continuar.
A coisa mais importante que as pessoas têm é o seu sonho. E talvez a
maior perversidade que possa existir é rebaixá-lo. O desrespeito do pai, que
não apreciava cantorias, dá a tônica de como a personagem deve ter se sentido:
“Quando não há ninguém por perto, eu canto” (NETTO, 2016, p. 27).
Há duas fases do narrador desse livro: a de jovem e a de velho e
romancista. É uma técnica. Inúmeros escritores já a colocaram em prática, o que
dá nova dinâmica à obra. Erico Verissimo (s/d.), no último volume de O Tempo e o Vento, relata os episódios
das famílias Terra e Cambará por meio de um de seus integrantes, Floriano, que
também aparece como jovem e como mais velho e narrador. A preocupação do
narrador é prender a atenção das pessoas e faz indicações de que está seguindo
um Manual Prático, escrito por ele, que dá conselhos de como desenvolver uma
história: “Se você, leitor, chegou até aqui é porque consegui segurá-lo
conforme manda o Manual Prático.”
(NETTO, 2016, p. 17)
Dentro da metalinguagem, Borges Netto ou o narrador defende seu ponto de
vista sobre o fazer literário. Os teóricos tiram conclusões diferentes.
Aristóteles (s/d.) enfatizava a verossimilhança; Luckács (1965, 2000) dizia ser
importante a representação da luta de classes; Ezra Pound (1990 1995) queria a
riqueza de significação. Borges Netto ressalta o sentimento: “Se o autor não se
empenhar, não der tudo de si, traduzindo com fidelidade seus sentimentos,
restará um lamentável engano literário.” (NETTO, 2016, p. 20)
O autor gosta de bares, local que aparece em quase todas as suas
histórias. É um boêmio de espírito, mesmo que não o seja na prática. O violão
sempre está junto. Situações como essa devem ser muito admiradas por Borges
Netto. Além de aparecerem nos seus textos, ele próprio almeja aprender a tocar
violão. Confira uma passagem em que fala deles: “E de bar masculino passou a
misto. O bar Cornualha. Uma menção a um condado do Reino Unido que Chico, o
proprietário, utilizou para fazer troça dos frequentadores. Naquela época os
bares eram para homens” (NETTO, 2016, p. 17).
“Neste tempo o bar era frequentado apenas por homens. Repeti o assunto
outra vez. Tenho que me policiar ou este livro estará recheado de repetições.”
(NETTO, 2016, p. 17) Raciocinar dessa forma é um acerto, que deixará o romance
mais qualificado.
Algum professor de literatura, crítico literário, jornalista cultural ou
escritor disse numa entrevista que todos os intelectuais do Brasil já
escreveram, citaram ou tiveram Machado de Assis como mestre. O Bruxo do Cosme
Velho, como às vezes é chamado, foi o melhor, e a Editora Pradense lançou os
contos reunidos e os romances completos em obras gigantes e separadas para
enaltecê-lo. O Borges Netto, em Canção
para Ana, também faz sua referência:
Mas somos assim mesmo. Trocamos nossa paz por
dinheiro. A maldita história da minha vida, que vale tão pouco, está na minha
cabeça, mas não se materializa. Será que o Machado de Assis enfrentava estes
problemas? Vou seguir escrevendo o que lembro e depois me entendo com o editor.
(NETTO, 2016, p. 19)
Às vezes, algumas narrativas são interessantes, porque trazem
explicações de épocas anteriores de como eram as coisas. Em Canção para Ana, o autor conta como se
dava o ensino quatro ou cinco décadas atrás. É como se estivesse dando aula de
História da Educação, cadeira que se aprende na pós de Pedagogia. Mas relata,
envolvendo personagens, o que faz a história cativar o leitor:
Devia ter superado isso no quarto ano. Parecia
errar para que o dedicado Paulo Emílio a acompanhasse e repetisse tudo àquilo
em todos os dias. Ela preenchia o desejo dele de ensinar, e ele o desejo dela
em ser ensinada. Estudaram junto até o quinto ano. Quando chegou o Exame de
Admissão, que os levaria ao Ginásio, ela sucumbiu às provas. Ele ficou muito
entristecido. Sentiu-se culpado em não tê-la ensinado mais e melhor. Apesar da
pouca idade, algo os ligava. A reprovação dela
no exame rompeu um elo que se criara quando iniciaram a alfabetização. Vinha lá
do primeiro ano quando, por coincidência, ficaram na mesma turma. Naquela época
os estudos iniciavam-se no primeiro ano. Não tinha isso de jardim da infância
ou maternal.
Ele realizou o Exame de Admissão ao Ginásio e
estava pronto para ir estudar longe de casa. (NETTO, 2016, p. 22)
“Um histórico invejável sem nunca ter sido reprovado” (NETTO, 2016, p.
22). Anos atrás, a educação era diferente, e muitos reprovavam com certeza. Em
2016, houve diversas mudanças no sistema de ensino, visando apenas melhorar os
índices de aprovação, nada se importando com a aprendizagem. Décadas atrás, se
a pessoa reprovasse em uma matéria, perdia o ano. Hoje, se tirar zero em
Português, Inglês, Espanhol, Artes e Literatura, ou seja, em cinco cadeiras, é
aprovado, porque ficou em apenas uma área, isto é, linguagens.
Quanto à Corbelha, poderia se tratar de um povoado fictício, como
Facundo, de García Márquez, Santa Fé ou Antares, de Erico Verissimo, ou mesmo
Palomas, de Juremir Machado da Silva. Mas existe Corbélia, ex-distrito de
Cascavel, emancipada em 1961. O autor viveu em São Paulo, não deve ter ligação
com essa cidade paranaense.
Talvez as cidades do interior sejam muito similares. As descrições de
Santa Fé se parecem com as de Cruz Alta, cidade natal de Erico Verissimo, na
mesma proporção que as de Corbelha são iguais às de Gravataí: “Tudo se
encontrava no centro, onde estava a Prefeitura e a igreja. Lá havia a estação
rodoviária, um pequeno e asseado hotel.” (NETTO, 2016, p. 26). Afinal, os
escritores devem trabalhar com as realidades que conhecem. Não adianta
descrever a Califórnia, por exemplo, se o autor nunca esteve lá.
“— Colher batatas — falava o pai entusiasmado. — Espero que a safra seja
boa. Preciso pagar o banco. / — É sempre assim? Estamos sempre devendo ao
banco?” (NETTO, 2016, p. 25) Borges Netto não chega a escrever uma narrativa
inteira sobre a questão, como fez Charles Kiefer (1992), em O Pêndulo do Relógio, até porque suas
preocupações vão por outro caminho, todavia menciona o fato, uma vez que
conhece a agricultura familiar.
Salvo engano, todas as obras de Charles Kiefer não tratam da agricultura
familiar, nem as de José Lins do Rego (que abordava o ciclo da cana de açúcar)
ou de Jorge Amado (com o ciclo do cacau), muito menos Cyro Martins (que
desenvolveu o ciclo do gaúcho a pé). Borges Netto talvez seja o primeiro a
explicar o dia a dia do agricultor familiar:
Naquela
tarde fomos todos para os canteiros de tomates. Os tomates recebiam uma linha
de arame entre dois mourões fixados nas extremidades dos canteiros. Sobre este
arame se cruzavam taquaras que eram amarradas a servir de suporte aos frágeis
galhos dos tomateiros. A tarefa era
retirar os brotos, deixando apenas a haste principal que era amarrada com uma
fita, à medida que crescia, até o alto da taquara. Fazíamos a poda e já
amarrávamos. Realizada a tarefa, seguíamos com a capina. Cada trabalhador numa
vala que separava os canteiros. As enxadas eram levantadas e cravadas no solo
com um ruído surdo. Chutávamos o torrão para que as raízes das ervas daninhas
perdessem as esperanças de sobreviver. Parecia um balé onde cada um fazia a
limpeza de uma vala, baixando e levantando a enxada, chutando o torrão,
levantando e baixando a enxada outra vez. As enxadas faziam cortes profundos a
retirar pela raiz toda a vegetação que não interessava. A terra revolvida
exalava um odor úmido e as raízes iam ficando à mostra. Volta e meia a enxada
pegava uma minhoca e a deixava em dois pedaços. (NETTO, 2016, p. 32)
Em alguns contos, crônicas ou romances de Borges Netto, há mais
aproximação do personagem principal com a progenitora, que sente falta do
rebento e lhe dá proteção e carinho. É assim que o senso comum diz que as mães
se comportam, mesmo que não seja regra. Qualquer situação que prejudique o
filho a machuca. “A mãe já começava a demonstrar tristeza. Seu olhar estava
triste mesmo quando sorria.” (NETTO, 2016, p. 27). Mas nem todas são dedicadas.
Pela recorrência da reprodução da mãe de qualidade em inúmeras situações, Borges
Netto deve ter tido sorte na vida real.
As pessoas são fruto do que escolhem. Apesar das exceções, está
comprovado que, para se receber mais dinheiro, deve-se estudar. No entanto é
comum os humildes refletirem com desprezo sobre os livros. “O pai não gostava
muito que eu parasse as tarefas para ficar escrevendo. Ele não sabia que eram
poemas. Pensava sempre que era coisa da escola. Imaginava que fosse aluno mais
dedicado do que realmente era.” (NETTO, 2016, p. 29)
Alguns escritores – entre os quais Manoel de Barros – leem os grandes
livros para se inspirar, para reescrever ou produzir versões. O personagem
narrador (alter ego do romancista) parece obedecer aos mesmos critérios: “E
mantive o hábito de me impressionar com algo bem escrito e desenvolver um texto
a partir daí. No meio de uma leitura, encontro uma frase inspiradora. E parto
dali para criar algo. Uma deixa que o escritor não aproveitou e me aproprio.”
(NETTO, 2016, p. 30) Apesar de o narrador dizer que não se deve confundir com
plágio, talvez essa declaração se faça importante para um leigo em literatura.
Um entendido sabe que mesmo os grandes escritores, volta e meia, usam esse
recurso. Dá para citar, por exemplo, os norte-americanos Ezra Pound e T. S.
Eliot ou o brasileiro Haroldo de Campos.
Cada autor se inspira em situações particulares. Alguns amam a natureza
e tiram dela o seu alimento, caso de Borges Netto ou do seu personagem. Outros
a detestam. O poeta de Campo Grande (aludido acima) observa pequenos seres,
minhocas, abelhas. Armindo Trevisan busca sua poesia nas Escrituras Sagradas,
enquanto Mario Quintana enfatiza a morte e o cotidiano de relacionamento entre
os viventes. José Eduardo Degrazia procura escrever sobre tudo. Ou seja, nem
todos gostam da fauna e da flora, como Borges Netto e seu personagem:
Depois da colheita, quando todos foram descansar
na sombra de uma árvore, fui cantando e caminhando sozinho pelo campo. Esses
passeios solitários me agradavam bastante. Era onde coletava as imagens que
impregnava nos poemas. A paisagem bucólica da chácara era muito bela e estava
sempre descobrindo novos encantos. A quaresmeira repleta de frutos. Os pardais
no alarido e perseguições de sempre. Os quero-queros dando o alerta pela minha
presença em seu território. (NETTO, 2016, p. 31)
A cena e os diálogos que abordam a ida de Carla à pensão onde o rapaz
morava é a parte mais forte da história. O leitor fica em suspenso, na
expectativa do que acontecerá. A moça é mais velha, decidida e resolve dormir
com o rapaz, depois de trocar olhares com ele por vários dias no bar Cornualha.
É a melhor cena em toda a sua produção. Além de Carla ter entrado no quarto do
cantor, a amiga dela também o faz, e o moço ingressa num mundo em que as
mulheres pegam o que desejam.
É uma tirada original colocar a personagem a cantar para si na chácara
do progenitor, e a cantoria influencia positivamente no aumento da produção
leiteira. Receber aplausos dos produtores da região que vieram saber como
funcionava a música e as vacas, afora os mugidos, surpreende o leitor. A vida
às vezes tem esses meandros.
Enfim, Borges Netto, com esse romance, parece ter alcançado o topo da
sua produção artística, pelo menos na qualidade de texto. Percebeu a
importância de se trabalhar o som, como os problemas de ecos, aliterações, assonâncias
e colisões. E a mesma qualidade se encontra em Limites de Segurança 2, até porque se trata de uma obra reescrita.
REFERÊNCIAS:
ARISTÓTELES. Ética. São Paulo: Ediouro, s/d.
EMERSON, Ralph Waldo. A conduta para a vida. São Paulo: Martin
Claret, 2003.
KIEFER, Charles. O pêndulo do relógio. 5. ed. Porto
Alegre: Mercado Aberto, 1992.
LUKÁCS, Georg. Ensaios sobre literatura. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
___. A teoria do romance. São Paulo: Duas
Cidades, 2000.
RAMOS, Graciliano. Infância. 28. ed. Rio de Janeiro:
Record, 1993.
SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos sobre filosofia de vida. Rio
de Janeiro: Ediouro, 1991.
TREVISAN, Armindo. Novos Ensaios. Porto Alegre: Pradense,
2013.
___. Ler por Dentro. Porto Alegre: Pradense,
2010.
___. A Poesia – uma iniciação à leitura
poética. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura e Uniprom, 2001.
VERISSIMO, Erico. O Continente. São Paulo: Círculo do
Livro, s/d.
___. O retrato. São Paulo: Círculo do Livro,
s/d.
LIMITES
DE SEGURANÇA 2ª edição
Romance, 2018 – Livro 05
Embora a maioria dos escritores sérios considere a sua produção uma obra
de arte, a literatura de Borges Netto cativa tanto o leitor, que serve de
entretenimento, o descansa, o diverte, o sensibiliza. E não é mais ou menos
essa a função de um escritor?
Neste ensaio, aborda-se a segunda edição de Limites de Segurança. O problema é que um estudo a respeito já
tinha sido publicado com o mesmo nome em Natureza
da Palavra em Borges Netto. No entanto o autor de Gravataí fez inúmeras modificações,
o que o transforma em quase outro livro.
As frases do texto de Borges Netto sempre foram dinâmicas, no sentido de
que ele escreve num fluxo de orações curtas, mas, desta vez, em Limites de Segurança, 2ª edição, o autor
de Gravataí parece ter usado aspectos do estilo de Nélida Piñon, porém com um
toque diferente, que o singulariza. Borges Netto separa por pontos os sintagmas
significativos, que dão realce à história. Não disseram que o estilo faz o
homem? O romancista parece ter encontrado o seu, depois de 25 títulos
publicados. O artista sempre evolui.
Paulo Coimbra Guedes ressaltou, no seu manual de redação escolar, as
melhores estratégias para se escrever um texto claro, objetivo e de fácil
entendimento. Borges Netto, ainda que não conheça esse estudo, segue todas as
dicas.
Outro aspecto enfatizado por Paulo Coimbra Guedes é a unidade temática.
Um livro, uma redação, um texto precisa tratar de um assunto e só deve trazer
informações que colaborem para o objetivo traçado pelo autor. Pois Borges Netto
segue todos os ditames teóricos mais uma vez. Limites de Segurança poderia ser um texto para se estudar numa
oficina de criação literária, mesmo que Luiz Antonio de Assis Brasil tenha
ressaltado a dificuldade de se desenvolver uma oficina de romance.
Certa vez, para lembrar o conselho de um antigo professor universitário
– José Fernando Miranda, falecido alguns anos atrás, disse que uma obra deve
ser densa. É quando o autor enche as lacunas com informações e diálogos que
ampliam o contexto e dão um caráter de vida às personagens. É o que se vê nessa
nova edição do romance.
“Segue encantado com a rusticidade do casario. São casas geminadas
dentro dos irregulares quarteirões.” (NETTO, 2018, p. 12) As simpatias do
autor, seus gostos, podem ser descobertos nos detalhes da obra. Em 1990, Borges
Netto publicou O Lorde do Casarão e o
enredo lhe surgiu de repente, quando andava pelas avenidas de São Paulo e se
deparou com um casarão antigo e abandonado e escreveu uma história que merecia
ser divulgada em âmbito nacional. Impossível o leitor parar de lê-la.
“Segundo informação do senhor Pig, não há
como divertir-se nas noites de Cumbuca.” (NETTO, 2018, p. 20) Um dito popular
sugere que não se põe a mão em Cumbuca. Borges Netto deve ter dado o nome pela
mesma razão, sugerindo que o personagem principal talvez estivesse se metendo
numa enrascada.
“Uma boa esposa sempre está preocupada com os gastos.” (NETTO, 2018, p.
21). Esta oração deve ter sido feita em homenagem à esposa do próprio autor,
que volta e meia se refere a ela com todo o carinho e cuidado. Afinal, é sua
companheira. Borges Netto já indicou, na abertura do livro, que alguns aspectos
e características das personagens vêm da sua mulher. Em Solo de Clarineta, Erico Verissimo também revelou que esse ou
aquele personagem ele os criou se baseando em algum parente ou conhecido.
“— Estou mapeando os pontos de referência. Não quero me perder. Sabe por
que se chama Esquina Insegura?” (NETTO, 2018, p. 30) O autor presta atenção nos
detalhes. Todos os municípios apresentam nomes estranhos de alguns pontos.
Gravataí, cidade do escritor, dispõe da “curva do bigode”; Santo Antônio tem
várias situações parecidas, como “o paço das moças”, “Canta Galo”, a “Esquina
dos Morros”. E Cumbuca possui a “Esquina Insegura”.
O escritor também presta atenção nas personagens. Pouco fica
despercebido. As pessoas não são iguais. Em cada região, notam-se aspectos
humanos diferentes. Em Gravataí, parece que as pessoas são leves, suaves, do
bem. Em Santo Antônio, se ofendem por qualquer coisa. Em Cumbuca: “Já aprendeu
que o ato de erguer as sobrancelhas é uma constante por ali. Basta esbarrar
numa pergunta ardilosa e lá se vão às sobrancelhas para cima.” (NETTO, 2018, p.
30)
Há escritores que valorizam apenas a cultura letrada, as inteligências,
o conhecimento. Borges Netto é de outro naipe. O que destaca, em geral, é o
popular, a sabedoria daqueles que viveram muito e assim descobriram as coisas,
como nesta passagem: “Nunca foi bom meteorologista como o senhor Ary. Bastava
olhar para o céu e, com seu saber popular, previa a chuva ou o sol” (NETTO,
2018, p. 31).
O brasileiro tem por costume apreciar o tamanho das nádegas femininas
(quanto maior e mais arredondadas, melhor), enquanto os americanos preferem
seios volumosos. Já os chineses gostam de pés delicados. Borges Netto possui
algum parentesco oriental, e isso pareceu se evidenciar nesta passagem: “Jorge
observa os movimentos da mulher. Ela retira os sapatos de salto e fica com os
pés diretos na pedra. É a Cinderela que se materializa naquela calçada. Está
fascinado pela leveza e o detalhe delicado daqueles pés.” (NETTO, 2018, p. 32)
A mistura cultural enriquece a produção artística em qualquer gênero.
“É uma mulher madura. A idade perfeita na vida.” (NETTO, 2018, p. 32)
Ninguém precisa concordar com o autor. O tempo do autoritarismo e da repressão
já não existe mais (espera-se). No entanto, Borges Netto se referiu a uma
questão que convida o leitor a refletir. Alguns podem falar que a melhor época
da vida é a juventude, porque as fisionomias estão mais belas, e os corpos, em
geral, em forma. Entretanto eles sabem muito pouco da vida (embora acreditem
dominar todos os mistérios) e, por causa da sua falta de sapiência, tomam
decisões equivocadas. Uma pessoa madura, ao contrário, às vezes não tem o corpo
em forma, mas em geral se estabilizou psicológica e financeiramente, conhece a
sociedade, as pessoas, como agir, o que falar. Talvez o escritor tenha razão de
que a idade madura é a mais perfeita.
“É uma comunidade que se completa” (NETTO, 2018, p. 34), afirma o
narrador heterodiegético (porque conta a narrativa em terceira pessoa e não faz
parte dela). Isso prova que pelo menos uma pequena cidade do interior resgata a
antiga conclusão de Aristóteles a respeito da cidade-estado grega: esses
povoados, na opinião do grego, deveriam ser autossuficientes. Não é bem verdade
na prática, porém os concidadãos talvez pensem dessa forma.
Um dos recursos literários que promove o riso e faz o leitor refletir é
a ironia, mesmo que muitas pessoas não percebam que o autor a está empregando.
Ateu que é, não acredita nem em Deus ou na religião. Portanto, ao falar que a
Igreja quer coelhos reproduzindo e rezando, na verdade isso é um deboche.
Também ridiculariza o fato de que há muitos trabalhadores braçais, que muito se
esforçam, mas pouco dinheiro ganham.
Anda pela rua e olha as pessoas que passam. É um
lugarejo de trabalhadores braçais. Melhor não ter muitos filhos por aqui. Assim
pode-se dar mais atenção e estudo aos pequenos. E evitar que sigam a triste
sina dos pais. Mas sabe que o padre pedirá mais filhos. É a obrigação para com Deus.
Quer os homens crescidos e multiplicados. E todos rezando. Quando haverá um
papa para dizer que homens não são coelhos? (NETTO, 2018, p. 34)
“A igreja não é longe. E será de
bom tom ser visto pela comunidade compenetrado e de joelhos durante uma oração.”
(NETTO, 2018, p. 36) Cosenza e Guerra (2011) garantem que apenas os
inteligentes medem as consequências dos atos. Alguns cérebros tomam as atitudes
sem se importar com que os outros vão dizer e com as consequências. Há pessoas
que agem por impulso, e as cadeias estão cheias deles, não é o caso do
personagem Jorge.
O escritor já advertiu que a esposa de Jorge, protagonista do romance,
tem alguma semelhança com sua mulher na vida real. “Estivesse a esposa ali, passeariam pelas ruas estreitas de mãos dadas.”
(NETTO, 2018, p. 38) Parece que a esposa do autor é a companheira de todas as
horas. Estão sempre juntos em todas as situações. Por isso é natural que as
personagens caminhem de mãos dadas, porque é o que faz na vida real.
Ao longo de sua obra, o autor ainda não tinha utilizado sua experiência
como executivo de indústria na produção literária. E efetivamente o escritor de
Gravataí teve carreira de sucesso no meio empresarial. Na passagem a seguir,
mostra um pouco do seu raciocínio em gestão:
“Pig possui um pequeno matadouro que herdou do
pai, que o herdou do avô. E agora pretende ampliar os negócios. Para isso
precisa da luz elétrica. Ou continuará conhecido como apenas mais um matadouro
que precisa entregar a produção a um frigorífico maior.” (NETTO, 2018, p.
40-41)
“A solidão é grande demais. Isso o fará ficar doente em breve.
Impossível não adoecer com tanta pasmaceira.” (NETTO, 2018, p. 46) Está certo
que Aristóteles (s/d.) disse que o ser humano é um ser social e por isso gosta
de viver rodeado por pessoas. Mas Lya Luft (1980, 1982, 2004) garante que um
escritor dispõe do seu mundo intelectual, projetos de textos, línguas para
aprender, teorias para estudar. Enfim, não se importa de ficar isolado. Mas o
personagem Jorge é um ser humano comum, um gestor. Não se trata de um homem de
Letras. Portanto é natural que fique angustiado por causa da solidão.
“Mas aquele é o único lugar em que encontrou trabalho.” (NETTO, 2018, p.
47) Essa é uma situação tipicamente masculina: ir trabalhar em outras cidades,
ficar horas dentro de um ônibus para ir e para voltar (não é o caso de Jorge,
que vive num hotel), mesmo que algumas mulheres também ajam assim, mas o normal
é que os homens enfrentem sacrifícios para sustentar as famílias. Grande parte
das mulheres do interior nem sequer trabalha, elas ficam no lar, cuidam dele,
limpam e arrumam as coisas, protegem os filhos, mas não enfrentam o estresse
diário de sair para buscar o alimento de todos. Essa é uma das prováveis razões
que fazem os homens morrerem mais cedo.
“Como Ícaro fascinado com a luz do sol.” (NETTO, 2018, p. 48) Às vezes,
num momento ou noutro, o escritor despeja sua vasta quantidade de leitura.
Ícaro integra a mitologia grega, era filho de Dédalo e terminou conhecido por
tentar sair de Creta voando.
“Há uma bússola ligada na corrente sanguínea que bombeia localização e
excitamento.” (NETTO, 2018, p. 49) Essa é outra frase tipicamente masculina: os
homens sentem uma sensação similar em algumas situações: a) quando entram num
cabaré; b) quando vão falar com uma prostituta; c) quando sabem que estão
fazendo algo proibido, mas que tem relação com o belo sexo.
“Ao poucos sua preocupação com os limites de segurança emocional é
soterrada pela curiosidade e pela excitação. Entra no bar.” (NETTO, 2018, p.
50) Ter um emprego é uma segurança, porque é o homem que deve sustentar a si e
a sua família; ter uma mulher também. Parece que os homens têm dificuldade de
ficar sozinhos. Necessitam de uma mulher, e não só por causa do sexo. A mulher
constrói e mantém a família. O homem é apenas uma peça, num mundo dominado
pelas fêmeas, porém ele precisa ser essa engrenagem para se sentir seguro. As
duas situações se referem a Jorge, mas, quando tenciona entrar na possível
boate, se ele se mantiver à distância, ou do lado de fora, ou mesmo no hotel,
esse seria o limite de segurança também, que pode significar não se envolver
com mulheres da cidade, a que a maioria dos homens não obedece.
Certa vez, Muniz Sodré (1985) afirmou que, para agradar aos leitores, o
escritor não deve ser explícito ao descrever uma cena de sexo, ao contrário de
João Gilberto Noll ou Rubem Fonseca. É melhor sugerir, deixar na entrelinha,
como fez Borges Netto: “E alguns ainda levam as moças mais ousadas para casa.”
(NETTO, 2018, p. 53)
“É apenas um ambiente familiar onde todos se conhecem, admite.” (NETTO,
2018, p. 54) Não é verdade, mas as pessoas gostam de mentir para si próprias de
que está tudo certo e não fazem nada de errado. É óbvio que Jorge se encontra
no local para pegar mulher. Todo o homem sai de noite com esse propósito.
Nenhum deles é inocente. Porém, enquanto ainda não se relacionou com uma fêmea,
pode fantasiar para sua consciência (mesmo que não consiga enganá-la) de que
foi só para distrair a mente, espairecer, passar o tempo.
“Neste sábado há um estranho no balcão. É um homem interessante, apesar
da gravata amarela e do chapéu antigo. Encontrará chapéus bem mais modernos na
chapelaria do Lúcio.” (NETTO, 2018, p. 64) Em alguns momentos, o autor dá
pistas da época em que se desenvolve a história: deve ser na década de 1950,
quando havia lojas de chapéu e radionovelas. Os primeiros foram saindo de moda
no final dos anos de 1950. Quanto às radionovelas, a primeira transmissão foi
ao ar em 7 de setembro de 1922. Essa espécie de subgênero literário ainda perdurou
até o final dos anos de 1950. Na década seguinte, somente algumas emissoras de
rádio ainda transmitiam, e nos anos de 1970 foi saindo de moda.
Concluindo, esta segunda edição de Limites
de Segurança subiu a um patamar de qualidade literária bastante elevada.
Talvez uma atitude que poderia fazer com que a maioria dos escritores e
estudiosos de literatura do Estado conhecessem a sua produção é que Borges
Netto tentasse se encontrar com esses intelectuais e lhes presenteasse com pelo
menos um exemplar de alguma de suas publicações mais recentes. É como se
estivesse plantando, agricultor que foi. Se algumas plantas não nascerem, o que
é normal, outras germinarão. Longe de
Casa, ainda que apresente as mesmas qualidades textuais, ingressa em outro
gênero literário, a viagem.
REFERÊNCIAS:
ARISTÓTELES. Ética. São Paulo: Ediouro, s/d.
___. De anima. Buenos Aires: Juarez Editor,
1969.
COSENZA, Ramon M.; GUERRA, Leonor B. Neurociência e Educação, como o cérebro
aprende. Porto Alegre, 2011.
EMERSON, Ralph Waldo. Conduta para a vida. São Paulo: Martin Claret, 2003.
GUEDES, Paulo Coimbra.
JABLONSKI, Eduardo. Natureza da Palavra em Borges Netto. Gravataí: Clube Literário,
2014.
LUFT, Lya. As parceiras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
___. Reunião de família. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
___. Mar
de dentro. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.
NETTO, Borges. O Lorde do Casarão. Gravataí: Clube Literário, 1991.
RAMOS, Graciliano. Infância. 28. ed. Rio de Janeiro: Record, 1993.
SODRÉ, Muniz. Best-Seller: a literatura de mercado. São Paulo: Ática. 1985.
VERISSIMO, Erico. Solo de Clarineta. Porto Alegre: Globo, 1976.
LONGE DE CASA
Crônicas/Memórias/Viagens, 2018 – Livro 23
Como um escritor faz um texto sobre uma longa viagem? É só pegar um laptop e deixar a imaginação fluir,
percorrendo as trilhas da memória, o ritmo do texto, o embalo das imagens. Longe de Casa aborda um passeio que o
marcou: Itália, Paris, Londres, mas, de início, Borges Netto começa lembrando
uma viagem, a primeira da sua vida, o trajeto entre Gravataí e Canoas, na sua
infância. Vai envolvendo o leitor na expectativa de uma grande viagem, um sonho
acalentado por anos.
“E lá vamos nós, Lígia e eu, a dois, três metros atrás do Araí. Ele
parece atrasado para ir à roça. Só lhe falta a enxada e a foice às costas.”
(NETTO, 2018, p. 18) Mais uma vez, aparece uma imagem de agricultura. O autor
não consegue fugir, e nem deseja, das suas origens.
No momento em que o casal Borges e Denise, juntos de alguns parentes e
amigos, desembarcam no aeroporto italiano, Borges sente-se nervoso pelos
mínimos contratempos. Um deles é a apreensão para tomar as bagagens (NETTO,
2018, p. 20). Como não fala italiano nem inglês e não se lembrava do número do
voo, não tem certeza onde as encontrará, mas tudo acaba da melhor maneira.
Borges Netto fala da má impressão que o motorista da agência de turismo
causou neles, por estar irritado e proferir desaforos, mas, por um milagre,
muda de humor quando um dos turistas revela que morava perto de Porto Alegre.
Então se lembrou do jogador Paulo Roberto Falcão e começou a contar as
estripulias sexuais do ex-craque do Internacional, Roma, São Paulo e Seleção
Brasileira (NETTO, 2018, p. 26).
O texto parece conduzir o leitor a um filme, ou melhor, a uma
experiência vívida de uma viagem. É como se o leitor também estivesse se
locomovendo. Talvez por isso as obras de viagem registram sucesso, porque as
pessoas que não têm condições de viajar acabam vivendo tudo isso com a leitura.
A experiência de escritor não se desgruda de Borges Netto. Em meio à
estupefação de estar num hotel italiano, com uma cama esquisita, o prosador e
poeta menciona a possibilidade de inserir o móvel num de seus livros que
lançará brevemente. De certa maneira, mistura o lado metalinguístico a um livro
de viagens.
A cama é enorme. Gigantesca. Denise fica
desaparecida entre aqueles lençóis imensos. Vou colocar uma cama dessas na
segunda edição do livro Limites de
Segurança, que há alguns meses venho trabalhando. Mas talvez não faça
sentido por tratar-se de um romance onde o palco é um minúsculo povoado de
Gravataí. (NETTO, 2018, p. 32)
“Denise no branco dos lençóis. Um anjinho perdido entre as nuvens. E
mais: um anjinho feliz, adorável e eterno.” (NETTO, 2018, p. 33) Essa passagem
pode fazer o leitor imaginar o sentimento que Borges nutre por ela. É bonito
ver um escritor expressar palavras de carinho por uma mulher, por um filho, por
um pai. É claro que falar de amor por uma mulher é algo corriqueiro na
literatura, mas não quando um casal está junto há tantos anos, como Borges
Netto e Denise Jorge. Por isso se torna uma passagem bonita e até emocionante.
“Mas todo este malabarismo é para não perder Denise de vista. Ando três,
quatro passos de costas e, ao vê-la me seguindo, retomo a marcha de frente.”
(NETTO, 2018, p. 34) O homem tem um instinto protetor. Está sempre cuidando da
sua fêmea e da sua prole. Lendo a passagem de Borges Netto e o cuidado que tem
para com sua mulher, parece que a frase é verdadeira.
Na página 35, Borges Netto achou estranho o nome do motorista, que o
guia castelhano chamou de Rusto, mas que, na verdade, se chamava Justo. Um
possível leitor que viva numa cidade acostumado com pessoas que gostam de dar
nomes esquisitos aos seus não estranhará. Porém, se for espanhol, é um nome corriqueiro.
Borges Netto cita Memórias de
Adriano, de Marguerite Yourcenar (NETTO, 2018, p. 36), livro sobre Roma. Os
intelectuais, em geral, leem obras a respeito das cidades que visitarão. Talvez
tenha sido o caso do autor de Gravataí ou apenas se lembrou de um romance
degustado anos atrás.
“Finalmente estamos em Veneza. Desde que conheci a literatura de Erica
Jong, aguardo por este momento.” (NETTO, 2018,
p. 93) Mas Borges Netto parece tomar algumas atitudes, porque lhe dá prazer.
Não se importa de visitar um autor não tido como um clássico. Lê os best-sellers para se divertir, para
descansar a cabeça, como alguns psicólogos sugerem.
Embora o texto se desenvolva de maneira organizada, às vezes tem-se a
impressão de que é feito com a intercalação de crônicas. A característica de
bate-papo desse gênero de literatura dá um toque de leveza à produção. É como
se conversasse com o leitor, como se este fosse um amigo que escuta uma longa,
mas agradável conversa, cheia de surpresas.
Em quase toda a página 40, o autor vem com informações históricas.
Levando em consideração que a literatura do Rio Grande do Sul está repleta de
autores com tal viés, Borges Netto está bem acompanhado, mas é um livro de
viagens e aborda a Itália, Paris, Londres e um pouco da Suíça, porém é sempre
bom trazer esse tipo de informação, uma vez que se trata de países ricos em
história.
Na Capela Sistina, talvez a mais famosa do mundo, onde Michelangelo
passou meses pendurado por um andaime, um membro da delegação brasileira solta
um espirro (NETTO, 2018, p. 51), e Borges Netto faz algumas ironias, porque um
guarda reclama em italiano. Borges acha, de brincadeira, que o homem deveria
ser mandado pelo menos ao purgatório. Às vezes a ironia dá um tom de suavidade
ao texto, quando não tem maldade. E Borges Netto nunca parece ter maldade, está
sempre de brincadeira, se divertindo.
Depois de sair do Vaticano, passa por muitas lojas, e todas garantem
possuir um convênio com o Papa, que abençoaria cada amuleto religioso comprado
ali (NETTO, 2018, p. 56). Borges Netto não acredita nisso. Pensa no seu
costumeiro raciocínio lógico que, fosse verdade, a figura mais importante para
os católicos ficaria o dia todo fazendo isso, por causa da grande quantidade de
lojas e o número de crentes que vão até lá adquirir as bugigangas. É óbvio que
se trata de uma enganação. Ademais, ainda há outro aspecto: será que um papa se
submeteria a entrar num jogo comercial desses? É pouco provável. Um católico
tende a pensar que o papa é o ser mais honesto e correto que existe.
Parece que Borges Neto, embora nunca tenha escrito obras sobre viagens,
tenha alcançado uma espécie de perfeição. A expectativa desse longo passeio é
retratada e faz o leitor senti-la. Somado a isso, vai acrescentando informações
históricas de cada situação. Portanto, Borges Netto trabalha o sentimento e o
lado intelectual.
Borges Netto enfatiza algumas vezes que Denise não gastaria uma moeda
para arremessá-la na Fontana di Trevi, tão sovina que é. No entanto, não se
constrange em comprar três bolsas de uma vez numa lojinha ali perto. Se ela
realmente fosse tão avara, não teria um lado consumista ou teria?
E Denise compra uma bolsa branca. Já na saída da
loja encanta-se com outra, agora preta. Volta. Compra. O indiano não entende
porque esta turista compra e paga uma peça de cada vez. Ah, se ele soubesse o
que é conviver com Denise. E não é que, depois de pagar a segunda bolsa, acaba
voltando e comprando uma terceira, na cor bege? (NETTO, 2018, p. 66)
Ao falar da esposa, ela sempre está à espreita de uma loja: “Denise vem
especulando, outra vez, pelas lojinhas da Rivoli.” (NETTO, 2018, p. 145) Será
que Bauman tinha razão ao dizer que as pessoas são o que adquirem?
Quando fala do comportamento das moças, que gostam principalmente, na
sua opinião, de duas coisas: comprar e conversar, ou quando toca no assunto
político envolvendo o ex-presidente Lula e a corrupção, Borges Netto jamais é
agressivo, nunca debocha. Na verdade, respeita a todos, parece estar de bem com
a vida. Esse comportamento de certa maneira faz com que a leitura deslize com
maior suavidade.
O filósofo Michel Montaigne disse que se conquistam as mulheres pelo
elogio. Borges Netto parece dedicado a sempre ir reconquistando a sua
companheira de vida. Por isso fala que perdeu uma oportunidade de elogiá-la
quando ela mostrou uns braceletes. A seguir, comenta sobre as pessoas que não
prestam atenção na amada: “Ou lhes falta o exercício que é tão importante para
a manutenção química como casal. (NETTO, 2018, p. 82). “Fica meio politicamente
incorreto usar uma pulseirinha de corais de Capri. Mas que Denise fica muito
elegante e linda com os corais de Capri, lá isso fica.” (NETTO, 2018, p. 83).
“Junto ao rio Arno, encontramos uma feira de alimentos. Pequenas bancas
onde os lanches são confeccionados na hora. E o pessoal consome ali mesmo sem,
no entanto, emporcalhar o chão com guardanapos usados ou embalagens.” (NETTO,
2018, p. 90) É outro nível. Trata-se de um povo europeu, embora receba visitas
de pessoas de todas as partes do mundo, mas os brasileiros são mal-educados e
estão sempre jogando lixo no chão, o que não parece ser o costume de outros
povos. Na última Copa do Mundo, os torcedores japoneses limparam o que sujaram
depois das partidas da sua seleção. Isso é bonito, e o que é bonito deveria ser
imitado.
“Fico imaginando quanto tempo uma máquina daquela sobreviveria no
Brasil.” (NETTO, 2018, p. 110) Está falando de um banheiro público numa praça
de Verona, na Itália. A engenhoca era para o pagamento do mictório, e ninguém
recebia o dinheiro. Inclusive dava para pular e fazer as necessidades de graça.
Dizem que os europeus são bem mais honestos e educados que os brasileiros.
Aqui, como se sabe, os delinquentes roubam ou furtam o que veem ou estragam,
apenas para se divertir praticando o mal. O vandalismo no Brasil é coisa de
jovem que ou quebra tudo ou faz uns riscos com a finalidade de deixar as coisas
mais feias. Borges Netto afirmou que há muitas construções romanas preservadas
em Verona. Nenhuma delas ficaria em pé, bonita ou preservada no Brasil.
“E limpeza. Cidade muito limpa. Não. Ali tem um papel de caramelo preso
entre as ranhuras de escoamento do mármore. É todo o lixo que encontro. Foto.”
(NETTO, 2018, p. 111) Esse é outro problema que todos conhecem no Brasil: não
existem cidades limpas. As pessoas, em todos os lugares, jogam as coisas no
chão, a não ser um que outro mais educado. O problema é que dificilmente se
encontra um ser humano educado no país. O Deus do Antigo Testamento, que matou
milhares de pessoas de cidades inteiras porque eram maus, talvez fizesse o
mesmo no país tupiniquim.
Esquisito os italianos inventarem a casa de Julieta, o local onde
estaria enterrada, se aquilo é ficção de Luigi da Porta em 1530 e depois
reescrita por Shakespeare. Os italianos têm muitos destroços e até prédios
preservados da época dos romanos. Então por que inventar uma mentira? Por
questões comerciais? As pessoas são desinformadas ao ponto de acreditar nisso?
Mas não se deixe enganar. Romeu e Julieta é obra
de ficção. Entretanto, isso não impediu a cidade de tornar os acontecimentos em
fato real com viés comercial. O que, aliás, foi uma pena. Eu estava acreditando
em tudo aquilo. Cheguei a perguntar ao guia, ao ver a indicação do túmulo de
Julieta, próximo da muralha. Ele deu um sorriso e completou:
— Esqueceu que é ficção? Mas as pessoas visitam
o túmulo. Principalmente as mulheres. O túmulo está sempre cheio de flores
frescas. E mulheres rezando. Sem ao menos um corpo naquele túmulo. (NETTO,
2018, p. 113)
“Os sinos das igrejas parecem dobrar por aquele amor narrado por
Shakespeare, e ressoam do passado.” (NETTO, 2018, p. 113) Borges Netto escreve
com alguma aproximação a Ernest Hemingway, que publicou “Por quem os sinos
dobram” em 1940. Como se trata de um excelente leitor, deve saber que essa
imagem foi criada pelo ianque, motivo pelo qual a utilizou como uma homenagem e
referência literária.
“Paris é de um cinza prateado. Li isso em algum livro. Será em Paris é uma Festa, do Hemingway? Não.
Creio que não. É poético demais para Hemingway.” (NETTO, 2018, p. 130) Embora
soe como uma heresia contra o Prêmio Pulitzer e Nobel, talvez Borges Netto
esteja com a razão, pois Hemingway era muito duro e másculo nos seus contos e
romances para ser lírico. Talvez inclusive se trate de uma diferença entre o
ianque e o gravataiense.
“O dinheiro lá é o Franco Suíço. Eles convertem os euros e pagam
certinho. Não se preocupem contando. Se o troco é de um centavo eles vão lhes
dar um centavo.” (NETTO, 2018, p. 127) Aqui está falando dos suíços. Um
escritor gaúcho de anos atrás, José Fernando Miranda, certa vez recebeu um
valor elevado em cheque numa carta vinda da Suíça. É que um professor de lá
organizou uma palestra baseada num livro dele. Quando isso aconteceria no
Brasil? Para os brasileiros, como é estranho conhecer um povo honesto. Na
verdade, dizem que os uruguaios, que ficam cerca de nós, também são. Mas por
que os brasileiros não são? Por que empresários ficam ricos sonegando impostos?
Por que os deputados, governadores, senadores e presidentes desviam recursos?
Por que alguns vadios não querem trabalhar e optam por roubar ou furtar dos
outros? Por que os suíços são diferentes?
“E um bando de jovens que estão sempre com conversa em voz muito alta lá
atrás.” (NETTO, 2018, p. 132) Aristóteles já havia constatado que essa é uma
das características dos jovens: fazer barulho, isso desde a antiga Grécia. Mas
por que eles são dessa maneira? Por que estragam o sossego de todos em todos os
lugares? Uma alternativa de raciocínio é que ainda não precisam trabalhar e
pagar suas contas. Então a vida para eles é feliz, uma festa constante. Ao
iniciarem a ter compromissos, tudo vai mudar, como verificou o grego.
“Há algo horrivelmente belo nessa morte, nesse espetáculo mais magnífico
que é a coroação. Luís nunca foi tão rei como naquele dia.” (NETTO, 2018, p.
149) Aqui fala da decapitação do Rei Luiz XV. Anos atrás, numa das matérias de
jornais do centro do país, se desenvolveu uma teoria sobre a morte, ou sobre o
grotesco e o mau. Nessa passagem, Borges Netto, mesmo sem saber, justifica essa
estética.
Com relação à troca da guarda em Londres, no Palácio de Buckingham,
descreve a cerimônia e diz que, ao desempenhar as funções de soldado na
Aeronáutica em Canoas, em 1976, era tudo mais simples:
Houve a formação da guarda. Há nuvens no céu e a
manhã está amena. A pompa para uma simples troca da guarda me fez parecer um
convidado para a coroação de um rei. Como soldado, na Aeronáutica em Canoas em
1976, via a rendição da guarda apenas como um final de tarefa. Algo bem mais
simples. O corneteiro tocava a alvorada. Recebíamos um colega no posto. Depois
podíamos ir para casa. Só isso. (NETTO, 2018, p. 161)
Sintetizando, trata-se de um livro que alcançou a perfeição do gênero
para um leitor que gosta de informação e cultura. Claro que nem todos pensam
dessa maneira. Borges Netto e seus amigos realizaram uma viagem ao mesmo tempo
divertida, desgastante e culta. E o autor de Gravataí presenteou os leitores
com essas experiências. A sofisticação estética volta a aparecer em Poemas em si menor.
REFERÊNCIAS:
ARISTÓTELES. Ética. São Paulo: Ediouro, s/d.
___. De anima. Buenos Aires: Juarez
Editor, 1969.
BAUMAN, Zigmunt. Capitalismo parasitário. Rio de Janeiro:
Zahar, 2010.
HEMINGWAY, Ernest. Por quem os sinos dobram. 10. ed. RJ:
Civilização Brasileira, 1990.
MONTAIGNE, Michel. Ensaios I. São Paulo: Nova Cultural,
1996.
___. Ensaios
II. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
PORTO ALEGRE, Apolinário. O vaqueano.
Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00031a.pdf: Acesso em 25 de abril de 2018.
POEMAS EM SI MENOR
Poesia, 2016 – Livro 20
Como afirmou Dilque Diones Westphal na apresentação do livro Poemas em Si Menor, talvez o poeta
tivesse interrompido sua fonte lírica, uma vez que autografou uma coletânea com
toda a sua produção. Mas isso não se confirmou, e as musas o chamaram de novo.
O lado positivo da volta de Borges Netto à poesia é o seu amadurecimento intelectual.
Os poemas estão melhor trabalhados; as expressões, mais exatas; as imagens,
mais nobres. Neste pequeno artigo, ressaltam-se os recursos usados pelo autor e
sua temática, interpretando-a.
A poesia é dívida,
Disso eu bem sei,
Não é apenas
O néctar do paladar,
Nem a mão calejada
Do homem que rabisca
E repensa a saudade. (NETTO, 2015, p. 6)
Mas por que “a poesia é dívida”? Por que tem compromisso com as
vivências do autor? É o mais perfeito livro de memórias que se poderia
desenvolver, desnudando a alma? E é exatamente por essa razão que o homem
rabisca e repensa a saudade.
Como se aposentou e pode se dedicar à literatura, ao Clube Literário de
Gravataí e à sua editora, é compreensível o porquê de ter escrito estes versos:
“E a melodia suave do destino / Corre com doçura nas veias” (NETTO, 2015, p.
30). A poesia diz muito do poeta, é sua melhor biografia, se o leitor soube
ver.
“É tanto explicar / É tanto sentir” (NETTO, 2015, p. 6), como se
estivesse dizendo que a principal característica do poeta é a sensibilidade.
Logo, o poeta é mais do que um fingidor (para lembrar as palavras de Fernando
Pessoa). Ele sente, e chora, e ri, e é feliz, ou triste, e se emociona, e tudo
isso se transforma em versos.
A tentativa de buscar a memória, de vasculhá-la, está presente aqui:
São chaves enferrujadas,
Portas emperradas,
É o tempo que chega
Na carona daquele que sonha
E quer se expressar. (NETTO, 2015, p. 6)
Certa vez, Ruy
Carlos Ostermann perguntou, na rádio Gaúcha, quem fala da primavera, do sol?
Borges Netto resolve ingressar por esse caminho: “Canto a luz do sol / Que morre ao final do dia”
(BORGES, 2015, p. 7). Borges Netto sempre buscou inspiração na natureza e, de
certa forma, acha que só ela existe, como se fosse um Kant, que afirmou que o
belo está na fauna e na flora.
Mas também escreve sobre o amor, na maioria das vezes um relacionamento
mal resolvido, como fizeram os românticos. Parece que os poetas não se inspiram
com a felicidade, somente com a tristeza:
Pela primeira vez
Indaguei por que a escola rural
Já não te servia mais
E o que fazia de nós
Duas peças tão diferentes
Dentro do mesmo tabuleiro
Em um jogo decepcionante. (NETTO, 2015, p. 9)
Sempre a vida do campo, da agricultura, do meio rural o acompanha. Assim
diversas imagens apresentam tais posições: “Percebo que a vida / É como cacos
de cristais / Esquecidos no caminho das carretas” (BORGES, 2015, p. 10). E, ao
contrário das primeiras antologias, compõe uma metáfora por verso, ou quase.
“Com a certeza de que estamos bem / E donos de nosso destino” (BORGES,
2015, p. 10). Borges Netto sempre foi o senhor da sua vida: saiu da agricultura
e ingressou no meio empresarial, passando por todas as funções até se tornar um
executivo de sucesso. Na literatura, mercado difícil, aprimorou-se como
autodidata e criou o seu meio de divulgação, uma vez que abriu o Clube
Literário de Gravataí, a editora dele e uma gráfica. Enfim Borges Netto é o
“dono do seu rumo”, e sua poesia é a que dá os melhores indícios do que ele
sentiu e viveu.
Igual a um Mario Quintana, Borges Netto também escreve poemas
metalinguísticos, explicando o que pensa a respeito do fazer literário:
Não pense que uma ideia,
Apenas uma inspiração,
Significa grande achado
Ou ter um romance à mão.
Há que ter muito trabalho
Na busca da perfeição
Retirar palavras erradas
Que roubam o sentido da ação (NETTO, 2015, p.
11)
Em alguns poemas, tem-se a impressão de que Borges Netto alcançou a
sabedoria e se dispôs a admirar as pequenas coisas. Afinal se vê numa etapa em
que pode se afastar do corre corre cotidiano, do estresse, da pressão, das
tarefas diárias:
Gosto de observar
As folhas que se decompõe
Ao sabor do tempo
E do córrego macio.
Na suavidade da corrente,
Logo que o inverno se vai,
Vão trocando as cores
E desbotando despreocupadas. (BORGES, 2015, p.
12)
Estes Poemas em Si Menor
assinalam a aproximação de Borges Netto da poesia pura, das imagens em todos os
versos, da forte ampliação do significado. Além disso, resgata lembranças e
reflete sobre a vida. É seu melhor livro de poemas:
Isso resgata o meu passado,
Criança alegre e descalça,
Coroada de sensações,
Despreocupado com rotinas,
Imune às intempéries,
Quando brincar de adulto
Era um exercício saudável. (NETTO, 2015, p. 12)
Poesia é palavra rica em significação, como disse Pound (1990, 1995), e
Fernando Pessoa, nos seus estudos particulares de literatura, enfatizou que a
mais nobre ampliação semântica acontece sem o emprego da imagem, porém é mais
difícil de concretizar. Borges Netto conseguiu nestes versos: “Quando retorno
ao córrego / Passado tanto tempo /Já não encontro o menino que fui” (NETTO,
2015, p. 12).
“Tive saudades de mim / E de nossos adoráveis dias azuis” (NETTO, 2015,
p. 13). Uma das funções do poeta é recriar o clichê e dar uma nova roupagem a
ele. As pessoas em geral sentem falta do outro, da amada. Borges Netto, de si,
do que foi, do vigor físico da juventude. “Dias azuis”, que aparece na
sequência, retoma a tradição iniciada por Mario Quintana de adjetivar de azul
tudo o que for positivo.
Em “O Semeador” (NETTO, 2015, p. 16), Borges Netto volta a reescrever um
lugar-comum. Sempre os poetas fizeram a metáfora, dizendo que a mulher é uma
rosa. O autor de Gravataí sabe que, em literatura, precisa escapar do já-visto.
Então, escreve:
Em cada recanto esquecido
Do meu triste jardim
Semeei aromas e amores
Na esperança de encontrar
Tua presença entre as flores. (NETTO, 2015, p.
16)
Agricultor que foi, gosta de trazer a sua vida de antes para compará-la
à literatura. Talvez o seu mundo da plantação e da colheita apresente um
significado muito forte para o autor:
Preparei a terra
Que ficou macia
Como húmus natural
Para que a semente plantada
Vingasse sem fazer mal
Joguei a lanço as sementes
Que em mim sempre foi um ideal
Brotaram lindos poemas
Que colho em meu quintal
Dou de presente à amada
Que me faz feliz
Sem nada igual. (NETTO, 2015, p. 14)
Igual a José Eduardo Degrazia, parece querer pintar um quadro com
poesia, usando a imagem e descrevendo uma pintura: “Tão logo a revoada /
Pousava nos fios da rede elétrica / Para uma pauta musical” (NETTO, 2015, p. 15).
E sempre a natureza em destaque. Um estudo a ser feito sobre o autor de
Gravataí seria averiguar o papel da natureza na sua produção.
Será que, da mesma forma que Sérgio Faraco, que parou de escrever por
achar que não teria com o que contribuir, Borges Netto está em vias de pôr fim
às atividades? Então o que significa este verso: “Nada mais me resta semear”
(NETTO, 2015, p. 16)? Talvez não seja isso: recentemente viajou pela Europa
pela segunda vez e já disse que pretende escrever a respeito, ou seja, ainda
está produzindo.
A maioria das pessoas acha que a juventude é a melhor época da vida,
pois estão belos e em pleno vigor e podem curtir as festas e as mulheres.
Borges Netto pensa igual: “Devolva, destino injusto, /Os felizes dias / De
minha mocidade” (NETTO, 2015, p. 17). Mas também há os que refletem de outra
forma e aproveitam melhor uma época mais avançada. Acima dos 40, a pessoa
amadurece, se estabiliza nas finanças e na sabedoria.
Nesta seleta, Borges Netto reflete sobre um tema novo – a morte, mas
supera Mario Quintana nesse quesito. O velho mestre citava a expressão numa
linguagem denotativa, ou seja, não poética. O gravataiense apresenta uma metáfora por verso:
Não é possível e natural
Prolongar a existência.
Chegamos ao mundo
Com data de validade.
Façamos o que temos que fazer
Com a urgência
Que nos impõe o calendário.
O resto é cinza
Soprada impiedosamente
Aos confins da existência. (NETTO, 2015, p. 18)
Outra novidade deste livro de uma produção literária madura é a reflexão
filosófica. Em tese, o filosofar não tem ligação com a poesia, uma vez que a
primeira persegue o conceito pela argumentação; a segunda, a síntese pela
metáfora. São diferentes. Mas T.S. Eliot tentou uni-las, da mesma forma como
Jaime Paviani e Borges Netto:
Diante das vitrines
E dos espelhos,
Não consigo me ver.
Então fujo das indagações
Que me perseguem
Há tanto tempo. (NETTO, 2015, p. 19)
“O passado foi gotejando / Até se transformar / Numa imensidão de água”
(NETTO, 2015, p. 20). É uma forma poética de refletir sobre a idade, sobre a
vida. O poeta é aquele que diz o que todo mundo pensa, mas duma forma que só
ele descobriu. A poesia tem de ser original, fugir do clichê, do lugar comum,
do já-visto. E Borges Netto, dessa forma, vai fixando o seu nome no Panteon dos
Literatos, mesmo que paralelamente, como fez Rossyr Berny, dono da editora
Alcance.
Sobre o poema “Versos ao Pai”, reflete a respeito dos motivos por que
escreveu sobre o progenitor. Qualquer pessoa diria alguns clichês, como
carinho, valores. Ele não; saiu com uma frase tão enigmática, quanto poética,
que pode significar muita coisa, como deve ser a poesia: “Direi apenas que com ele
/ Aprendi sobre o silêncio /E o aroma do vento” (NETTO, 2015, p. 29).
Existe um senso comum que leva milhares de aposentados a viverem no
litoral: de que a felicidade está ali, em meio às ondas e à areia do mar.
Depois de ter se retirado das lides como executivo de empresa, Borges Netto,
que há anos tem o ofício de escritor, resolveu testar para ver se é verdade:
“Percebeu que era feliz / E que ao caminhar pela areia / Buscava mais
felicidade” (NETTO, 2015, p. 22).
Igual a outros poetas, também mostra compaixão pelos desassistidos e
trabalhadores, que não conseguem aproveitar as belezas do litoral por causa da
luta diária pelo sustento:
Por um instante,
Imaginou entristecido
Que os pescadores não eram felizes,
Pois a fadiga sempre era grande
Ao final do cansativo dia. (NETTO, 2015, p. 22)
Não se sabe o que o autor pensa da literatura gaudéria, dos CTGs, dos
trovadores, mas Borges Netto não cria, em geral, metáforas camponeiras. Nesta
passagem, meio que tangencia um Jayme Caetano Braum ou Apparício Silva Rillo:
Que os verdadeiros poemas
Não podem ficar guardados
À espera de amigos.
Devem ser escritos
E distribuídos a lanço. (NETTO, 2015, p. 25)
Às vezes, não se sabe de onde surge um relacionamento. Duas pessoas começam
a conversar, e a coisa vai se alongando, se aprofundando e termina num motel.
Com estes versos, o escritor parece falar disso: “Pelo amor que brotou / Entre
as nuvens / Sopradas no firmamento” (NETTO, 2015, p. 27). Enfim, o poeta fala
da vida de todos.
Era natural que começasse a escrever sobre o envelhecimento e sobre a
vida. Afinal ele já está nos 60: “Não há como escapar / Da água e da idade que
avança” (NETTO, 2015, p. 31).
No poema “Olhar Singelo”, faz um convite inusitado: pede que a amada visite
o seu espírito, a sua vida, analisando o seu olhar: “Te dou a chave / Dos meus
olhos /E o passado / Por eles vivido” (NETTO, 2015, p. 33).
Num poema seguinte, filosofa sobre a vida, porém faz o seguinte
comentário: “E o suor é nossa missão” (NETTO, 2015, p. 36). Será que ele é um
dos que acreditam que estamos na vida para sofrer? Talvez por isso tenha se
aposentado na primeira oportunidade e passado a se dedicar à literatura? Porque
sua essência está na palavra. Mais do que isso: sua vida é dar o sangue para
conseguir o pão e tem como destino a literatura: “sangue, poema e pão” (NETTO,
2015, p. 36).
A humildade é bonita em qualquer circunstância. É simpático ver Armindo
Trevisan jamais se elogiar. Borges Netto construiu a sua carreira longe dos
holofotes da mídia e talvez por isso se veja como um “poeta de água doce”. “Não
me importo / Ser poeta de água doce /Ou qualquer desprezível sinônimo / Criado
com pouca inspiração” (NETTO, 2015, p. 37). Schopenhauer (1991) diz que o homem
sábio deve-se manter calmo e tranquilo na sua condição, sem se alterar ou se
sentir menosprezado. Paulo Coelho sempre teve o apoio da mídia e não aprendeu a
escrever.
Talvez aconteça com grande parte das pessoas: quando jovens, nutrem
sonhos mirabolantes, gigantescos, porém, aos poucos, tudo vai diminuindo de
proporção, adequando-se ao correr da vida. É mais ou menos o que Borges Netto diz nesta passagem:
Da infância perdida
E dos sonhos encantados
Restam nada mais
Do que uma janela aberta
Voltada para o anoitecer. (NETTO, 2015, p. 39)
Algumas pessoas se dedicam a uma arte, a um esporte, às línguas, ao lado
intelectual e não compreendem o porquê de os outros não fazerem o mesmo. Se é
tão bom para alguns, por que não seria para os demais? Enquanto alguns amam a
literatura, caso de Borges Netto, por exemplo, outros gastam a vida nas redes
sociais; enquanto alguns seguem o caminho do karatê, junto de uma vida
saudável, outros não praticam nenhum esporte, bebem refrigerante ou cerveja,
comem doces e frituras. Enquanto alguns exercitam o cérebro com várias línguas
e diversos assuntos, outros levam a escola na malandragem e escapam dos livros
o mais rápido que podem. Atendo-se às Letras, Borges Netto não compreende:
O que me assusta, meu amor,
Não é a violência das ruas
Mas a ausência de versos
A correr por tuas veias
E nas veias da população. (NETTO, 2015, p. 42)
Enfim, neste Poemas em Si Menor,
Borges Netto ampliou todas as qualidades que já havia mostrado nas primeiras
antologias. Expandiu o número de figuras de linguagem, aproximando-se da poesia
pura; inspirou-se mais uma vez na natureza e convidou a amada para uma longa
conversa, cheia de imagens. Alguns homens não amam uma fêmea, mas o gênero
feminino como um todo. E fica bem falar com Ela, sem citar nomes, porque,
assim, podem ser todas as mulheres. Uma vez Paulo Hecker Filho escreveu uma
antologia denominada Para todas as
mulheres, com perdão das que faltam. E Vinícius de Moraes amava todas.
Borges Netto é um poeta que ama o gênero feminino e a literatura. Uma boneca encanta é outra prova disso,
apesar do sofrimento que traz.
EU TINHA UMA BONECA ENCANTADA
Romance, 2017 – Livro 22
Na literatura, nas artes, nas organizações empresariais, as pessoas se
dão bem quando acham um caminho. Uma empresa de consultoria de Porto Alegre
recém encontrou o seu: atua em cartórios de todo o Brasil. Antônio Hohlfeldt
faz crítica literária sobre a obra de escritores, e Borges Netto, pelo menos em
dois livros (e agora num terceiro), descobriu personagens reais para escrever.
No Abismo de Rosas (2012), falou de
um mecânico ao mesmo tempo músico e boêmio. Em Max, o Príncipe Guerreiro(2007), abordou um rapaz deficiente e a
luta de sua mãe para lhe dar uma vida melhor. Em Eu Tinha Uma Boneca Eencantada,
escreveu sobre Maria Elocir Cardoso Veigas. É uma história triste, de muito
sofrimento e verdadeira.
Na literatura, deve-se escrever sobre o que se gosta e não para agredir
o outro, até porque a sociedade já está repleta de fatos ruins: “Evitei cenas
tempestuosas, que ofendem e torturam” (NETTO, 2017, p. 7). Os jornais já andam
cheios de fofocas; não há motivo de um escritor investir o seu tempo para
escrever sobre outras situações detestáveis: “Trouxe apenas aquelas informações
que Elocir pretendia, não aumentando ou dando substantivos que fugissem ao real
peso daquilo que ela queria transmitir” (NETTO, 2017, p. 7).
Algumas pessoas duvidam da existência de Deus quando veem uma catástrofe
acontecer consigo ou com outro cidadão, mas os religiosos, ao contrário,
fortalecem ainda mais sua crença nessas ocasiões e não passa por suas mentes
que Deus, o todo poderoso e infinitamente misericordioso, tenha alguma relação
com isso: “Tinha certeza que aquilo não era ação de Deus” (NETTO, 2017, p. 13).
A personagem se referia a um temporal que destruiu a casa onde ela e seus
familiares, muito pobres, moravam. “A mãe se ajoelhou, fechou os olhos e fez
uma oração silenciosa para se acalmar.” (NETTO, 2017, p. 15)
Cyro Martins escreveu sobre os retirantes do campo, no interior do Rio
Grande do Sul, a se deslocarem para a capital. Inúmeros escritores do Nordeste,
Raquel de Queirós e Graciliano Ramos entre eles, falaram sobre os conterrâneos
que fugiram da seca. É possível que esse romance seja o primeiro a discorrer
sobre a busca de uma vida nova após uma enchente, e aí se encontra sua inovação
para a literatura do RS e quem sabe do Brasil.
É muito comum as pessoas terem problemas com os progenitores. Há um sem
número de casos. Kafka, como se sabe, tinha péssimas relações com o pai, devido
à rudeza e ao rigor com que o tratava. Nessa história, a personagem de sete
anos também encontra problemas no pai, que certa vez arremessou um pau no rosto
dela, o que a machucou e a fez sangrar muito, apenas porque o estava olhando
trabalhar.
Um dia levantou cedo para recolher lenha. Estava
com os braços cheios de galhos e gravetos. Fiquei olhando, com muito orgulho,
sua busca pelos gravetos próximo do mato. Arrumava os galhos numa pilha
caprichada nos fundos da casa. Arrastou um longo galho e depois sentou numa
pedra. Quando me viu observando sua atividade,
ficou enfurecido. Não gostou de me ver ali e mandou que entrasse. Estava num
daqueles dias em que o melhor é não acordar. Como não lhe obedeci, ele arremessou um pedaço de pau que me acertou na
cabeça. Bem na sobrancelha. Foi um corte profundo e brotou sangue em
abundância. Chorei muito e não consegui estancar o sangue. Minha mãe também
tentou e nada conseguiu. Fui me esconder com minha boneca e chorar a dor que
sentia. Todo o orgulho que sentia dele desmoronou em segundos. (NETTO, 2017, p.
18)
Às vezes, quando se espera o mal das pessoas, sempre que algumas têm uma
atitude fraterna, isso impressiona. O pai havia arremessado um pau no rosto da
menina, que acabou tendo um corte no supercílio, do qual jorrou sangue. A
família fugiu da chuva e encontrou uma casa abandonada, mas que pertencia a
índios da região. Invadiram-na. Alguns dias depois, um grupo de nativos se
aproximou, e um deles fez uma pasta de plantas e pôs na fronte da menina: “O
sangramento imediatamente parou. Ainda hoje sinto gratidão pelo que fez. Um
estranho teve a compaixão, espírito de caridade e iniciativa que meus pais não
tiveram.” (NETTO, 2017, p. 20)
A família conseguiu pegar o trem a Porto Alegre, mas o pai não tinha
dinheiro, e a mãe não havia trazido nada para eles comerem. “A fome já nos
apertava o estômago outra vez.” (NETTO, 2017, p. 21) Talvez só quem já teve
essa experiência possa entender a situação: passar fome é horrível, ainda mais
nos primeiros momentos. Depois, repetindo o fato, o corpo se ajusta, e o
sacrifício é um pouco menor. Mas a personagem era uma criança de sete anos.
Talvez a experiência de receber afago do pai, da mãe ou da avó seja algo
que importe no decorrer da vida de uma pessoa. Os seres humanos são diferentes:
alguns sofrem por que não tiveram isso; outros nem percebem, até porque não
sabem que existe. “Não me lembro de ter recebido um colo, um carinho ou um
sorriso dela” (NETTO, 2017, p. 23), diz a menina de sete anos, referindo-se à
avó, mas até esse momento da novela não se percebe se a pequena recebeu esse
tipo de carinho dos progenitores. “Não me lembro dela nos pegando no colo e
dizendo palavras doces como dizem as mães.” (NETTO, 2017, p. 24) Aqui se refere
à mãe.
Heráclito afirmou que o bem é tão importante quanto o mal, porque só se
percebe que uma situação é bacana se comparada à outra. Também se diz, na área
de Geografia, que um penhasco profundo está exatamente na sequência de montanha
muito alta. Assim é natural que a personagem tenha a sensação de que os
primeiros dias com a avó foram maravilhosos, uma vez que
dispunham de alimentos de forma regular.
Passamos então a nos alimentar com mais
regularidade. Foram dias maravilhosos com alimentos e descobertas pelo quintal.
Tudo era novidade. A casa era muito pequena para abrigar tanta gente e vivíamos
amontoados. Mas isso não impedia que tivéssemos dias felizes na companhia
daquela avó severa, porém compreensiva. Parecia saber muito mais da vida do que
o pai, até então exemplo máximo do nosso modo de viver. Foram dias
inesquecíveis. Na hora exata tínhamos o alimento. Depois íamos ao quintal para
brincar. (NETO, 2017, p. 23)
“Mas ele sempre tinha um biscate ocasional. E assim conseguia dinheiro
para beber. Não eram raras as vezes em que chegava tarde da noite em casa. E
bêbado.” (NETO, 2017, p. 25) A fraqueza masculina em geral desemboca no álcool.
Milhares de homens se comportam assim. A maioria das pessoas não acredita no
estudo, não se importa se mal sabem ler e escrever, apesar de que, no Brasil,
sempre houve projetos gratuitos que proporcionassem ensino às pessoas. Dessa
forma, não tem profissão, porque nada sabem fazer, e terminam encontrando
dificuldade, nos momentos de crise, para sustentar a família. Esse parece o
caso do pai da moça.
Como essa obra é baseada em fatos reais, impressiona saber que o pai
mandava os filhos dormirem na rua, quando estava muito brabo: “Quando ficava
muito furioso, botava a gente para dormir na
rua. Dormíamos encolhidos na porta pelo lado de fora da casa.” (NETTO, 2017, p.
25) Isso é de uma maldade indescritível, ainda mais se tratando de suas
crianças. O autor está correto em apenas descrever os fatos jornalisticamente,
mas um crítico de literatura deve, por obrigação, emitir seu parecer a
respeito.
A avó da menina, que dera prazo para que eles saíssem de casa, não se
importou de mandá-los para a rua, mesmo sem ter onde dormir. Essa é mais uma
ruindade impressionante: “Então o pai, finalmente, se deu por derrotado.
Juntamos as coisas e fomos passar a noite debaixo de uma figueira.” (NETTO,
2017, p. 26)
Edgar Allan Poe afirmava que uma obra de literatura deveria despertar
uma sensação no leitor, no que I. A. Richards estava de acordo. Eu Tinha Uma Boneca Encantada, de Borges Netto, descreve todos os passos da
pobreza e da maldade humana e desperta no leitor uma forte sensação. Em Max, o príncipe guerreiro (2007), também
conseguiu gerar uma forte emoção no leitor, porém nesse último caso era de
pena.
Provando, mais uma vez, que a teoria oriental do ying e yang faz
sentido, ou seja, que em todo o mal há o bem e em todo o bem há o mal, o
malvado pai da personagem também tinha momentos de heroísmo e preocupação pelo
semelhante. Quando a mãe foi buscar água numa bica perto de um touro, e o
animal atacou a mulher grávida, o pai foi defendê-la:
e correu para ajudá-la. Pegou uma toalha, saltou
a cerca e seguiu para a frente do touro. Quando o animal percebeu o pai tão
perto, transferiu sua fúria para ele e preferiu atacá-lo. E abandonou a
perseguição à mãe. O pai foi ágil e saltou para o lado, sacodindo o pano e
correndo, afastando o touro. Durante muito tempo,
a mãe voltou na biquinha com receio de novamente ser atacada. E a cena do pai
correndo em socorro da mãe e enfrentando o touro jamais foi esquecida. Era o
herói que morava nele despertando outra vez. (NETTO, 2017, p. 29)
Um detalhe que facilitou o trabalho narrativo de Borges Netto é que
tanto o autor como a personagem abordada tiveram experiências na agricultura.
Assim, o novelista de Gravataí consegue escrever sem problemas com
verossimilhança.
O pai queria que a moça, agora com nove anos, trabalhasse. De acordo com
a Lei 8.069, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e a Constituição
Federal (artigo 7, inciso XXXIII), as crianças menores de dezesseis anos não
podem exercer nenhum tipo de trabalho. A menina em questão iria desempenhar
serviço remunerado numa casa de família e contava somente nove anos na época.
Está certo que eram outros tempos:
Quando cheguei a casa do senhor João eles me
informaram que eu teria também que estudar. Afinal era uma notícia boa entre
tantas mágoas. Então começou uma nova rotina. Todo o dia acordava às cinco
horas da manhã para ajudar na ordenha. Depois da ordenha soltava as vacas no
campo. Em seguida ajudava a atrelar o cavalo na carroça e seguia com dona
Lucila para entregar o leite para um caminhão que esperava na Parada 68. Quando
voltávamos, era a hora de limpar a casa e lavar
a roupa. Para lavar a roupa, íamos até perto do
rio. Já a escola ficava na parada 68, perto de onde o caminhão recolhia o
leite. Eu também cuidava dos três filhos do senhor João e da dona Lucila, o
Sérgio, o Marcos e a Sílvia. Um deles quatro anos mais velho que eu, com treze
anos. (NETTO, 2017, p. 32)
“O pai disse que o valor que recebia do senhor João era para comprar
comida para os meus irmãos.” (NETTO, 2017, p. 33) Assim, pelo que se nota,
cabia à irmã de nove anos o sustento dos demais, enquanto o progenitor gastava
parte do que recebia com álcool, uma vez que voltou a retornar todos os dias
bêbado para casa.
Há pais ou mães, talvez a maioria, que não usam o diálogo com os filhos,
não se importam em fazer acordos, querem apenas mandar e obrigá-los a
realizarem o que desejam. A isso chamam de criação. Quem sabe a maioria dos
progenitores acredita que tal comportamento se chama dar limites, e que as
crianças desejam isso. Era mais ou menos o que pensava o pai da personagem:
— Eu não quero — respondi.
— Você não tem que querer ou não querer. Vai
fazer o curso para prenda, sim. Já está decidido — esbravejou ele. E não tive
argumentos nem disposição para insistir na negativa. Podia muito bem ficar
agitado e me espancar. (NETTO, 2017, p. 42)
O máximo de maldade que um pai pode fazer com uma filha é abusar
sexualmente dela. É espantoso como um pai consegue fazer isso na própria filha.
Mas nem a mãe ou a avó acreditaram:
— Meu pai não me deixa dormir sossegada. Ele
mexe comigo quando estou dormindo — Disse de uma só vez. Minha avó ficou me
olhando. Não queria acreditar no que ouvia. Revelar este segredo de nossa casa
me trouxe certo alívio momentâneo. Revelei para não ter que voltar. Precisava
apenas convencê-la da verdade por tantos anos escondida. Falei porque não
queria ser afastada do Abel.
— O que você disse que ele faz? — Ela queria ter
certeza. Ouvir outra vez. Tinha funcionado. Aquele segredo guardado há tanto,
desde meus oito anos, só compartilhado com a mãe, agora boiava na superfície
como um barco sem rumo num oceano agitado.
— Ele mexe comigo... — Me encolhi. Revelar o que
acontecia em casa depois que ia dormir agora não parecia uma boa ideia. A avó
não reagiu como pensei que fosse reagir.
— Mexe com você como mexe com sua mãe? Não está
querendo dizer o que eu estou pensando, está? — A avó estava confusa. Não sabia
se isso era bom.
— Sim. É exatamente isso. Sempre que vou dormir
ele aparece na minha cama e mexe comigo — Pronto. Tinha repetido. Não tinha
mais como voltar atrás. Quantos anos guardava esse segredo que a mãe se negava
a acreditar. Agora que consegui falar parecia que um peso saía das minhas
costas.
— Você está inventando isso — me acusou a avó. —
Você mesmo mexe com você. É o que acontece na sua idade. E tem este tal de
Abel...
— Vovó, acredite em mim. Isso nunca aconteceu
com o Abel. É com o pai que acontece.
— Não acredito e não aceito que você fale mal de
seu pai. Ele é meu filho. Sua mãe teria notado qualquer coisa que estivesse
acontecendo fora das leis de Deus.
— Mamãe também não acredita em mim.
(NETTO, 2017, p. 45)
É tão bonito quando as crianças mostram ingenuidade com relação à vida.
Parece que a influência ruim das outras pessoas não as afetou, porém, aos
poucos, os meninos e meninas vão se tornando amargos e maldosos como os demais
ou tendo experiências negativas que os marcam para sempre. “O anjo que habitava
minha alma alçou voo para não mais voltar” (NETTO, 2017, p. 52), disse a
personagem, quando o pai entrou no seu quarto, chaveou a porta, cobriu sua boca
e passou a mão pelo seu corpo de moça jovem.
Não bastava ser abusada pelo pai, a moça também foi estuprada pelo
namorado (NETTO, 2017, p. 55-56). É incrível como alguns homens batem nas
mulheres, fazem violência verbal e psicológica, assédio sexual, abuso sexual,
estupro, aproveitando-se da fragilidade do sexo feminino. E a maioria não crê
na história da moça violentada. No caso da personagem, tomou uma surra violenta
da mãe, por ter contado mais uma vez que o pai mexeu com ela, e da avó, por
aparecer em casa com as roupas rasgadas pelo namorado.
Na passagem do namorado, Borges Netto usa uma técnica de best-seller. Primeiro, dá a impressão de
que o rapaz era perfeito para a moça, uma vez que enfrentou a fúria do pai dela
e parecia a pessoa mais calma e equilibrada do mundo. Logo a seguir, o moço
droga a garota e abusa sexualmente dela.
A personagem da história, para fugir da tara do pai, mentiu para a avó
que se comportaria, mesmo que isso não fizesse sentido, e a anciã a aceitou:
Fui passear na minha avó. Queria que ela ficasse
comigo. Já não lembrava a grande surra que levei pelo episódio com o Abel. Não
suportava mais o pai babando sobre mim num ritual que não conseguia
compreender. Muito melhor a surra impiedosa que a avó podia me submeter. Disse
estar arrependida daquele episódio e que me comportaria. Bastava um novo
trabalho nas proximidades e viria para ajudá-la no cuidado com a casa. (NETTO,
2017, p. 58)
A vida da moça era um espetáculo de horrores. Quando a mãe ficou doente,
o pai quis desposá-la como mulher. Antes disso, na casa da avó, o tio, irmão do
pai, também tentou estuprá-la e, como ela não aceitou, de vingança, destruiu o
único bem que ela possuía: as suas bonecas. Sabendo que se trata de uma
história verídica, é difícil imaginar como a garota sobreviveu.
A moça arranjou um namorado que tocava num bar e terminou engravidando.
Em vez de ajudá-la, Paulo lhe pediu para abortar, o que significa cometer
assassinato com uma pessoa que ainda nem nasceu, e se propôs a fugir para São
Paulo. Os homens normais pensam apenas no sexo feminino. Alguns deles são
aberrações, como o pai, o tio e o ex-namorado da moça. Outros se acovardam e
abandonam as mulheres e os filhos, somente para se livrar das
responsabilidades.
Quando foi visitar sua família para dizer que estava grávida aos 16
anos, seu pai a espancou violentamente com o cabo de um rifle. Ela contou para
a parteira que tinha medo de o pai estrangular a neta. Então a parteira chamou
uma ambulância e se dirigiram à Santa Casa, em Porto Alegre. A filha da moça
terminou nascendo em Cachoeirinha. No hospital, ninguém a visitou, e ela teve
de ficar alguns dias se recuperando e sair de lá a pé, com a mesma roupa que
estava. Na vida da personagem, o mal se via em todos os lados. O festival de
maldades não chegava ao fim: “— Para morar aqui, você tem que se livrar deste
bebê. É ordem do teu pai. // — Eu não vou dar o bebê. É minha filha. Como pode
dizer isso? — E desabei a chorar. Chorei muito diante dela.” (NETTO, 2017, p.
71)
Lendo o livro, tem-se a impressão de que todas as pessoas são ruins, o
que talvez seja uma parcela da verdade. O pai Chico saiu para conseguir um
carro, a fim de levar Maria, que estava para ter outro filho, mas simplesmente
sumiu e não foi ao hospital. Esse trabalho ficou para o vizinho Fernando. Chico
também não a visitou, nem a buscou. Chegando a sua residência, a mãe de Chico disse
que não queria ver o pequeno, porque não gostava de meninos, só de meninas.
(NETTO, 2017, p. 92) Portanto, Maria se envolvera com mais duas pessoas ruins.
Pelo menos o pai, quando teve enfisema pulmonar, chamou-a no hospital e
pediu perdão pelas maldades que fizera ao longo da vida. Horas depois ele
morreu. Também morreu o filho dela, preso muitas vezes e assassinado. É mais um
item a acrescentar na sua vida de desgraças.
Perder o pai, a mãe e irmãos como perdi não é
tão triste quanto perder um filho. E a
dor, quando penso nele, não me abandona. Ele deixou uma linda filha que a
esposa cuida com muita dedicação. Morreu aos vinte e nove anos. Agora resta só
a saudade. (NETTO, 2017, p. 114)
“Na vida as coisas acontecem não porque a gente quer. É porque Deus
decide que será assim.” (NETTO, 2017, p. 114) Mesmo com todo o sofrimento na
vida dela, a mulher ainda acredita em Deus. Outra pessoa com menor fé talvez
depositasse no ser supremo toda a sua revolta.
“E me surpreendo ainda estar viva e permanecer lutando, acreditando em
Deus e sinalizando aos filhos o caminho certo a seguir.” (NETTO, 2017, p. 120)
É surpreendente a personagem fazer uma revelação dessas depois da vida que
teve.
Resumindo, a novela é um maremoto de desgraças. Surpreende uma pessoa ter
aguentado uma vida assim. Coube a Borges Netto registrar os fatos de forma
neutra, sem pender para nenhum dos lados, embora, na verdade, só houvesse o
lado da vítima e o dos algozes.
Com o passar dos anos, o autor, que já escrevia poemas, contos, crônicas
e romances, enveredou para a memorialística e para as viagens. Agora talvez só
precise escrever peças de teatro, até porque existem grupos em Gravataí e sua
neta faz teatro, e publicar o seu manual para jovens escritores. E talvez assim
alcance o que raros conseguiram: ser completo como um Machado de Assis.
Estes ensaios de análise literária formam a segunda coletânea feita
sobre Borges Netto, mas já está sendo organizada uma terceira, que
provavelmente levará uma década para ficar pronta.
A seguir, aparece Natureza da Palavra em Borges Netto, livro de estudos
sobre os seus primeiros 17 livros. Aqui esses ensaios estão completamente
retrabalhados. Ao contrário do que fazia Machado de Assis, que republicava um
livro da mesma forma como saiu da primeira vez, a ideia é evoluir e reescrever,
como um Dalton Trevisan, um Sergio Faraco e o próprio Borges Netto.
Natureza
da Palavra
em
Borges Netto
(Anexo de O Anjo da Asa Partida)
INTRODUÇÃO
Produziu-se este livro de análise de literatura da seguinte forma. Cada
uma das 17 obras de Borges Netto serviu de base para reflexões técnicas sobre
criação literária. Estudaram-se as figuras de linguagem dos poemas e fizeram-se
interpretações segundo a hermenêutica de Gadamer, a fim de constatar, dentro da
sociologia da literatura, as questões relevantes que mereceram a atenção do
autor. A principal delas é a busca da identidade metafísica do que é ser homem
no século XX, início do XXI, num estado ao sul do Brasil.
Esmiuçaram-se os recursos literários mais importantes, os flash backs, a utilização da primeira
pessoa, da terceira, a memória, a mudança de tempo narrativo. Identificaram-se
o parentesco literário e as influências do autor, comparando-o aos melhores
escritores do Brasil e do mundo, mas não no sentido de colocá-lo em igualdade
de condições, mas apenas para facilitar a reflexão teórica.
Borges Netto é um escritor inteiro, como um José Eduardo Degrazia ou
Machado de Assis, não porque tenham a mesma qualidade, mas porque atuaram em
muitas áreas. Borges Netto viajou pela poesia, crônica, conto e romance. Possui
tanto a força da imagem, o que é importante na poesia, como o talento para
contar. A ordem dos capítulos é a seguinte: cada seção abriga um gênero
literário, e os livros aparecem do mais recente em direção ao primeiro.
Além disso, com o intuito de aclarar alguns dados, fez-se uma longa entrevista com ele. Assim que aparecia uma curiosidade a respeito das influências literárias, do modo como ele desenvolveu uma ideia ou utilizou um recurso de estilo, da forma como trabalhou uma temática, formulou-se uma pergunta que se enviou por e-mail. Foram entrevistas contínuas e virtuais.
NO ABISMO DE ROSAS
Romance, 2012 – Livro 18
No Abismo de Rosas, o próprio nome do romance é um enigma que será
desvendado no final. A história começa num acidente automobilístico. A
personagem está semiacordada, apenas sonha ou mesmo relembra trechos de sua
vida. É o estilo flash back
desenvolvido por Aldous Huxley, mas apresentado no território nacional por
Erico Verissimo. A estilística é ágil, no modelo de Ernest Hemingway, uma vez
que as frases pequenas e a sua concatenação movimentam e facilitam a leitura.
Outra característica é a elipse de algumas frases que não necessitam do
verbo para serem captadas: “A sirene da ambulância cada vez mais próxima”
(NETTO, 2012, p. 9). No entanto, o autor evita a utilização exagerada desse
recurso, ao contrário de José Fernando Miranda e Ricardo Ramos.
Profundamente humano, como em The
Old Man and the Sea, de Hemingway, Borges Netto conta a história de
mecânico, músico, boêmio e mulherengo na hora do acidente com 78 anos, um homem
do dia a dia, com vivências comuns. Trata-se de uma pessoa que gostava de
conviver em associações, tanto que integrou os cursos de noivos, a igreja e o
Clube Literário de Gravataí, nos quais fez muitos amigos. A obra é uma espécie
de biografia autorizada, mas sem o compromisso de relatar a verdade dos fatos.
O autor inventou quando sentiu a necessidade de preencher o que faltava.
Geralmente os biógrafos ou jornalistas se interessam por grandes
personalidades, mas não os escritores, como o Nobel norte-americano (referido
acima), que abordou a história de um velho pescador que passou dias em alto-mar
e todo o sofrimento dessa aventura, amparada na solidão. Pedro Paulino enfrenta
a morte e talvez necessite relembrar sua amante, as prostitutas, as farras e a
vida feliz de macho que teve.
Como a arte também é feita para emocionar, a narrativa desperta lágrimas
pelo menos em duas situações: quando aborda a infância da personagem e quando
fala da dedicação da esposa. O menino vai a um quartel receber presentes de
Natal, mas termina apenas com uma calça de brim, o que o deixa triste, ele
desejava um brinquedo. Em casa, troca a roupa por um patinete. Pedrinho tinha
apenas um sapo cangado com uma caixa de fósforos (NETTO, 2012, p. 36-37). É
difícil descrever o amor e a preocupação feminina sem escorregar na pieguice.
Mas o autor consegue. A mulher prepara sua comida, suas coisas, sua roupa,
enquanto ele vai de farra à noite e fica na casa da amante.
Pedro, quando guri, ficava no Lar das Meninas e era apanhado à noite
pela mãe. Como ela não o buscou uma vez, o menino dormiu abraçado numa das
pequenas, a mais semelhante à progenitora. A situação se repetiu por um ano ou
dois. Assim uma menina de 11 anos passou a colocar Pedro entre suas pernas,
visto que lhe dava uma sensação gostosa. Outras quiseram ter a mesma
experiência. O texto registra a descoberta da sensualidade das meninas, sem
entrar nos possíveis traumas que muitas devem ter sentido, até porque se
encontravam num orfanato. E o autor fez bem. A ideia do romance não era
discutir essas questões, mas a vida de Pedro Paulino. Literatura, ainda mais
uma novela, precisa de foco.
O avô de Pedrinho é caracterizado como violento. Espancava as filhas e
não aceitava os namorados delas. Permitia que todos passagem necessidades. O
narrador acha que o normal das famílias é que desejassem conhecer as intenções
dos pretendentes, mas talvez essa atitude seja praticada por alguns pais, não
por todos, nem pela maioria.
As questões sociais funcionam como base do texto. O tio-menino, Luís, de
17 anos, trabalhava indo ao mercado, comprando refugo e vendendo a clientes
fixos. Uma vez não explicou o porquê de ter voltado com pouco dinheiro e levou
uma surra tremenda, que o deixou fraco e terminou conduzindo-o à morte (NETTO,
2012, p. 38).
Uma das glórias de Pedro rapaz era ter pai e mãe conhecidos. Mas, numa
festa de parentes, brigou com uma tia, chamou-a de puta, e esta destruiu um dos
seus orgulhos, pois lhe revelou que ele não era filho do Juvêncio (NETTO, 2012,
p. 39). O menino também foi tirado da escola na quinta série para trabalhar, o
que fez com que sua infância fosse ainda mais difícil (NETTO, 2012, p. 41).
Como Pedro estava acostumado a receber os policiais em sua habitação
para prender o avô, a família desestruturada o influenciou negativamente em
vários sentidos e gerou algum sentimento ruim contra a polícia. Duas vezes, teve
problemas com os homens de farda, uma quando tentou afixar dizeres sobre
comunismo no cavalo do General Osório e outra por andar em alta velocidade.
Quanto à primeira, era natural que se voltasse a favor do socialismo numa época
de ditadura, até porque não gostava de militares, visto que torturavam
inocentes e matavam em torno de cem pessoas por ano. Mas a narrativa não chega
a se aprofundar nessas questões. O discurso afirma que existe uma sala de
espancamento de presos (NETTO, 2012, p. 70-77), e um dos policiais deixa
Paulino sem comer, manda buscar um sanduíche e se alimenta na frente dele, só
para humilhá-lo. Foi a agressividade que sofreu.
Enfim, embora Pedro Paulino tivesse mãe e pai, vivia em meio à pobreza;
seu avô batia em todos; uma das tias se sustentava exercendo a função de
prostituta, e as demais tinham vários filhos sem saber quem eram os pais. E o
que ele mais gostava – brinquedos – também não os possuía. Uma existência
difícil. Esse texto poderia definir o seu autor como preocupado com problemas
sociais. No entanto sua temática se modifica com o decorrer dos anos dedicados
à literatura.
A obra se abre amplamente a reflexões da sociologia da literatura,
defendida no Brasil por Antônio Cândido, Roberto Schwarz e Luís Augusto Fisher,
entre outros. Uma questão importante é o adultério promovido pelos machos.
Metade dos homens de hoje em dia, segundo pesquisas informais feitas em sala de
aula com centenas e até milhares de estudantes universitários, classificam-se
como possíveis mulherengos. Nos anos de 1980, a atitude masculina era bem
diversa. Talvez 100% dos machos heterossexuais tinham amantes. Pedro Paulino se
casou e dispunha de mulher compreensiva e dedicada, mas nutria paixão por moça
que conheceu numa festa.
Os diálogos oferecem dinamicidade ao texto. O leitor vivencia-os como se
estivessem acontecendo na hora da leitura. Pela utilização dessa técnica,
percebe-se que o autor poderia escrever peças de teatro ou até roteiros de
televisão. Uma das características do diálogo bem escrito é quando oferece
frases verossímeis que representem as pessoas da região. Em Gravataí, fala-se
um português coloquial com algumas peculiaridades e poucos erros de gramática,
e é isso que se vê nos diálogos desse romance.
O ROMANCE DE GRAVATAÍ
Romance, 2009 – Livro 16
A abertura do livro expõe a carta de um artista plástico ao escritor que
pretende desenvolver um romance a respeito dele, pintor de quadros, como
personagem principal (NETTO, 2009, p. 2). A correspondência funciona como
espécie de Lead jornalístico, ou
seja, dá os elementos essenciais do que o leitor verá a seguir; direcionará a
leitura, portanto.
Em vários livros, Borges Netto explorou alguma coisa das artes
plásticas. Nessa obra, porém, ingressa profundamente na vida de um artista,
quem sabe para estudar, de forma inconsciente, as aproximações entre a
literatura e esse gênero de arte.
Como acontece em vários dos seus livros, Borges Netto se preocupa com a
divulgação de informações a respeito de Gravataí. Na página 6, desenvolve dois
parágrafos a respeito de uma tradição da cidade: as paradas de ônibus, uma vez
que as pessoas revelam seus endereços por meio delas, ao contrário do que
ocorre em Porto Alegre:
A longa avenida Dorival de Oliveira obriga que
os bairros sejam localizados através do número das paradas de ônibus. Poeta
mora na parada 79, próximo do Centro, enquanto Nardini mora na parada 61,
adiante do Parque Florido. Já, seu ateliê, fica na parada 79. O mais
interessante é que as paradas de Gravataí iniciam com o número 59. As paradas
46 até 58 ficam em outro município, Cachoeirinha, e neste trecho a avenida muda
de nome e chama-se Flores da Cunha. Os números menores possivelmente ficam em
Porto Alegre, na avenida Assis Brasil, porém, nunca se ouviu falar da parada 1
até a parada 45.
Ao longo da avenida Dorival de Oliveira alguns
fatos pitorescos do passado servem para identificação de pontos de referência.
Na parada 74 tem a Curva do Bigode. Na década de 1960, quando a cidade fazia
parte do circuito automobilístico estadual, se anunciava a passagem pela Curva
do Bigode como se anuncia hoje a passagem dos carros de Fórmula 1 pelo “S” do
Senna, em Interlagos. Hoje a Curva do Bigode é uma das passagens para o imenso
condomínio que é a Cohab. (NETTO, 2009, p. 6)
O artista Nardini procura entender os benefícios da pescaria e, como
sempre acontece na obra de Borges Netto, apresenta a visão do macho a respeito
da sociedade e das fêmeas: “Diz ele que isso é um exercício de paciência (...)
para conseguir conviver com as mulheres” (NETTO, 2009, p. 6). Os homens
geralmente pensam que as belas são descontroladas, promovem confusão por
qualquer motivo, adoram uma desavença, estão insatisfeitas com tudo e parecem
existir para infernizar a vida dos machos, e estes apenas suportam a sua presença
para ter sexo. Algo similar é o conceito que a literatura de Borges Netto tem
das belas, não porque talvez o autor raciocine dessa maneira, mas porque a
maioria dos homens pensa dessa forma.
O crítico literário Álvaro Lins, muito conhecido nas décadas de 1940,
1950 e 1960, enfatizou a importância do romance de personagem. Borges Netto
segue esse conselho, bem como desejava o crítico. Suas histórias sempre giram
em torno do protagonista, ainda que talvez não se possam considerar os seus
livros como de caráter psicológico. Talvez estejam mais para registro dos
costumes dos homens no final do século XX, na cidade de Gravataí. É uma obra
bem focada, portanto.
Erosão trabalha a personagem artista plástica Lione; O Romance de Gravataí, o artista
plástico Nardini; Um Deserto Logo Ali,
o artista plástico Jacó; No Abismo de
Rosas, o músico Pedro; O Lorde do
Casarão, o também músico Lorde; Limites
de Segurança, o gestor Jorge Furtado; A
Amante do Rincão da Madalena, o gestor Israel e Júlia, só que estes não
atuam como artistas, ou talvez a mulher seja uma espécie de artista do sexo.
Isso tudo prova somente que o gênio argentino Jorge Luis Borges tinha razão
quando afirmou que os escritores lidam com poucos temas e passam a carreira
abordando-os de diversas formas.
Numa conversa entre Poeta (seu alter ego) e Nardini, o artista plástico,
disserta a respeito da chave, comparando os seus recursos: “— Os poetas são
assim. Já um artista quando é preso pinta uma chave. / — Quando um poeta é
preso, escreve sobre as chaves” (NETTO, 2009, p. 12).
A conversa entre os dois artistas se aproxima das perguntas sem
resposta:
— Às vezes, acordo e sinto a presença da Ritinha
ao meu lado, seu toque suave, seu cheiro envolvente...
— Ainda a ama? — quis saber Nardini.
— O que é o amor? (NETTO, 2009, p. 13)
Como talvez um dos objetivos do escritor seja registrar os costumes da
cidade, ele conta a lenda da Vampira de Gravataí:
É a Vampira de Gravataí que surge das águas para
me sugar o sangue, pensou. A velha lenda já esquecida na Aldeia, do tempo em
que o avô era vivo, surgiu diante de seus olhos como um velho e empoeirado
livro de páginas amareladas. Dizia a lenda que a Vampira surgia aos maridos
infiéis e lhes inoculava no pescoço, com seus caninos
agudos, o veneno da fidelidade. (NETTO, 2009, p. 7)
Noutra
passagem, seu alter ego parece desejar a maldição de um poeta de Uruguaiana,
que decidiu viver da poesia e, por causa disso, passou décadas de sofrimento,
falta de dinheiro, de condições para viver e mesmo para se alimentar. O
escritor tem dúvida se a nobreza está em sobreviver da poesia ou mesmo da
literatura (NETTO, 2009, p. 14). Mal sabe ele que a maioria dos escritores faz
literatura por hobby. Muitos são professores, tradutores, jornalistas, médicos,
psiquiatras, gestores e tratam a literatura como o mais querido dos passatempos.
Mas nem assim deixam de aplicar-se no processo de compreender o que é e como se
faz. Isso não quer dizer, no entanto, que não existam escritores que vivam
apenas do que escrevem. Mas é raro num país como o Brasil.
O
pensamento masculino aparece na cabeça do artista Nardini, quando afirma que
“bom mesmo é ter alguém que nos prenda os pés ao chão e então podemos dar asas
às paixões eventuais” (NETTO, 2009, p. 14). Os homens em geral preferem estar
ligados a uma mulher, a oficial, e viver soltando os seus devaneios em todas as
camas do mundo. A esposa parece dar a sustentação de que os homens precisam
para conquistar o restante das fêmeas.
As
personagens Poeta e Nardini seguem conversando, mais ou menos como faziam
Sartre ou Hemingway, visto que os diálogos se desenvolvem ao longo das páginas
e, volta e meia, falam a respeito das mulheres, sempre com a tradicional visão
masculina das coisas: “— Claro que se paga por amor. Entendo que sejam duas
coisas bem distintas: amor e sexo. Quando não se consegue a gratuidade,
pagamos. É algo tão simples que nunca pesará nas nossas consciências” (NETTO,
2009, p. 15).
A história
ainda conta as pescarias de Poeta e Nardini, uma atividade muito praticada
pelos homens, embora nem todos a apreciem. Enquanto põem as minhocas para tomar
banho, conversam a respeito da vida, diálogos que se alongam talvez para deixar
o tempo escorrer.
Os dois
amigos seguem no diálogo, que geralmente aborda o sexo feminino, e refletem
sobre a importância de novas conquistas. Como se sabe, os homens precisam se
sentir caçadores, e a mulher nesse processo é uma presa e um prêmio a ser
mostrado aos colegas:
— Tenho me dedicado muito ao trabalho e deixado
minha vida afetiva um pouco de lado. Preciso realizar uma conquista para ter
ânimo outra vez, mas uma conquista bem difícil, daquelas que te faz pensar uma
noite inteira.
— E existem conquistas difíceis hoje em dia?
Sempre tem uma borboleta pousando em meu jardim. (NETTO, 2009, p. 21)
Mas será que alguns homens apreciam as dificuldades para se relacionar
com as fêmeas ou preferem as fáceis? As pessoas são diferentes. Mesmo que o
autor escreva a respeito do senso comum do que a maioria dos homens acha da
vida e das mulheres, certos posicionamentos talvez se afastem do geral.
Dalton Trevisan deve ter publicado mais de 20 livros apenas com duas
personagens em histórias que tratam de sexo vulgar: João e Maria. Talvez não
tenha sido proposital, mas Borges Netto repete a técnica do escritor curitibano
e, na maioria das situações em que aparecem mulheres, isso em todos os livros,
sempre haverá uma Júlia. Quando Poeta e Nardini vão conversar com Pedro, duas
moças aparecem: Raquel e Júlia. (NETTO, 2009, p. 31)
Depois de contar um costume da cidade, sobre a maneira como o sino da
igreja fazia barulho, que revelava se o morto recente era homem ou mulher, a
personagem secundária, mas que acompanha a principal, mostra o sentimento pelo
município: “É muito bom ser gravataiense, confessou Poeta, outro dia.” (NETTO,
2009, p. 32) Pois a literatura de Borges Netto é isto mesmo: ainda que
descreva, reflita, narre ou discuta sobre o pensamento e as formas de ser e de
agir dos machos gaúchos no final do século XX, início do XXI, como pano de
fundo de uma tela, registra os hábitos, os pontos turísticos, os costumes e as qualidades
de Gravataí. O autor se vê imbuído dessa missão: defender a cidade e talvez
preservá-la para as novas gerações.
Alguns elementos povoam os livros do autor. Aparece um casarão no Romance de Gravataí, como também no Lorde do Casarão e no Jardim Chinês de Pu-Uan. Mas isso é
normal, uma vez que todos os escritores têm seus temas e suas obsessões.
(NETTO, 2009, p. 33)
Também fala da dificuldade de um escritor publicar, assunto que já deve
ter sido abordado por todos os artistas da palavra. O mercado editorial aceita
apenas alguns, talvez os que apresentem índices de venda garantida. Os demais,
se desejarem praticar esse hobby, encontram raras possibilidades, ou ganhando
concursos, ou fazendo livros encomendados, ou por indicação de um escritor
importante. No entanto a maioria termina pagando:
— Um romance que estou escrevendo. Mais um
projeto que ficará guardado pela falta de dinheiro para a publicação.
— Venda o barco e teremos o dinheiro.
— Não se pode desfazer-se de um bem para
investir num sonho como um livro. Depois o livro não vende e ficamos sem o
barco e com um montão de exemplares ocupando lugar na casa. (NETTO, 2009, p.
34)
Quase todas as situações envolvendo o desejo dos homens pelas mulheres
são retratadas em Borges Netto. Uma nova é a fixação de macho por uma fêmea que
nem conhece, apenas viu a distância:
— Quero um quadro com a Raquel, de corpo
inteiro. Tenho pensado muito nela e é ela quem quero. Sei que é uma estranha
para nós, mas gostaria que a retratasse. Sinto que é a mulher que tanto
procurei. (NETTO, 2009, p. 34)
Eles a avistaram apenas duas vezes – a primeira numa atividade
voluntária, quando algumas pessoas estavam limpando o rio; a segunda, na casa
de Pedro. Então decidem vasculhar a Cohab para descobrir a moça. Provavelmente
o autor não tenha querido fazer referência literária, aos moldes de Ezra Pound
e T.S. Eliot, mas José de Alencar já escreveu o mesmo fato em A Pata da Gazela (1870), quando Leopoldo
procura Amélia por todo o Rio de Janeiro.
Uma vez o professor de Português Sérgio Nogueira, num programa de
televisão postado no youtube,
ressaltou a diferença entre mulher pelada e despida. As palavras são postas em
contextos diferentes. O escritor deve conhecê-los, precisa dominar a semântica
do idioma, para saber que sentimento despertará no leitor:
— O que tem este quadro?
— Veja a elegância desta mulher sentada no
jardim, cercada de girassóis.
— Está pelada.
— Não. Ela está despida. (NETTO, 2009, p. 40)
Ao contrário dos outros livros em prosa, O Romance de Gravataí parece feito de maneira mais racional, e uma
das possíveis comprovações é que oferece a primeira figura de linguagem somente
na página 46: “O silêncio, como uma grande colcha, cobria os segredos.” As
demais obras, principalmente Passeio,
exploram bastante as metáforas e sinestesias.
Talvez em nenhuma passagem da obra de Borges Netto haja um comentário
político, a não ser na página 50 de O
Romance de Gravataí, quando informa que o prefeito, licenciado em História
(NETTO, 2009, p. 50), cogitou a possibilidade de mudar o nome do município.
Ora, jamais alguém tomaria uma atitude dessas, pois mexeria com os brios de
centenas de milhares de pessoas, não só em Gravataí, como no Estado e no País.
Haveria uma polêmica infinita, e a reputação do político talvez ficasse maculada
negativamente. Daí se conclui que ou as personagens abordaram esse tema por se
tratar de uma fofoquinha da época, ou o escritor não tem inclinação de esquerda
e não concorda com o Partido dos Trabalhadores na Prefeitura de Gravataí.
Igual a outros livros, há uma quantidade impressionante de diálogos.
Todas ou a maioria das situações é desenvolvida com a conversa de duas
personagens: ou Nardini e Poeta ou Nardini e uma mulher. Porém o narrador
somente conta a vida de dois artistas, um escritor e um pintor, às vezes
trabalhando a metalinguagem, ou seja, os processos criativos tanto da
literatura quanto das artes plásticas.
Nardini afirma que “todo homem casado recebe as informações através da
ótica feminina” (NETTO, 2009, p. 65), e Poeta rebate: “- Deste modo, vamos
acabar recebendo sempre uma adaptação da realidade.” (NETTO, 2009, p. 65) Esta
personagem está querendo dizer, conforme o autor, que as mulheres não têm
condições de ver o mundo como ele é e por isso repassam a sua versão aos homens?
Mas o filósofo Montaigne (1996) garante não haver a possibilidade de entender
100% a verdade, e Gadamer (1987) diz que as pessoas tiram conclusões de acordo
com sua experiência de vida e de leitura, sua visão de mundo, suas ideologias,
seus preconceitos. Ou seja, nem homens nem mulheres conseguiriam repassar a
realidade. O realismo à Machado não existe, enfim.
Tzevetan Todorov (1992) explicou a diferença entre o estranho, o
fantástico e o maravilhoso em literatura. Borges Netto não está preocupado em
desenvolver nenhuma dessas técnicas, mas dá pistas de que parte do enredo, ou
pelo menos a que se refere a Raquel ou a Vampirinha de Gravataí, possa ser o
estranho, que, segundo Todorov (1992), é quando se acredita estar diante de uma
história sobrenatural, mas no fim há uma explicação
lógica para tudo:
— Será a Vampirinha de quem falam tanto? —
Perguntou Nardini, quando já estavam retornando para o centro da cidade.
— Claro que não. Esta moça está saindo da
adolescência agora. A lenda existe desde que éramos crianças. (NETTO, 2009, p.
65)
A visão machista, ainda que em tom de brincadeira, envereda pela
religião. Os dois amigos fazem gozação acerca dos religiosos:
— Quem inventou a religião não deve gostar muito
de mulher.
— Ou então gostava tanto que criou este
mandamento para sobrar mais mulheres pra ele. (NETTO, 2009, p. 66)
Outra característica masculina é a necessidade de mulheres:
— Companhias femininas? — Perguntou Nardini. —
Não se consegue ficar sem elas por muito tempo, mesmo que se tenha interesse em
uma, em especial. Como soube? (NETTO, 2009, p. 69)
Os homens – ou pelo menos grande parte deles – acreditam que as mulheres
os prejudicam financeiramente. Enquanto vivem felizes com o macho, procuram
tirar todo o dinheiro que puderem, mas, quando o relacionamento acaba, investem
ainda mais em arruiná-los: “Quando percebem que estamos apaixonados, nos
espoliam.” (NETTO, 2009, p. 70)
Mas os homens, como as mulheres, têm suas características negativas. Uma
das principais é a quantidade de mentiras que os machos inventam para ludibriar
as fêmeas e, assim, conseguir sexo com elas. Afinal, nenhum hétero normal pensa
em outra situação que não seja uma mulher sem roupa:
— Você completa minha vida. Faz aquilo que a
Senhora Nardini não faz, aquilo que falta em meu lar.
— Só isso?
— Tudo isso. A Senhora Nardini não me faz feliz,
não me ama, não completa minha vida. Enfim, são tantas coisas em que ela deixa
a desejar.
— Mal sei lidar com o fogão.
— Tu preparas o alimento para a minha alma, para
que eu possa criar e seguir meu caminho, e suportar a vida de casado. Tu és a
santa que me mantém dentro das regras da hipocrisia da sociedade. (NETTO, 2009,
p. 71)
As reflexões de Poeta mais uma vez ingressam no campo da metalinguagem,
pois tratam dos afazeres da produção literária. Certa vez um crítico de
literatura disse que ser poeta é a atitude menos inteligente no ramo das
letras, visto que, na sua opinião, há mais poetas do que leitores, o que
significa um deboche, uma vez que todo o escritor deveria, obrigatoriamente,
ser antes de tudo um grande leitor: “Estou perdido, seguiu pensando. Quando um
homem decide dedicar-se à poesia é um homem perdido.” (NETTO, 2009, p. 67)
Como desejava Edgar Allan Poe, o desfecho do livro surpreende, mesmo que
o narrador não dê indícios de que possa fazê-lo. Poeta revê o amigo Nardini
muitos anos depois e já está de partida para o litoral, enquanto o artista
plástico parece ter alcançado o sucesso e está com as malas prontas para
viajar. Nardini pergunta se Poeta não gostaria de levar o quadro da Vampirinha
de Gravataí. O escritor desconversa, mas, quando chega à praia, reencontra-se
com Raquel, ou seja, a Vampirinha. Essa passagem bem poderia ser o convite para
um novo livro: o relacionamento amoroso daquele casal.
MAX, O PRÍNCIPE GUERREIRO
Romance, 2007 – Livro 15
Ao contrário do que fez em toda a sua obra, Max, o Príncipe Guerreiro aborda a vida de uma faxineira, Vera, que
recém conseguira um emprego, estava no contrato de experiência e descobriu-se
grávida. Na teoria da literatura pós-colonial, prega-se que somente as mulheres
têm condições de escrever sobre as colegas de gênero, na mesma proporção que
apenas os homossexuais entendem as suas dificuldades, e os negros as suas etc.
Portanto, nesse ponto de vista, não é fácil escrever a respeito de um assunto
que não se conhece. Muitos escritores, porém, enveredaram por essa senda
nebulosa. Erico Verissimo, por exemplo, criou personagens femininas
inesquecíveis, como Ana Terra e Bibiana, para citar dois exemplos de O Tempo e o Vento.
A obra tem as características da novela, ou seja, na ambientação, a
personagem fica sabendo que seu filho sofre de uma doença problemática. Daí por
diante, elabora-se o conflito. O desfecho precisa tratar do que vai acontecer
com essa família. Exatamente como deve ser a estrutura desse tipo de história,
a tensão vai aumentando e com isso desperta o interesse do leitor. Na teoria do
conto clássico (e a novela literária nada mais é do que um conto esticado), o
objetivo é causar uma sensação na pessoa que lê e nesse caso parece que a meta
é sensibilizar. E a tensão permanece a mesma do início ao fim. Depois de toda a
intensidade narrativa, é difícil o leitor não ir às lágrimas com as preces da
personagem:
Durante aquela noite Vera rezou muito. Sentou-se
num banco que oferecia pouco conforto, e pediu: — Meu Deus, como eu queria que
isto que o Max está passando viesse para mim, e ele ficasse bom. Deus tenha
piedade do meu filhinho, não o deixe sofrer tanto assim. Fazei com que ele
fique bom. Eu não quero perdê-lo. Deixe-o comigo. Eu cuido dele. Ele não me
incomoda em nada. Ele é a minha razão de viver. Eu sou apaixonada pelo meu
filho. Ele é lindo. É tudo de bom que eu poderia ter na vida. (NETTO, 2007, p.
38)
Outra lição de humanidade é que a família de Vera se preocupa com Max e
lhe dá apoio sentimental. É bonito ler que o esposo se dedica ao menino e à
família, e os parentes indagam a respeito da situação do pequeno. As pessoas se
apegam a Deus quando enfrentam provações imensas, e essa realidade foi narrada
pelo autor. Mas um descrente diria: Se Deus é tão bondoso, por que permitiu que
Max nascesse com tantos problemas de saúde?
A AMANTE DO RINCÃO DA MADALENA
Romance, 1998 – Livro 10
O diálogo engrandece uma obra, dá
a impressão de os fatos estarem acontecendo na sequência e no tempo em que se
lê. Por isso muitos escritores desenvolvem romances, novelas e contos baseados
em conversação. Pois é exatamente dessa forma que se inicia A Amante no Rincão da Madalena. Porém os
bate-papos não acompanham a fala do dia a dia, como Graciliano Ramos, por
exemplo. Borges Netto prefere manusear o português tradicional e correto, como
um Eça de Queirós: “Penso que sempre vou sentir-lhe a falta.” (...) “Desculpe
fazê-la lembrar-se disso”. (NETTO, 2013, p. 26) Por outro lado, a quantidade de
falas é tão volumosa, que o romance poderia se transformar num filme. Está
pronto como um roteiro. Um diretor não teria dificuldade de transportar a
história para a tela.
Outra qualidade evidenciada já no
início é a dinâmica do texto criado com frases curtas como se fosse uma dança
repleta de passos diferentes. Os maiores escritores trabalhavam assim. Machado,
no Brasil; Hemingway, nos Estados Unidos; Tolstoi, na Rússia; Borges, na
Argentina; García Márquez, na Colômbia.
Nas páginas iniciais, o autor descreve o Rincão da Madalena, onde
possuía uma amante e vivia feliz: “No inverno, quando as chuvas chegassem, tudo
se vestiria de um verde encantador” (NETTO, 2013, p. 26). Aqui se percebe que o
escritor deixa o texto híbrido ao acrescentar uma figura de linguagem
inusitada. Mais um toque de poeticidade no apelido que a amante dá a pessoas da
região. Um deles, por exemplo, é o Homem das Rosas, que desperta ciúmes (ou
fingimento) em Israel (NETTO, 2013, p. 11). Páginas adiante surge outra imagem,
agora falando a respeito da escuridão: “A noite chegou muito rápida em seu
manto de dormir” (NETTO, 2013, p. 18). O autor insere imagens na medida certa:
meia dúzia por romance, talvez um pouco mais. Isso é correto se o romancista dá
importância à comunicabilidade do texto. Luiz Antonio de Assis Brasil
acrescentava apenas uma figura de linguagem por texto. Já Clarice Lispector
escrevia 30 figuras de linguagem por página, o que dificultava a compreensão
por leitores não-especialistas. Quem está certo? Ninguém. São propostas
literárias diferentes.
A personagem amante gosta de animais e lhes dá o nome de atores: Marlon
Brando e William Hurt foram duas sugestões. Tal característica mostra o
interesse da moça pelo cinema intelectualizado norte-americano e a influência
que a cultura brasileira sofre dos ianques. Mas o autor não se adentra em
digressões a respeito de técnicas cinematográficas, como fariam outros
escritores. Isso é positivo, porque foca na espinha dorsal do enredo. No
romance No Abismo de Rosas, trabalha
a música como pano de fundo, mas na medida exata, sem afetar o argumento e sem
fugir do tema.
Uma característica da literatura de Borges Netto, já evidenciada em
outras obras, é a visão masculina das coisas. A sociedade é sentida pela ótica
do macho, que, de certa forma, centraliza a visão de mundo. Tanto neste como no
romance No Abismo de Rosas, as
personagens principais têm amantes, porque o natural (nesse contexto, sob esse
ponto de vista) é que os homens as possuam. Uma frase de Israel parece resumir
o pensamento do autor a respeito da importância das amantes na vida de um homem
hétero: “Pensei que boas amantes apenas complementavam a felicidade dos
homens.” (NETTO, 2013, p. 27)
Já no início da narrativa a amante revela ter sido prostituta em São
Paulo, e a personagem principal, Israel, não parece incomodar-se (NETTO, 2013,
p. 13). É muito comum os homens terem longos relacionamentos com profissionais
do sexo, mesmo que nem todos ajam dessa forma. Outra vez mais, como pedia Ezra
Pound (1990, 1995), o autor aborda questões da sua comunidade na sua época.
Afinal, segundo o crítico norte-americano, “o poeta é a antena da raça”;
apreende o que assiste e vivencia e transforma em texto.
A sequência, entretanto, mostra uma mulher com raciocínio lógico, imune
à possível ofensa de ter sido chamada de “amante de aluguel” (NETTO, 2013, p.
13) pelo homem. É claro que devem existir mulheres com equilíbrio mental que
consigam manter conversações como essa, mas como se comportam as fêmeas em
situações como a referida? Manteriam uma troca de ideias coerente, se magoariam
ou até partiriam para a agressão? Claro que há todos os tipos de mulher, nem
todas são iguais.
Quando Israel pensa na sua vida dos últimos anos, em que se dedicou
apenas à família e agora não se controlava e mantinha um caso com amante de
aluguel, tal pensamento, mais uma vez, descreve o que os homens pensam (NETTO,
2013, p. 14). Não que estejam corretos, porém a maioria acredita não ser
possível controlar o instinto de macho quando na frente de uma fêmea do seu
gosto, e se esquecem do seu código de conduta moral.
Os motivos pelos quais os homens têm amantes parecem sintetizados nas
reflexões de Israel, no momento de se dirigir à cama de Júlia:
Ele estava mais entregue ao momento e tinha,
diante de si, toda a planície do ventre que o fez recordar-se da infância, dos
campos, da vida sem compromisso de toda criança, seguindo com o toque na pele
sedosa dela, receptiva ao carinho. Esqueceu da pressão social que a vida adulta
envolvia; esqueceu dos problemas daquela manhã, do trabalho, da transportadora;
da família que todos os dias, pacientemente, o aguardava para a janta. A
fragrância doce que dela recendia, afastava todos os problemas e fazia com que
recordasse das primaveras perdidas no tempo. (NETTO, 2013, p. 15)
Israel mostra-se temeroso por estar com Júlia. Pelo menos, enquanto
fazia amor com ela, lembrou-se duas vezes da família. O pensamento voa um pouco
mais longe, e ele se lembra do medo de ter trocado a vida simples de professor
de matemática pela direção geral da transportadora do pai (NETTO, 2013, p. 16).
Num trecho, quando Israel passou alguns dias resolvendo problemas da
transportadora, a amante se preparou para recebê-lo e tinha a disposição de
passear no parque de mãos dadas. Na sequência, o autor emite comentário:
“caminhar pelo campo de mãos dadas com ele como (...) um casal que se entende,
que não faz cobranças e onde a única preocupação é a felicidade” (NETTO, 2013,
p. 18). Parece fazer crítica indireta às mulheres que gostam de discutir
relação e passam o tempo todo fazendo críticas ao marido e cobrando alguma
coisa, muitas vezes com razão e muitas sem.
Em outros livros, Borges Netto já havia mostrado alguma influência da
música. Embora não tenha sido violonista ou mesmo cantor, escreveu sobre um
boêmio, fez poemas sobre isso e, de vez em quando, mistura as técnicas de
imagens com expressões melódicas: “O ruído das cigarras na busca do maior agudo
já havia silenciado.” (NETTO, 2013, p. 18)
Algumas conversas de Júlia parecem intelectualizadas, talvez descrevendo
uma prostituta em especial, lida e ilustrada, mas longe da maioria das
mulheres, que só pensam em comprar roupinhas, bolsinhas, calçados, joias, além
de cuidar do cabelo, da pele e do corpo. A futilidade feminina é quase
generalizada. É raro encontrar uma mulher que cultive assuntos cerebrais. Esse
tipo de mulher se encontra nas universidades e dispõe de títulos de mestrado ou
doutorado, salvo raríssimas exceções.
Júlia também consegue discernir entre atração e poder sexual e garante
que somente elas possuem este último quesito, no que está certa. Mas também não
é comum se encontrarem mulheres que compreendam com lucidez de que forma
dominariam os homens com seu poder sexual. A maioria acha que os machos se
enfeitiçam pela magreza exagerada do corpo, enquanto pesquisas nacionais
defendem o contrário: grande parte da população masculina prefere mulheres sem
gordura, é certo, mas de coxas, quadris e seios volumosos. Mas, claro, um romance
não precisa, obrigatoriamente, descrever o tipo comum de homem ou de mulher;
pode trabalhar com as exceções, com a extravagância, com a diferença.
Outro detalhe que foge do comum é o texto do diário da garota de
programa. É qualificado, frases curtas, bem concatenadas, como de escritor
profissional. A cada cem pessoas que escrevem uma redação, quantas produziriam
com o mínimo de qualidade? No máximo dez, se tanto. Porém, nesse ponto, há
coerência nessa personagem, visto que, se ela tem condições de falar sobre o
poder sexual da mulher com riqueza de citações históricas, talvez escreva com a
mesma exuberância.
Israel não entende por que se relacionou com outra mulher, uma vez que
tinha esposa compreensiva, sempre de bom humor e bonita, “de causar inveja aos
amigos” (NETTO, 2013, p. 33). Tal pensamento é normal em homens heterossexuais.
Eles podem até possuir uma situação agradável, estar envolvidos pela oficial,
não ter nada para reclamar, porém, mesmo assim, terminam atraídos por outra,
como se não tivessem domínio de si, como se o sexo feminino fosse a droga mais
poderosa e viciante, um ímã infalível que a todos atrai e prende.
Talvez criar uma narrativa em linha reta, ambientação, desenvolvimento e
desfecho, como desejava Edgar Allan Poe para o gênero conto, não seja bem-visto
para novelas e romances, pelo menos atualmente, já que uma infinidade de
estruturas foram inventadas. Então Borges Netto inicia o enredo pela metade e
volta ao início para esclarecer sobre como se envolveu com a meretriz.
A personagem Israel encontrou o carro de Júlia com problemas e resolveu
ajudar. Foi assim que tudo começou, ainda mais porque ela ofereceu-lhe um café.
No começo, talvez para deixar a narrativa um pouco mais verossímil, não passou
disso. Os leitores quem sabe não acreditariam se Júlia inventasse qualquer
pretexto para o homem ir ao quarto e lá tirasse a roupa de repente. Soaria
falso, mas já isso acontece de fato. Muitas vezes, a realidade é mais
extraordinária que a ficção.
“O busto em bronze do Dom Feliciano, primeiro bispo do Estado e natural
de Gravataí (...) se encontrou diante da Igreja Matriz, a Nossa Senhora dos
Anjos, [a] padroeira.” (NETTO, 2013, p. 38) “A imagem pequena, confeccionada
pelo artista plástico João Alberto Lessa” (NETTO, 2013, p. 40). Igual a um
escritor de Canoas que adotou a cidade e, na sua literatura, destaca os
aspectos positivos da região, Borges Netto age da mesma forma e, sempre que o
enredo permite, enfatiza algum detalhe de Gravataí. Em certo momento, compara a
sensualidade do corpo de Júlia a uma volta sinuosa de uma via da cidade: “O
cotovelo dobrado numa linha suave que ele sempre brincava dizendo ser a Curva
do Bigode” (NETTO, 2013, p. 60). É difícil de afirmar com certeza, mas parece
que se trata de comparação original. Outra característica que ligam os dois
escritores é que ambos são talentosos tecnicamente, mas não saíram dos limites
municipais; são autores citadinos.
Certa vez, um professor dizia em sala de aula que a literatura contribui
em vários sentidos para o enriquecimento intelectual do leitor. Cada livro
trata de assuntos que podem aprimorar a pessoa, como o vocabulário e exercitar
o cérebro. A Amante do Rincão da Madalena,
por exemplo, através dos diálogos discorre a respeito dos costumes, da
colonização, da história e das características de Gravataí. Ler esse texto é
uma forma de conhecer o povo e sua região.
Os diálogos, além de extensos, como nos romances de Hemingway, falam de
amenidades. A amante não discute, não cria problemas, não questiona, não se
intromete na vida de Israel, não se lamenta. É claro que existem mulheres
assim, mas são raras, e isso talvez explique o forte interesse do homem, mas
ela também contava 30 anos menos do que ele, e a juventude feminina associada a
um corpo cheio de curvas agrada a todos os héteros. Os conflitos provocados
pela maioria das mulheres destroem qualquer relacionamento.
Borges Netto trabalha com situações religiosas, visita a igreja, rituais
de oração, comentários sobre a imagem dos santos, mas o autor não é religioso.
José Saramago se dizia ateu, mas chegou a escrever um livro inteiro a respeito
da Religião Cristã: O Evangelho Segundo
Jesus Cristo.
Havia um escritor em Porto Alegre (Gastão Torres) que, em vez de ler os
clássicos para qualificar seu repertório mental a fim de escrever poemas,
manuseava tão somente obras de biologia. O que ele gostava mesmo eram as
flores. Borges Netto não segue o exagero do autor porto-alegrense, mas aprecia
a natureza, talvez por causa de sua atividade inicial como agricultor, e cita
algumas flores ao longo do texto, como Bromélias, Amores-Perfeitos e
Bocas-de-Leão (NETTO, 2013, p. 43).
Outro aspecto do romance é a análise do homem em transição da idade
adulta para a velhice. Em pequenas doses, aparecem trechos que abordam a
decaída do apetite sexual de Israel, beirando os 60; as indisposições; as
inabilidades físicas.
Alcides Maya escreveu sobre o humor de Machado de Assis e não
classificou o mestre de comediante ao estilo de Jô Soares. O Bruxo do Cosme
Velho estava mais para um sorriso nos lábios. Sem comparar a qualidade de
ambos, até porque nenhum escritor na literatura brasileira pode ser colocado
perto de Joaquim Maria, a personagem Israel, talvez por estar feliz com Júlia,
faz comentários jocosos em vários momentos. Não chega a ser humor, mas descontrai
o ambiente e a narrativa.
Lendo Borges Netto, tem-se a
impressão de como é a sua vida, embora sejam apenas possibilidades, porém Mário
Quintana disse que tudo sobre ele estava na sua literatura, e Graciliano Ramos
afirmou que só escrevia a respeito do que vivenciava.
UM DESERTO LOGO ALI
Romance, 1997 – Livro 09
Algumas das características da literatura de Borges Netto já se
encontram num dos primeiros livros do autor: Um Deserto Logo Ali, ou seja, a visão masculina do mundo. Por
exemplo, a liberdade sexual da mulher não é aceita: “- Gosta de você? Um
pirralho? Ela gosta de homem. Dá para contar nos dedos os homens com quem ainda
não dormiu” (NETTO, 1997, p. 14). Além disso, os héteros em geral quase só
pensam em sexo. Talvez por isso a literatura de Borges Netto esteja repleta de
cenas do gênero. A advogada Niceia pede carona a Jacó, 14 anos, o conduz a uma
habitação abandonada, correm até o campo, onde ela mostra-lhe os seios (NETTO,
1997, p. 18). No entanto, houve um pequeno afastamento da visão machista em
geral. Quando Jacó vai morar com os tios, a prima Meire lhe dá conselhos, e
Jacó, embora não os aceite a princípio, reconhece que ela tem razão (NETTO,
1997, p. 21). Essa não é uma atitude dos héteros comuns. Em geral dificilmente
levam as opiniões das mulheres a sério.
A maioria dos héteros se envolve com garotas de programa. Talvez por
esse motivo, a prima Meire, quando expulsa da escola de belas artes, apenas
para se distrair à noite, já que não tinha disposição de relatar o acontecido
aos pais, entra na vida do meretrício.
Os héteros também acreditam que as mulheres são histéricas e armam
confusão por nada. Jacó abandona a residência dos tios e vai morar no litoral.
Constrói um barraco em local invadido e decide pintar quadros para vender aos
transeuntes. Ouve choro de criança, entra num casebre, dá colo à menina, que
para de chorar. Envolve-se com Suzana, a mãe dela. Quando a nenezinha chora de
novo, a mulher, que era drogada, acha que Jacó talvez tivesse feito alguma
coisa de errado com a filha e o agride. Essa dúvida volta a aparecer. Talvez a
mulher vivesse numa realidade em que os homens abusam de crianças e talvez
tivesse se descontrolado devido ao uso de entorpecentes. No entanto os héteros
em geral não esperam nada muito diferente das mulheres que não o descontrole
constante.
Para Borges Netto, o ambiente natural tem a força de transmitir calma.
Por isso, quando há estresse, as personagens se refugiam em meio ao ambiente natural:
“Fica muito tempo na companhia das vacas e do vento, admirando a destreza das
piadeiras e as tentativas frustradas dos cães” (NETTO, 1997, p. 09).
Como faria ao longo da obra, o autor mescla elementos de outras artes,
buscando o hibridismo. Jacó desenha a advogada Niceia, com quem teria um caso.
Jacó se matricula numa escola de belas artes. Assim o autor investe no
hibridismo entre literatura e artes visuais, sem esquecer a poesia: “O sol se
tatuava na parede” (NETTO, 1997, p. 23).
EROSÃO
Romance, 1992 – Livro 06
O começo da narrativa traz estilo diferente do autor, ao descrever a
casa internamente. São inúmeras frases elípticas, ou seja, sem verbo, no estilo
de Laury Maciel, que escreveu romances e contos assim, afora Josué Guimarães e
até Ricardo Ramos.
O enredo fala da artista plástica Lione e de sua amiga e governanta
Júlia, que viviam num sítio às margens da RS-020, ao pé do morro Itacolomy.
Nesse ponto surge mais um tema diferente: o lesbianismo. Embora talvez
desconheça o mundo homossexual feminino, percorre essa trilha delicada. Mas não
chega a entrar em pormenores sexuais, o que é uma espécie de receita de
best-seller (1985).
Igual À Amante do Rincão da
Madalena, o livro é feito de diálogos banais que se alongam a retratar a
vida. As pessoas fazem isso: conversam a respeito do sol, do frio, do dia a
dia, do café.
É curioso que tanto a personagem Júlia, de A Amante do Rincão da Madalena, como o casal Júlia (de novo) e
Lione, de Erosão, viveram em São
Paulo. Outra característica nos dois romances é o sítio. Tanto a amante Júlia
como o casal Júlia-Lione vivem num local distante, com vacas e mato. É a
reprodução da experiência de vida do autor, que se criou no meio rural.
A mesma técnica utilizada em A
Amante do Rincão da Madalena, quando um personagem do campo é chamado de
Homem das Flores, em Erosão, aparece
o Homem da Curva, com o qual a personagem Júlia pensa em conversar a respeito
da plantação de hortaliças. Conforme Edward Forster (1998), existem personagens
planas e redondas. Estas últimas precisam de um romance inteiro para ser
descritas; as primeiras são delineadas em algumas frases ou somente um nome.
Mais uma vez, o autor fala sobre características de Gravataí e faz
rápido comentário sobre a empresa de ônibus local, cujo monopólio é lamentado
pela maioria dos passageiros, impelidos a pegar conduções lotadas nos horários
de ida e volta do batente:
No instante em que passavam pela Morada do Vale,
um ônibus lotado em sentido contrário fazia sua última viagem daquele dia. Com
seu motorista suarento e cansado. Parou para um passageiro que já aguardava há
quase uma hora do outro lado da estrada. No indicador de itinerário, estampada
a fatídica linha Norte, que em conjunto com a linha Sul, significavam dois
descontentamentos com a empresa de ônibus local. Sorte sua que as proximidades
do Morro Itacolomy era servida pela empresa de ônibus proveniente de Taquara.
(NETTO, 2003, p. 21)
Os aspectos históricos da região voltam a aparecer. O autor lembra que
Cachoeirinha foi distrito de Gravataí até 1965. A seguir inclui uma explicação
de onde surgiu o nome da cidade e o motivo pelo qual a instituíram. Os
políticos desejavam criar um novo município, para ter mais cargos (NETTO, 2003,
p. 25). O fato de haver uma ponte estilosa ligando Cachoeirinha à capital,
construção essa substituída por outra de concreto, parece despertar sentimento
nostálgico no escritor, porque ele já citou a passagem em vários livros.
O romance é feito com a estrutura de folhetim, embora não tenha sido
elaborado com esse propósito e nem saído na imprensa em colunas semanais. O
desfecho de cada minicapítulo apresenta frases impactantes que despertam o
leitor para preencher “o espaço entre a letra e o espírito”, o que engrandece a
obra.
A exemplo do que aconteceu com a personagem Júlia, de A Amante do Rincão da Madalena, a
artista plástica Lione faz citações eruditas. Recorda a poeta grega Safo e seu
desprezo pelos homens (NETTO, 2003, p. 33), mas aqui a lembrança faz sentido,
porque a narrativa conta a história de um casal lésbico, sendo Lione uma
artista. É natural, portanto, que tenha um nível de conhecimento mais elevado.
Como disse Ezra Pound (1990, 1995), literatura é palavra rica em significação.
O texto precisa despertar o leitor da sonolência, fazê-lo pensar, refletir.
Como Júlia havia ido a Porto Alegre, e Lione recebeu a visita de Ariana, Lione
pensa que a ausência da amiga começava a ficar interessante (NETTO, 2003, p.
36), porque a outra se mostrou propensa a ficar despida para ela retratá-la.
Deve ter pensado, quem sabe, numa possível aventura. Explorar o não-dito ou a
entrelinha dá mais sabor ao texto. Não se deve contar apenas a história. Muita
coisa mais pode ser mostrada: sempre há segundas intenções, desejos escondidos,
armadilhas intencionais. Borges Netto trabalha esses detalhes no momento exato.
Embora contasse o relacionamento lésbico entre uma artista plástica
famosa e sua secretária, Borges Netto, que faz uma literatura tipicamente
masculina, com visão de mundo pela ótica do hétero, não se afasta do seu
conjunto de ideias. A personagem Júlia vai a Porto Alegre fazer compras, revê
seu ex-noivo trabalhando como garçom e termina dormindo na casa dele, mesmo sem
ter contato mais próximo. No dia seguinte, vão até o sítio onde Lione e Júlia
viviam. Jota e Júlia encontram um quadro com a reprodução de uma modelo
semidespida. O homem pensa: “Seria uma mulher e tanto na cama se as coxas
retratadas na tela expressassem com fidelidade a modelo.” (NETTO, 2003, p. 36)
Analisando os quatro livros de poemas de Borges Netto, tem-se a
impressão de que ele é “antes de tudo um poeta” (se quisermos reescrever uma
frase célebre de Euclides da Cunha), pois domina as técnicas das mais variadas imagens.
No entanto, lendo os romances do autor, também se percebe que conta histórias,
pois narra como se fosse um dramaturgo, explorando os diálogos na medida
correta para dar a impressão ao leitor de estar vivenciando as situações.
Apesar disso, insere algumas figuras de linguagem na trama, o que dá um clima
poético: “Com seu manto suave, a noite começava a cobrir os campos, enegrecendo
o interior do capão e distribuindo penumbra em tudo.” (NETTO, 2003, p. 36)
Pela primeira vez em sua obra, o autor parece ter tido reflexões
femininas, quando a personagem Júlia comenta que a companheira está se
comportando como homem, “fugindo do assunto, arrumando desculpa para atitudes.”
(NETTO, 2003, p. 59) Mas nem todos os héteros se comportam dessa forma, apenas
aqueles que fizeram algo errado e tentam escapar das eternas acusações
femininas.
Parece que os homens, na literatura de Borges Netto, possuem a
característica de fazer consertos gerais. Jota, na manhã seguinte quando dorme
no sítio de Júlia e Lione, passa horas arrumando o telhado, mas nem todos os
homens têm esses poderes na vida real. Há, por exemplo, os que só leem,
escrevem e falam em idiomas estrangeiros. Mas arrumar coisas é uma
característica dos héteros.
Literatura de qualidade precisa despertar a tensão. Essa narrativa
começa a desenvolvê-la quando Jota passa a trabalhar no sítio Berna e planeja o
furto do cavalo Dourado. Ele arruma as cercas, o teto e estuda o momento para
atacar. Porém Lione parece entender como funciona a cabeça do meliante e fica em
alerta.
A personagem Lione tenta desenvolver uma mostra com telas a respeito da
erosão e faz comentários sobre os motivos pelos quais esse tema se apoderou do
seu espírito. Ela estava com medo de que Júlia se afastasse, e seu mundo
sofresse igual processo, como acontecia no sítio Berna.
LIMITES DE SEGURANÇA 1ª edição
Romance, 1991 – Livro 05
A quantidade de homens que bebe é enorme, principalmente entre os que
apreciam os recantos da noite. Uma das preocupações masculinas, quando em
eterna caça às presas, diz respeito se vai funcionar tudo bem no sexo, apesar
da elevada ingestão de álcool. O romance Limites
de Segurança se inicia com uma cena tratando exatamente do temor (NETTO,
1991, p. 5).
As características masculinas voltam a aparecer: “Visitar Mirtes em
plena luz do dia era um risco grande, podia estar passando um limite de
segurança (...) traçado por qualquer homem numa situação idêntica” (NETTO,
1991, p. 41). Afinal os héteros que passam a vida em busca de fêmeas geralmente
são comprometidos e montam estratégias para agir.
E o que mais os desestabiliza é admirar mulheres que tenham o tipo
físico desejado, embora muitos garantam que mulher é mulher, e qualquer uma
serve. Nesses instantes, o pensamento dos homens fica nublado: “Sua ereção
perturbou seu raciocínio” (NETTO, 1991, p. 46). Quando vê mulheres desejáveis,
fantasiam em termos de sexo: “Imaginou-a de bruços, de frente, de pé, contra a
parede, de joelhos, rastejando no macio do tapete da sala na direção dele”
(NETTO, 1991, p. 57). O que os homens não fazem por sexo? Jorge Furtado se
envolve com Mirtes, a secretária, que, na verdade, era infiltrada de uma
organização que a colocou dentro do Matadouro Pig com o intuito de impedir que
a empresa instalasse uma filial em Cumbuca do Norte, mas a personagem termina
pedindo demissão e se afastando para não ser pega pelas autoridades.
Igual a outras narrativas, esta é feita por meio de diálogos, o que
proporciona a sensação de que a história está se desenrolando no momento da
leitura. Também oferece dinamicidade ao enredo.
O humor volta a aparecer, meio que levemente. Jorge Fortunato é pego
caminhando de roupão florido na rua principal de uma pequena cidade e vai preso
(NETTO, 1991, p. 13); garante haver uma casa noturna, mas o delegado o desafia
quanto à comprovação. Chegando lá, percebem haver um restaurante normal. A cena
desperta algum mistério. O que teria acontecido? A personagem sonhara? O
estabelecimento funcionava somente à noite e se disfarçava durante o dia? O
autor pretendeu ingressar num realismo mágico? É a amplitude de significado que
desenvolve a literariedade do texto.
Quando Fortunato começou como gerente no matadouro e conheceu a
secretária Mirtes, percebeu que foi a mesma com quem passou a noite anterior
(NETTO, 1991, p. 20). Portanto, o relacionamento sexual deles existiu. Bastaria
seguir acompanhando a narrativa para saber o que aconteceu, e o mistério se
revela na página 27. Fortunato sai da empresa, conversa com o delegado e sabe
dele que dormia às 22h mais ou menos. Perto das 23h, o escrivão de polícia e o
soldado Netto instalam letreiros no velho restaurante, e a secretária Mirtes se
dirige para lá, usando minissaia, dando a entender se tratar de prostituta à
noite e eficiente funcionária de dia.
O LORDE DO CASARÃO 1ª edição
Romance, 1990 – Livro 04
Embora O Lorde do Casarão seja
um dos primeiros livros de Borges Netto, parece um texto bem constituído que já
mostra os adjetivos de contador de histórias. Inicialmente, é narrado o
comportamento do Lorde, que recebia diversas mulheres no seu casarão. Na
maioria dos trabalhos de Borges Netto, o mundo dos homens é constituído por
fêmeas, sem lugar para a família ou amigos, ainda que algumas personagens sejam
casadas. O lorde também se envolveu com política, mas foi derrotado por causa
dos escândalos da constante presença feminina na sua residência. O filósofo
Cícero (2010) já dizia que o instinto sexual é o pior inimigo do ser humano.
Borges Netto parece concordar. Também acredita que o sexo é a alegria e a
derrocada de qualquer hétero.
Como aparece na maioria das outras histórias, o local de diversão é um
bar noturno, de preferência repleto de prostitutas: “As mulheres do prostíbulo
em plena atividade” (NETTO, 1990, p. 38). Para esse lugar, os homens se dirigem
com o objetivo de atacar as presas ou pagar por uma vadia. Uma das personagens,
Mauro, tem puta fixa aos sábados à noite, mais ou menos o que faz grande parte
dos héteros. Apenas uma personagem de Borges Netto não está acostumada a pagar
por sexo. Trata-se de Marco, que se aposenta, abandona a padaria e vai para o
interior, onde se instala num casarão abandonado. Porém há uma prostituta
fazendo ponto embaixo da marquise da residência. É uma oriental de seios e
quadris pequenos, o que não agrada a nenhum homem, nem mesmo às personagens de
Borges Netto, porque os machos em geral preferem mulheres de coxas grossas,
seios e quadris largos.
Marco é violonista, como várias personagens de Borges Netto. Afinal,
fica difícil a boemia sem violão, cerveja e prostitutas. Nesse romance, na residência esquecida há uma espécie de galeria
de arte.
Lorde vai ao boteco, e os músicos haviam faltado. Então, como sabia
tocar, pega o violão e começa. Joaninha, uma quarentona magricela, convida-o
para a sua mesa e solicita uma música. Borges Netto ressalta a magreza da moça,
deixando subentendido que nem ele, autor, nem suas personagens apreciam
mulheres destituídas de volume, porém aceita mesmo assim, talvez por dois
motivos: 1) porque já tinha mais de 50 anos; 2) porque não andava com nenhuma
mulher.
“Precisava manter o diálogo atrativo ou perderia a presa em menos de um
minuto” (NETTO, 1990, p. 42). As personagens masculinas de Borges Netto são
caçadoras; as femininas, presas, que devem ser encurraladas com tática; os
bares funcionam como açougue, expondo a carne a ser consumida.
“O Lorde havia conseguido manter a conquista sem oferecer um níquel
sequer” (NETTO, 1990, p. 44). As personagens de Borges Netto parecem conseguir
relacionamentos amorosos somente pagando. É o mundo de bares, cerveja, violão e
prostitutas. Muniz Sodré (1985) garantiu que a maioria dos leitores não gosta
que o autor entre em detalhes sexuais. Borges Netto parece concordar.
A figura de linguagem “as risadas passearam soltas” (NETTO, 1990, p. 45)
deu um toque de requinte à conquista de Marco. Falando sobre a primeira transa
da prostituta Lyn, o escritor elabora frases que convidam para a leitura da
entrelinha: “rasgando o espaço, e a explosão (...)”(NETTO, 1990, p. 45)
Freud (1970) desenvolveu sua tese, afirmando que a vida do ser humano é
movimentada pelo sexo; tudo gira em torno dele. As personagens do autor
confirmam isso, pois o que importa é a caça ao sexo feminino.
Os princípios de Marco ou Lorde, como passou a ser chamado, era de pegar
mulher sem pagar, e terminou levando todas as putas do Ribas para o casarão
(NETTO, 1990, p. 81). Embora trabalhasse como jardineiro numa residência e
tocasse num bar à noite de vez em quando, o resto das horas ele passava
tentando arrebanhar prostitutas sem pagar. O escritor uruguaio Juan Carlos
Onetti uma vez afirmou que teria produzido muito mais se não tivesse perdido
tanto tempo na caça das fêmeas.
Em inúmeras passagens, quando uma moça aparece, ela é examinada como se
estivesse despida ou como se fosse separada por corte de carne. Afinal, a
mulher, para ele, não passa de um objeto de prazer, um produto a ser desfrutado
e consumido: “(...) ela tinha um belo corpo, bom de pegar, ancas redondas,
belas coxas, cabelos macios” (NETTO, 1990, p. 89), pensou Marco ao ver a garota
desembarcar com ele na rodoviária de Mirim.
Os héteros normais raramente olham o rosto das mulheres. O que lhes
interessa são as coxas, os seios, as ancas. Assim faz todo o sentido o
pensamento de Marco: “A verdade era que nunca lembrava de olhar os cabelos das
bailarinas” (NETTO, 1990, p. 94).
Marco volta à sua cidade cinco anos depois, para rever a sua vida.
Conhece uma moça no ônibus, e ela o chama para uma festa. O homem vai. No
local, ele e o balconista do hotel conversam a respeito das mulheres, as que
são tiro certo (NETTO, 1990, p. 104), ou seja, sexo garantido, porque os machos
pensam dessa forma. Como a guria de 16 anos, a mesma da rodoviária, pediu-lhe
para cheirar cocaína, Marco aceita, visto que desejava descobrir um jeito de
levá-la para a cama. E consegue. Tira a virgindade da menina, que o seguiu até
o hotel e dormiu com ele.
“Mulher nasceu para ser cantada” (NETTO, 1990, p. 118). O livro foi
publicado em 1990 e escrito algum tempo antes. O que o autor diria em 2020,
época em que as mulheres atacam os homens? Entretanto, no momento em que foi
produzido, os héteros realmente pensavam que as mulheres nasceram para ser
galanteadas.
“Estranhou criticar Joaninha, se ela própria estava ansiosa, mas mulher
era assim mesmo” (NETTO, 1990, p. 121). Com tal frase, o autor não chega a
desenvolver uma tese sobre o que os homens pensam das mulheres; apenas deixa
entreaberto no não-dito e convida o leitor hétero a preencher a reflexão com o
seu pensamento. Essa é uma forma da interatividade literária.
A tensão final aborda a angústia de Lyn, a prostituta que não queria
ceder ao capricho de Marco, ou seja, este não admitia pagar por sexo, e Lyn só
aceitava por dinheiro. No final da história, talvez porque Marco passou três
dias longe sem avisar, ela se enervou e sentiu a falta das cantadas do homem e
decidiu que, se ele aparecesse, ela aceitaria, e foi o que aconteceu.
MOÇA TRISTE NA JANELA
Poemas, 2006 – Livro 14
O escritor
norte-americano Walt Whitman (1993) era convencido e se autoelogiava de vez em
quando. No primeiro poema de Moça Triste
na Janela, não é que Borges Netto afirme ser mais que os outros, porém diz:
“Pelo menos sei que sou poeta” (NETTO, 2006, p. 122), título de que muitos
artistas da palavra não aceitam se chamar, porque se considerar escritor e
poeta é forte e, talvez por humildade, alguns prefiram não mencionar. No
entanto, a impressão se esvai na estrofe subsequente, quando enfatiza:
Tenho apenas a certeza
De minhas ansiedades
E munido de picaretas e pás
Vou desencavando sensações
E arando sentimentos
Que brotam entre a relva macia
Sempre que é primavera (NETTO, 2006, p. 122)
Ao
salientar que tem certeza apenas das suas ansiedades, de certa forma reproduz o
pensamento do filósofo Sócrates, segundo o qual o único que sabia é que nada
sabia. Tal pensamento é importante em literatura e na arte como um todo. O
pensador grego acreditava que, quanto mais a pessoa se aprofundava nos
mistérios da vida (e no caso de Borges Netto, também na literatura), ele
percebe a quantidade de aspectos ainda desconhecidos. Os verdadeiros literatos
devem ser humildes perante a literatura, pois conhecem a imensidade de teorias
e livros que ainda não leram e de recursos literários que ainda não dominam.
No poema
“Homens da guerra” (NETTO, 2006, p. 124), Borges Netto se espanta pelo fato de
que eles se enfeitam para o combate. Como não participa de conflitos desde
1945, quando se conflagrou a Segunda Guerra Mundial, embora o país tenha
registrado a luta armada contra a ditadura militar entre 1968 e 1972, não faz
sentido, em tese, escrever um poema desses, a não ser que o poeta almejasse
usar a situação como metáfora. Nesse caso, conforme Gadamer (1987), o leitor
interpretaria de acordo com suas experiências. Uma das infinitas compreensões
possíveis diz respeito às mulheres. Por que elas gastam às vezes todo o seu
dinheiro para melhorar o aspecto visual, com maquiagem, roupas, bolsas,
sapatos, cabeleireiro, cirurgias plásticas, regimes e algumas com academia?
Sabem elas que a sociedade como um todo valoriza apenas a sua beleza? Então por
que elas tentam ficar ainda mais exuberantes? É só isso que elas têm para
mostrar? Como a sociedade deseja que elas se transformem em objetos, as belas
pretendem ser o melhor produto de consumo? É essa a guerra que lutam? A guerra
da futilidade? São apenas indagações que não foram elaboradas pelo autor, mas
poderiam surgir da interpretação desse poema.
Os
relacionamentos geralmente espetam. O escritor, como um ser humano sensível,
enfrenta-os, mas a sensibilidade se derrama. Ele não quer aceitar, ou até sente
medo. Alguns tentam fugir do contato humano, como propôs Schopenhauer (1991).
No entanto, Aristóteles (1969) enfatizou que as pessoas foram criadas para o
convívio social. Não se pode abandonar a vida. Tudo isso parecem resumir os
seguintes versos: “No passado / grão de areia que esqueci.” (NETTO, 2006, p.
63)
Alguma coisa de quase pornográfico transparece em determinados versos,
abrindo possibilidades de interpretação um tanto sensuais. Borges Netto não
gosta de ser explícito, como Dalton Trevisan (1970) ou mesmo Henry Miller
(1983, 2000). Fica mais na sensibilidade da entrelinha. É o leitor quem deve
compreender com a sua experiência. Não se faz necessário o autor revelar tudo.
Por isso: “O ardor lascivo do teu olhar.” (NETTO, 2006, p. 64)
A sociologia da literatura garante que a verdadeira literatura aborda
assuntos do seu tempo. Ezra Pound (1990, 1995) dizia que o poeta é a antena da
raça e, por isso, deveria captar o que estivesse acontecendo à sua volta e
transformar em literatura. Foi exatamente o que Borges Netto fez: “E em teus
cabelos tingidos / Na busca da juventude.” (NETTO, 2006, p. 67) Numa sociedade
como a brasileira, as pessoas desperdiçam a vida, tentando alongar os anos de
adolescência. Algumas vão às academias e se alimentam com vegetais e frutas;
outras se vestem como os jovens, e certas pessoas somente recondicionam os
cabelos.
Eterno amante das mulheres, pinta o verbo com delicadeza literária: “Me
deu a fragrância / Suave e angelical / Dos teus sonhos.” (NETTO, 2006, p. 67) É
na ampliação de significado que se encontra a literariedade. Esses versos
afirmam que a mulher amada confia no poeta e, devido a isso, compartilhou com
ele os seus objetivos. Uma das funções do ensaísta é cogitar sobre as
possibilidades hermenêuticas de interpretação, mas cabe ao leitor entender como
melhor lhe aprouver.
Certa vez, o poeta Manoel de Barros (1991, 1992, 1994, 1996) ensinou
como se fazem poemas. Na sua opinião, o escritor deve atribuir a um verbo,
substantivo ou adjetivo funções que o vocábulo não possua. É o que Borges Netto
faz na maioria das situações. Por exemplo, um ser humano, claro, respira. O
poeta diz que “teu pequeno corpo adormecido / Respira suavemente.” (NETTO,
2006, p. 68) Na sequência, escreve que “os braços estendidos, imóveis / Prontos
para abraçar o sonho / Impossível de aprisionar.” (NETTO, 2006, p. 68) Como se
sabe, um ser humano, um animal ou uma coisa podem ser abraçados, não um sonho.
Raciocínio igual pode ser feito com relação ao verbo “aprisionar”.
O sentimento com relação à mulher, embora a arte se encontre numa fase
indefinida quanto à denominação de escolas literárias, pois não se sabe se esta
época é pós-colonial, pós-moderna ou qualquer outra, os escritores parecem
retroceder à juventude e artística loucura da geração romântica de Gonçalves
Dias, Casimiro de Abreu ou Castro Alves. Dentro dessa reflexão, entende-se o
exagero do adjetivo: “Em minha espera eterna / Te observo despertando
lentamente.” (NETTO, 2006, p. 68)
É no inusitado da construção frasal que se encontra o poético: “A manhã
joga pela janela / Um vento frio.” (NETTO, 2006, p. 68) Paul Verlaine chegou a
dizer que era poeta para não ter de dizer, por exemplo, que o dia amanheceu
gelado. Ele não gostaria da facilidade do discurso cotidiano. Os poetas Armindo
Trevisan, Carlos Nejar ou Rossyr Berny agem da mesma forma e por isso
realizaram a melhor poesia do estado.
A dubiedade também reveste a literatura de poesia. Uma frase comum que
traga apenas um significado dificilmente alcançará o nível de arte da palavra.
“Misturado ao teu suor / De noites mais quentes” (NETTO, 2006, p. 68) dá o tom
sensual do poema, mas, para um leitor sem malícia (ainda existem os ingênuos),
pode significar apenas os 40 graus que de vez em quando impossibilitam que as
pessoas durmam com tranquilidade, a não ser com ar-condicionado.
Borges Netto, como já mostrou No
Abismo de Rosas, desenvolve um estilo diferente de literatura, não muito
comum. Ele faz poemas, contos ou romances, analisando a sociedade pela ótica do
macho. As mulheres, nesse contexto, são belas e objetos de adoração e posse. Um
homem, principalmente se machista, não a vê como uma pessoa, mas como uma obra
de arte: “Apenas reflito tua beleza.” (NETTO, 2006, p. 69)
Existem vários sensos comuns a respeito da admiração que os machos têm
pelas fêmeas. Muitos dizem que gostariam de ser o tapete por onde elas passam,
ou as suas roupas, o seu batom, os seus acessórios. O poeta ingressa nesse
clima: “Este tapete que em todas as manhãs / Recebe com carinho os teus pés.”
(NETTO, 2006, p. 69)
Até os objetos transmitem a aura da beleza feminina:
No assoalho, um alfinete jogado
Que ontem prendia teus cabelos
Naquele efeito especial
Que só tu consegues
Repousa na espera de teu olhar. (NETTO, 2006, p.
69)
Outro lugar comum (e o que no amor ou no jogo da sedução não se torna
clichê?) é o amante considerar a amada a mais linda de todas, até porque o
filósofo Montaigne (1996) já ensinou que, para se conquistar uma bela, a
maneira mais fácil é elogiando-a. “Confesso com certeza / Que não há no mundo /
Mulher mais bela que tu.” (NETTO, 2006, p. 69) Os versos não apresentam figuras
de linguagem. Portanto, não poderiam ser considerados literatura, mas registram
a forma de os homens refletirem e fazem com que os leitores machos se
identifiquem. Os homens se espantam com a perfeição do rosto feminino e as
curvas, as ancas, as pernas, as nádegas, os seios. Uma mulher, na visão do
macho reproduzida por Borges Netto, é uma galeria de arte, respirando a beleza
por todas as células.
O verdadeiro macho, se religioso, agradece a Deus todos os dias por ter
à disposição uma das belas, por admirá-la em momentos íntimos, por vê-la sem
roupa, quase não acreditando que mereceu esse presente: “Percebo como és bela /
E como é divina a minha vida.” (NETTO, 2006, p. 69)
O eu lírico não parece acreditar no senso comum segundo o qual a pessoa
pode estar só na multidão. Para ele, ruas movimentadas, grande fluxo de gente e
tráfego interagem com o escritor. E isso até faz sentido, porque os artistas da
palavra se importam com os outros para transpor as vivências ao texto, aos
versos, às páginas de um romance: “Se bem que Gravataí / Não tem tantas ruas /
Como as grandes cidades / Para sufocar esta agonia de andar só” (NETTO, 2006,
p. 70), “Tento manter as janelas abertas / Para deixar a sala ser invadida /
Pelo adocicado aroma de província.” (NETTO, 2006, p. 70)
Certa vez o poeta Gastão Torres (1983, 1983, 1994) disse que os poemas
devem conter frases prosaicas para criar um clima comunicacional e amparar os
demais versos. Nesse contexto, o poeta deve inserir versos sofisticados com
figuras de linguagem, como “que banha tudo de suave primavera”, toque lírico
que dá um tom poético, convidando a natureza para integrar essa dança com
palavras.
Algumas expressões batem forte na sensibilidade do leitor. “Embriagado
de labaredas” (NETTO, 2006, p. 71) é uma delas. O novo dessa imagem causa
estranhamento, e isso acaba se tornando importante: um escritor não pode
oferecer apenas o que se espera. Aristóteles garantiu que, agindo assim, obterá
sucesso, mas se distanciará de proposta literária original. Julio Cortázar
(1993, 1998) dizia que literatura é a tentativa de terminar com o que se fez e
construir de novo. Mas o que Borges Netto procura através da palavra? O sucesso
ou a criação de qualidade?
MARICÁS FLORIDOS
Poemas, 2001 – Livro 11
Já no começo, como se fosse uma dedicatória, segundo a ABNT 14.724, o
fragmento de um verso diz apenas que o poeta, como homem, sente atração por
determinado tipo de mulher. Em tese, se ficasse apenas nisso, não seria um
poema, uma vez que não explora a significação. Frase prosaica não é poesia. No
entanto, o final do trecho convida o leitor para encher as lacunas: “Se elas
estiverem lendo um bom livro, então.” (NETTO, 2011, p. 44) Não traz figuras de
linguagem e, mesmo assim, convida o leitor a pensar. O poeta deseja mulheres
que raciocinem, gostem de cultura, evitem a conhecida futilidade de só ficar
bem consigo mesmas quando gastam o dinheiro dos maridos nas lojas de um
shopping. Quase se poderia dizer que o escritor aprecia mens sana in corpore sano, a sempre lembrada frase latina, mas com
relação à mulher com quem pretende se relacionar.
No primeiro poema chamado “O Piano” (NETTO, 2011, p. 58), registra
imagens delicadas. “O toque suave da saudade”, também por causa do ditongo
assonante em “au”, mostra ao leitor que está diante de um poeta. “A frieza da parede” (NETTO, 2011, p. 58), no
contexto, funciona como os adjetivos estranhos e belos de uma Clarice Lispector
e dá um ar melancólico ao texto.
Igual a inúmeros poetas, Carlos Drummond de Andrade entre eles (e não há
exagero ao citar o poeta de Itabira), viaja à infância, num percurso traçado
pelo sentimento: “Me transportando numa viagem / De sonhos impossíveis / E um
ninar de paraíso” (NETTO, 2011, p. 58), embora os versos também possam ser
interpretados como o aconchego da mulher amada.
Mas por que chamar a presença de Drummond, se o poeta mineiro é
considerado o maior do Brasil, e Borges Netto se consolidou talvez como o maior
escritor da história de Gravataí? Porque ambos trazem algumas figuras de linguagem
contundentes, mas grande parte dos versos, 80% quem sabe, abriga frases comuns
do cotidiano, como se os dois tivessem interesse em se comunicar. Isso é
positivo ou negativo? Depende do gosto literário do leitor.
Talvez a música seja propulsora de alguns poemas e textos de Borges
Netto. A prova é o romance No Abismo de
Rosas e figuras de linguagem, como “só o piano solitário / Enfrentando a
solidão.” (NETTO, 2011, p. 59) Há poetas que chegaram ao exagero de pensar os
seus poemas como se fossem canções. Stéphane Mallarmé, por exemplo, não
desejava escrever literatura. Preferia compor sinfonias com palavras,
explorando os mais variados tipos de assonâncias, aliterações, rimas toantes e
outras. Borges Netto não ingressa nesse patamar, até para o bem da literatura,
que precisa ter significado. Poesia não é apenas som e ritmo, como desejava o
francês.
Como Rainer-Maria Rilke já alertou, alguns temas são difíceis de
abordar, porque centenas e até milhares de poetas escreveram a respeito. O
vocábulo “sonho” é um deles, mas Borges Netto surpreende ao criar imagem
original para o caso: “Eu pendurado em meus sonhos” (NETTO, 2011, p. 60),
provando não ter medo de enfrentar os assuntos mais difíceis e ainda se saindo
bem em termos artísticos.
Entrando numa situação erótica, Borges Netto pode ter escrito a figura
de linguagem sensual mais artisticamente bem construída da literatura
brasileira, embora, é verdade, poucos escritores enveredem por esse caminho:
“Ofertou ao meu paladar / O sabor da maçã do seio / E me embriaguei / Com duas
taças de expectativa.” (NETTO, 2011, p. 60) Mas o autor se viu forçado a
modificar esses versos para declamá-los em escolas.
Outra marca importante de Borges Netto é o resgate do passado de
Gravataí e de tudo que envolva a sua história. O poema “Espera” (NETTO, 2011,
p. 62), conforme assinala no rodapé de 4
Livros de Poemas, é o preferido do autor para declamar nos colégios da
região:
Quando as estrelas se escondem
Pouso no silêncio da minha dor
Este envolvente silêncio
Que me abraça
Me afaga e me afoga
Enquanto te espero.
O desejo da mulher, no passado, não era permitido. As belas eram
repreendidas quando mostravam interesse por sexo. Pelo menos nesse ponto, o
autor mostra pensamento contemporâneo: “O ardor lascivo do teu olhar” (NETTO,
2011, p. 65) é uma imagem que não o autoriza a ingressar na pornografia. A
continuação do poema expande o sensualismo do autor:
As horas ganham velocidade
A noite não compactua com a espera
E a janela escurece
Mas a
vigília segue
Na paixão desordenada
A te imaginar no leito
Na espera de realizar meus sonhos
E esgotar até a última energia
Represada em teu corpo. (NETTO, 2011, p. 65)
Às vezes, a mulher se assemelha a um ser inalcançável, como se o poeta
retornasse ao romantismo. Ele a vê passar, e algo mexe com sua alma: o
sentimento, a atração, a carência. Mas o poeta não a toca; em muitas ocasiões,
apenas a cumprimenta. O eu lírico se sente aprisionado pela mulher, pela
exuberância feminina, pelo sexo delicado, por um simples olhar:
Teu olhar
Ínfimo olhar
Sem sugestões
Sem coisa alguma
Insignificante
Como insignificante
Também é a pedra que cai
E provoca a avalanche
Que põe por terra
A montanha milenar.
Por isso o medo me abraça
Sufoca meu sonho
Enquanto brinco
De não te perceber
De não te olhar
Enquanto tu passas.
Mas meu íntimo,
O verdadeiro eu é réu confesso
Da centelha dispersa no ar
Da energia contida em teu foco
E tento me dissolver no anonimato.
Mas teus olhos
São redes e aprisionam
Recolhem tudo e a todos
E eu, mais do que todos
Sou prisioneiro de tuas retinas
Saltitantes meninas
A brincar de vigor
Enquanto caído de amor
Te vejo passar. (NETTO, 2011, p. 65)
Quem sabe por ter vindo da roça, o autor possui forte ligação com a
natureza. Uma bela paisagem o influencia. Mais que isso, ele deseja entrar no
jogo da relação entre o homem e a fauna ou mesmo a flora: “Quero comandar a
natureza / E ordenar a todas as borboletas do mundo.” (NETTO, 2011, p. 66)
Nesse contexto, desenvolve figuras de linguagem que aproximam a poesia da
mulher amada: “Repletas de primavera / Atraídas pelo néctar de teus lábios.”
(NETTO, 2011, p. 66) O sofrimento do ser humano, principalmente da mulher,
reveste as imagens que podem se transformar em referências literárias: “Pelos
confins de tua melancolia / Pelos paredões de tua ilusão perdida.” (NETTO, 2011,
p. 66) Marcel Proust escreveu “Em Busca do Tempo Perdido”, no qual procurava a
essência da identidade de parcela dos seres humanos.
Borges Netto não é um pessimista como Schopenhauer e Machado, mas, volta
e meia, algum verso sem esperança o ataca, parecendo dizer que a vida não é um
oceano límpido e calmo. Este poema é profundo em desesperança e fala do que
encontramos no dia a dia, na futilidade da aparência. Aborda as pequenas mortes
do cotidiano:
Nas manhãs leves
Que rondam nossas vidas
Sei que está próxima
A última primavera.
Durante o longo percurso
Os enigmas não resistiram
À clareza da vida
E o poema do desencontro
De nossos braços se desfez
Ante as inevitáveis marcas
Sulcadas em tua doce face
E em teus cabelos tingidos
Na busca da juventude. (NETTO, 2011, p. 66-67)
PASSEIO, A CRÔNICA DE UMA VIDA 1ªedição
Poemas, 1996 – Livro 08
Quando Borges Netto publicou Passeio,
crônica de uma vida em 1996 pelo Clube Literário de Gravataí, ele o chamou
de crônica, mas o hibridismo do texto, mesclando passagens da vida a figuras de
linguagem, poderia merecer um patamar elevado na literatura: a poesia. Embora
todos os gêneros necessitem de criatividade, estudo, dedicação, treinamento no
ato da escrita e leitura, talvez a poesia seja o gênero nobre. Não se trata de
escrever uma frase embaixo da outra, referindo-se aos poetas amadores que só
dizem “eu te amo, tu me ama e nós nos amamos”. Poesia é concisão, síntese,
riqueza de significação, imagem, metáfora, sinestesia, catacrese, ritmo, rima;
enfim, é melopeia, fanopeia e logopeia.
O hibridismo em literatura foi amplamente analisado em Escrituras híbridas - estudos em literatura
comparada interamericana (1998). Talvez até se pudesse incluir o livro Passeio, de Borges Netto, em tal
reflexão, visto que há a mistura de gêneros. O nível de linguagem é poético e,
dessa forma, está incluído na sequência das obras poéticas nesta Natureza da Palavra.
Outro fato que chama a atenção é que talvez não exista no Brasil, mas
com certeza não há no Rio Grande do Sul, texto híbrido com essas
características.
Misturar gêneros literários é comum. Depois de Joyce, vários escritores
enveredaram por esse caminho, principalmente mesclando narrativa com poesia. Ulysses e Finnegans Wake não vinham em forma de versos, mas num emaranhado
textual com inúmeros recursos estilísticos. Borges Netto narrou e poetizou sua
crônica sexual. Dependendo do leitor que se deparar com essa obra aparentemente
despretensiosa, poderá classificá-la como novela, ainda que não abrigue todos
os elementos do gênero, como poesia, porque traz metáforas, sinédoques e outras
figuras de retórica, minicontos ou até mesmo crônicas. Entretanto esse livro é
tudo isso ou não é nada disso, porque da mescla surge o novo. A temática é a
mesma: os relacionamentos amorosos do eu lírico e percorre a enumeração de
fatos.
Já no poema de abertura (chamado “Pai”), aparecem dois aspectos da
poesia - o eco e uma figura de linguagem: “E verões de tardes ensolaradas /
Onde a enxada é o instrumento / De minha total devoção.” (NETTO, 1996, p.
4) O eco está nas sílabas “ada”, e a
imagem é a última parte do verso.
Da mesma forma que na literatura épica, o introito anuncia do que o poeta
se ocupará nas páginas seguintes. Mas a aproximação com o épico fica só nesse
detalhe:
Também o é o lápis e o papel
Que carrego na expectativa de registrar
A grandeza do meu pai
E da vida que nos cerca. (NETTO, 1996, p. 4)
Em alguns momentos, escreve períodos de linguagem comum, a fim de apoiar
as metáforas e sinestesias. Mário Faustino (1977) afirmava ser impossível
compor versos puros. O prosaico também deve se misturar à grande arte. Nas
seguintes estrofes, percebe-se que a primeira sustenta a segunda; é uma espécie
de esclarecimento do que virá:
Esta fase
Que chamo de fase do paraíso
Segue até meus dezenove anos.
Dela levo campos de pastagem
Os mais verdes recantos dos meus sonhos
Soprados pela eterna brisa
Que sempre à tardinha
Deixava tudo impregnado com o puro hálito
De coisas que ainda estão para chegar. (NETTO, 1996, p. 4)
O tema principal de Borges Netto, embora tenha perambulado por vários
assuntos, é a natureza, a agricultura, a roça. Por isso se lembra do carro de
bois, dos canteiros, do chapéu de palha: “O ranger das rodas da carreta de bois
/ A conformidade dos canteiros / E a figura imponente do meu pai / Chapéu de
palha.” (NETTO, 1996, p. 4)
A figura de linguagem: “Chuvoso como os demais invernos de minha vida
(NETTO, 1996, p. 4)” – é dúbia, como tem de ser, mas expõe diferenças das
outras metáforas e sinestesias do autor. Ao mesmo tempo, é uma linguagem
prosaica e figurada, porque tanto pode significar o inverno realmente chuvoso,
como a precariedade existencial.
A melopeia não é amplamente trabalhada, mas, de vez em quando, oferece
algum recurso: “Tomate toma tempo” (NETTO, 1996, p. 5), explorando a aliteração
em “t” e “m”. Mas não se importa com as rimas, ecos, aliterações e assonâncias.
Prefere o significado e uma que outra figura retórica.
No final do poema “Tomate”, Borges Netto insere um desfecho que amplia o
significado, bem ao estilo de Paulo Hecker: “E fica mais fácil / Reconhecer o
ciclo que me espera (NETTO, 1996, p. 5)”. O porto-alegrense produzia versos
prosaicos e somente no fim ajeitava imagens. Borges Netto escreve dessa forma
em vários poemas. Nesse, entretanto, expandiu o significado com uma frase
comum. Fernando Pessoa dizia que apenas os grandes conseguem isso. Escrever
palavra rica em significação com figuras de linguagem é bem mais simples. Basta
conhecer a teoria.
No poema “Mudança”, garante ser “fascinado pela magia / Do mobiliário de
escritórios” (NETTO, 1996, p. 5), e isso é fácil de compreender. Afinal, passou
a juventude na roça. Qualquer coisa diferente é capaz de surpreendê-lo e de lhe
chamar a atenção. E, conhecendo a sua biografia, por esse motivo tal verso,
embora em linguagem denotativa, aumenta o significado.
Quando fala dos primeiros amores, talvez empolgado com a reminiscência,
narra as situações com poucas figuras de linguagem. O livro foi publicado como
se fossem crônicas, não poemas. O objetivo do autor era registrar sua memória,
as situações marcantes da sua vida com as belas que, em última instância, é o
que vale. Então lembra o envolvimento com uma filha de pescador. Os demais
trabalhos se aproximam da poesia. O envolvimento com uma prostituta também é
narrado com linguagem denotativa, sem imagens do mesmo jeito como se passou com
a filha do pescador.
Em termos de estilo, opta por escrever sem vírgulas. Inúmeros escritores
já fizeram isso, como Rossyr Berny. A vantagem desse recurso é que dá uma
sensação de leitura contínua, uma vez que não há pausas, apesar de que alguns
leitores podem criá-las sempre que o verso mudar de uma linha a outra.
Alguns versos iluminam a obra, dando a impressão de que se trata de
poesia, não de crônica, mesmo que haja aspectos de ambos os gêneros. “Que chega
para molhar as almas” (NETTO, 1996, p. 9) é um deles e tem o poder de causar
estranheza no leitor. Muitas vezes uma figura de linguagem, fora do poema,
talvez não desperte a sensação que o leitor poderia ter se lesse o texto por
inteiro. Há versos que comprovam a categoria de Borges Netto: “A madrugada
(...) Invade cada bocejo” (NETTO, 1996, p. 10). Guilhermino César já afirmou
que poesia é imagem. “De hábitos eternos” (NETTO, 1996, p. 13) é um complemento
nominal com a força da poesia, porque surpreende no seu inusitado. As imagens
de Borges Netto explicam melhor as situações: “A motocicleta reclama” (NETTO,
1996, p. 15). Em inúmeros textos, inicia com fatos, mas não deixa de oferecer
momentos líricos: “Santa Clara é uma pequena cidade do interior / Do interior
do Estado / Do interior de mim mesmo.” (NETTO, 1996, p. 8)
Borges Netto parece utilizar mais figuras de linguagem nas descrições:
“O sol desaparece / Por trás do cinturão verde / Que abraça a cidade / Como um
pai ao filho.” (NETTO, 1996, p. 13)
Como já aconteceu em outras obras, é especialista em literatura
semipornográfica ou sensual. Esta passagem comprova isso: “No quarto ao lado /
Os gemidos e o ritmo úmido / Enchem o ambiente / De presença feminina.” (NETTO,
1996, p. 13)
No poema “Busca” (NETTO, 1996, p. 15), diz ter caminhado por dois meses
até o dinheiro acabar, como se fosse um poeta da Geração Beat, dos Estados
Unidos. Esses escritores, Allen Ginsberg, William Buroughs, Jack Kerouac,
viajavam, tinham experiências e escreviam sobre elas, mas também usavam drogas,
bebiam e experimentavam de tudo, o que não foi o caso de Borges Netto. Quando
se faz algo parecido com outros escritores, não é necessário trilhar o mesmo
caminho completamente. A literatura pode ser feita extraindo elementos e
recursos de estilo de gerações passadas para mesclá-los e produzir, dessa
forma, algo diferente. Esse raciocínio estruturou a antropofagia de Oswald de
Andrade. A cada percurso narrado, insere figuras que dão um clima poético ao
caminhar: “A humildade que sempre vestiu meus atos.” (NETTO, 1996, p. 15)
Em “Tina” (NETTO, 1996, p. 16), enquanto andava de moto, vê mulher na
estrada e oferece carona. Leva-a para casa, onde morava com a filha. Parece a
descrição – ou pelo menos parte dela – do livro A Amante do Rincão da Madalena. “E numa última olhada / Desejo o
corpo jovem de Tina.” A frase parece caracterizar a forma de agir do autor
mexido por todas as mulheres bonitas que lhe surgem à frente. E essa maneira de
agir ele transporta a todas as suas produções literárias, conto, novelas,
crônicas, poemas. É um autor masculino e faz literatura sobre homens e talvez
somente para eles. Mais uma vez, como já aconteceu nas outras confissões, vai
direto aos fatos, esquecendo-se de figuras de linguagem mais tocantes. Talvez
ele pense em despertar no leitor o sentimento sensual e por isso não invista no
poético, embora o relacionamento sexual muitas vezes se aproxime da nobre arte
da palavra.
No poema “O Café da Noite” (NETTO, 1996, p. 17), a descrição da mesa se
parece, mais uma vez, com a da novela já referida. Isso não quer dizer que A Amante do Rincão da Madalena seja uma
história autobiográfica, pois a maioria dos escritores, para não dizer todos,
sempre escreve a respeito ou do que se passou com eles, ou do que lhes
contaram, ou do que viram acontecer. A literatura de certa forma descreve o
autor, define-o; é o autor. Por isso Flaubert disse que Madame Bovary era ele próprio – e não mentiu.
Num conto de Sergio Faraco, a personagem principal se espanta com a
arrumação das coisas de uma prostituta recém instalada num cabaré de fronteira
e, devido a isso, vai embora. Em Passeio,
Borges Netto percebe a simetria das xícaras (NETTO, 1996, p. 17) da mulher que
aceitou carona na moto e já se dispôs a sair com ele e a fazer mais do que
isso. A mulher aceita ir para a cama com ele, atitude que está se tornando cada
vez mais rotineira entre as fêmeas do país, e, antes que o ritual comece, o
autor ativa sua mente escrivinhadora a fim de reproduzir a cena, como fez em Passeio e na Amante do Rincão.
Por isso ao menos lembro
De reparar nos detalhes do ambiente
Para mais tarde
Recordar com carinho
Este encontro inesquecível. (NETTO, 1996, p. 17)
“A vida é uma eterna falta de sentido.” (NETTO, 1996, p. 21) Ainda que a
frase não abrigue figura de linguagem, amplia o significado; afinal, por que a
vida não teria sentido? Falta-lhe a crença religiosa? Não compreende as
injustiças da sociedade? Está descrente do homem? O que estaria pensando? Em
trechos como esse, o poeta convida o leitor para que preencha “o espaço entre a
letra e o espírito” e faça as suas reflexões.
Quando vai até a praia e percebe Emília vasculhando o local onde
estivera instalado o casebre da família, constrói uma figura de linguagem
delicada que empresta um caráter lírico à situação: “A cena da tarrafa sendo
jogada e nos aprisionando.” (NETTO, 1996, p. 23)
Qual o significado da mulher para o escritor? É uma companheira das
“andanças” da vida? O próprio Borges Netto se referiu dessa forma à sua esposa.
Mas parece que as mulheres que surgiram antes não passam de objetos sexuais. Ao
descrevê-las na praia, afirma: “Não fossem as mínimas dimensões dos biquínis /
Que por aqui desfilam.” (NETTO, 1996, p. 23) Ou seja, elas não se mostram como
pessoas, mas como biquínis, que, por sua vez, denunciam o exibicionismo
gratuito de coxas, nádegas e seios à mostra, sempre desejando parecer o objeto
sexual mais arrasador, atiçando os hormônios masculinos e humilhando as
concorrentes na disputa para ver quem é o objeto mais cobiçado.
Ainda que o escritor não se interesse pelo poema-piada (ao menos não
compôs grande quantidade de trabalhos assim), deixa escapar um chiste: “O
quarto nos espera / E detesto deixar que me esperem” (NETTO, 1996, p. 17), pois
a situação nada tinha a ver com gentileza. Alguns poetas da geração de 22 ou da
primeira leva de poetas modernistas apreciavam esse gênero literário, que eles,
embora não tenham desenvolvido, aperfeiçoaram.
No poema “Pés Trinta e Cinco” (NETTO, 1996, p. 25), parece que esse
detalhe é importante e desperta o instinto hétero. O fato é que pés diminutos
são fetiche para os chineses, na mesma proporção que nádegas enormes enfeitiçam
os tupiniquins, e seios grandes, os norte-americanos. Por que esse detalhe
feminino chamou a atenção do eu lírico?
No mesmo poema, faz homenagem a Antônio Carlos Resende, porque insere,
no contexto, uma frase que caracteriza a moça e lembra o nome de uma novela do
referido autor: “E era “magra mas não muito / As pernas sólidas morena” (NETTO,
1996, p. 25). Dante fez inúmeras referências a respeito de políticos,
escritores e artistas. Ezra Pound reescreveu The Waste Land, de T.S. Eliot, e também acomodou diversas
referências na obra do futuro Prêmio Nobel de 1948.
Borges Netto lembra Ernest Hemingway e “As Ilhas da Corrente” (1970).
Talvez seguindo os passos do mestre norte-americano, Prêmio Nobel de 1954, fala
de pescarias e desenvolve sua literatura pela ótica do macho, como fez o autor
de O Velho e o Mar (1952). Além
disso, as frases de ambos são curtas, como as de todos os escritores
contemporâneos. Porém quem sabe o velho boxeador (Hemingway praticou a nobre
arte dos punhos) não gostasse destes versos do seguidor gravataiense: “Quando
termino de preparar a corvina / Comprada diretamente dos pescadores” (NETTO,
1996, p. 27). Depois de ter escrito que o velho passou dias em alto-mar, apenas
para conseguir peixes, imagina o que pensaria de um discípulo que, em vez de
pescar, prefere comprar.
Como já aconteceu em outras obras do autor, a paisagem é descrita com
figuras de linguagem:
A tarde se despede lentamente (...)
As estrelas brincam no céu
Num piscante festival
Prontas para ser derramadas
Sobre as árvores e os telhados. (NETTO, 1996,
p. 29)
Na
sequência, trata das estrelas e recorda Olavo Bilac, autor de:
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto. (NETTO,
1996, p. 30)
É um ambiente propício para se sentir extasiado pela natureza e pela
presença de uma bela mulher, afora a tranquilidade da despovoada praia
litorânea. Num livro sobre composição poética, ainda inédito, o autor acredita
que a natureza tem o poder de inspirar os poetas. A natureza influencia o
trabalho dele e de alguns outros, que a transformam em literatura e oferecem
aos leitores.
Em outro poema, “Carmem” (NETTO, 1996, p. 30), descreve uma mulher com
dois versos prosaicos e uma figura de linguagem: “Desembarca do ônibus / Com
uma pequena mala / Lotada de jovialidade”. O caso de Borges Netto é
compreensível: ele deseja trabalhar a memória e registra seus amores com
figuras de linguagem.
Um das características do texto de escritores profissionais, como
explica Othon Moacyr Garcia (1986), é o tópico-frasal no início do parágrafo e
a subsequente comprovação dessa frase com algumas ideias. Borges Netto não está
escrevendo um parágrafo clássico no poema “Quarenta e Cinco Anos”, mas utiliza
a mesma estrutura, inserindo uma frase de significado geral no início e
explicando-a nos versos posteriores. Apenas essa primeira oração contém figura
de linguagem: “A sorte simpatizou comigo.” (NETTO, 1996, p. 32)
No poema “Quarto Minguante” (NETTO, 1996, p. 33), aproxima-se de Manoel
de Barros, que ficou a vida inteira observando e escrevendo sobre a natureza,
utilizando sinestesias: “Em voos rasantes / Duas gaivotas coreografam próximas
/ Um balé de subsistência.”
O verso “Na cama o cigarro arde dentro da noite.” (NETTO, 1996, p. 35),
do poema “Cinzas”, de alguma forma lembra “O Primo Basílio”, de Eça de Queirós,
fumando depois de ter se relacionado com a prima, em encontros à tarde. Talvez
o poeta não tenha querido fazer referência literária ao romancista português,
mas a literatura anda interconectada, inter-relacionada. Um texto remete a
outro e a outro, ad infinitum. Mas essa conexão só é percebida por leitores
experientes, acostumados a enfrentar os grandes textos. Um iniciante não se
daria conta e, por isso, não teria essa fruição.
No poema “Júlia” (NETTO, 1996, p. 36), relembra a opressão de ter se
relacionado com uma mulher de maneira compromissada. O nome, que registra um
acontecimento marcante na vida do autor, já que o livro em questão trabalha a
autobiografia dele, aparece em outros momentos, como A Amante do Rincão da Madalena e Erosão.
Numa literatura que retrata o mundo pela ótica do macho, talvez seja
normal os homens se sentirem desconfortáveis com uma fêmea bem resolvida que
não se constrange em mostrar o “seu eterno cio”, embora outros adorem esse
comportamento. E talvez por isso ela ocupou os labirintos confusos do
raciocínio dele (NETTO, 1996, p. 37).
Borges Netto faz um poema-oração às mulheres e mostra o tradicional
pensamento machista da maioria dos homens:
Oração
Livrai as mulheres
Deus
De suas ideias loucas
E desvairadas de emancipação.
E de quebra
Senhor
De suas dores de cabeça
Nos meus dias de tesão. (NETTO, 1996, p. 38)
Outro poema explica o porquê de o autor ter se interessado por escrever,
contar histórias, compor um livro de crônicas-poemas em forma de autobiografia,
escrever novelas e contos. Parece que está organizando o seu caos interior, até
para dar sentido à vida:
Abrir um vazio num depósito da alma
E esperar que o carregador do tempo
Harmoniosamente empilhe todos os fardos?
Alguém precisa se preocupar
Com a coordenação de tanta bagagem
Ou não conseguirei sobreviver
Entre tanta desordem. (NETTO, 1996, p. 39)
JOGOS DE CALÇADA
Poemas, 1989 – Livro 02
Seu livro de poemas Jogos de
Calçadas traz um cabedal de imagens. “Realidades resumidas no copo” (NETTO,
2010, p. 38) fala de homens que despejam a vida no álcool. Muitos acreditam que
aproveitar a existência é beber e incomodar os outros com música elevada - um
dos problemas dos dias atuais. Os versos captam o que pensamos e como agimos.
“O barco saboreou as ondas” (NETTO, 2010, p. 38) é uma forma diferente
de dizer uma frase comum. “Acariciava as águas salgadas.” (NETTO, 2010, p. 38).
Borges Netto encontra o poético em situações corriqueiras. Já a vida dos comuns
é tratada diferentemente em “o barco chegou macio / como o voo da gaivota /
que, apesar de não sonhar com o horizonte, / sempre sumia na curvatura do mar.”
(NETTO, 2010, p. 38)
“Vomitando detritos” (NETTO, 2010, p. 39) é sinestesia, recurso usado
por Manoel de Barros (1991, 1992, 1994, 1996), que utiliza os verbos nos
momentos em que não poderiam ser empregados. “A geografia do teu olhar” (NETTO,
2010, p. 45) conta os mistérios da mulher. Todas são lindas, mas, quando se está
apaixonado, apresentam ainda mais exuberância. “Divorcia tua boca desse corpo”
(NETTO, 2010, p. 49) diz muito do que os homens pensam das mulheres. Traz
pensamento machista na entrelinha. Alguns acham que as belas destroem os
relacionamentos com discussões e queixas sem sentido, criam problemas do nada e
estão eternamente insatisfeitas. Esses mesmos homens pensam que a mulher só tem
valor por causa do corpo. Tudo isso resume o olhar machista. Em alguns
momentos, a produção de Borges Netto é uma literatura heterossexual. “Enquanto
deitado à borda / Acariciava as águas salgadas” (NETTO, 2010, p. 38) parece,
mais uma vez, sintetizar o que alguns machos pensam das fêmeas, até porque,
para eles, as mulheres não passam disso. O pescador ama as águas do mar, porém
nunca esquece o sal. Com as mulheres, esse tipo de homem pensa da mesma forma:
elas são lindas, mas difíceis, insuportáveis, na realidade.
“A guerra é chorada pela paz do
silêncio” (NETTO, 2010, p. 46) fala dos conflitos armados como se abordasse
outro mote. Alguns escritores mesclam frases comuns a uma que outra imagem. E
quase todos escrevem assim. Mário Quintana é um deles. “A cortina está ali, mas
separa pai e filho” (NETTO, 2010, p. 51). Esse relacionamento é complexo. O
poeta discorre sobre a problemática, mas poucos sabem que a maioria dos
conflitos poderia ser evitada. É o estresse do cotidiano que faz algumas
pessoas descarregarem seus traumas nos que estão mais próximos, como os membros
da família.
O poema aborda o desejo e expande o significado: “Será loucura sonhar em
ter tua pele morena na palma da minha mão?” (NETTO, 2010, p. 53) “Jacarandá,
tua chuva de flores” (NETTO, 2010, p. 54). Essas figuras de linguagem despertam
o poético. Mas o poema Jacarandá abriga um final surpreendente, como se fosse
conto. Edgar Allan Poe desenvolveu a teoria do conto e a expandiu ao poema.
Disse que o desfecho deveria ser inusitado.
Borges Netto critica a Igreja. Na sua visão, os sinos incomodam as
pessoas, muitas vezes porque os padres os badalam às 8h da manhã, num domingo,
por exemplo, quando a maioria dos pais de família está tentando recuperar as
forças de uma semana inteira de trabalho. No mesmo poema, o eu lírico afirma
que o padre não acredita no que lê, e os fiéis comparecem mais por distração.
O sino badala
A pequena igreja badala
E o badalo estraçalha casas
Desloca estruturas
E segue campo afora.
Agita ovelhas
E espanta os cavalos.
Vacas assustadas
Disparam na direção do riacho
Antecipando o apocalipse.
O padre
Detrás do oratório
Já não crê no que lê
E a multidão
Só aparece por distração. (NETTO, 2010, p. 39)
Compor figuras de linguagem concatenadas, como se estivesse escrevendo
uma história por meio de sinestesias, era muito do gosto de Machado de Assis.
No entanto o maior escritor do Rio Grande do Sul, Moacyr Scliar, criticou o
autor de Dom Casmurro por isso. Na
poesia de Borges Netto, na sequência, o escritor gravataiense usa a mesma
técnica, inclusive inserindo o vocábulo “coração”, para obter resultados com a
nova roupagem, até porque mistura poesia com os conhecimentos de agricultor, e
da mescla pode nascer o novo: “A semente do meu espírito / Ficou plantada nos
corações / E para que germine / Basta irrigarem meus versos.” (NETTO, 2010, p.
35)
O JARDIM CHINÊS DE PU-UAN
Contos, 2004 – Livro 12
Os escritores são diferentes como as pessoas. Borges Netto escreveu
poemas, novelas, crônicas/poemas e contos. É um escritor variado, porém sua
visão de mundo segue focada. O autor analisa a sociedade pela ótica do macho. E
talvez fosse impossível agir de maneira diferente. A teoria da literatura
pós-colonial, inserida na pós-moderna, aborda autores que trabalham a sua
realidade com a sabedoria de quem sofreu na pele, de quem vivenciou o que está
contando. Dessa forma, quem melhor entende do pensamento masculino é o homem.
E esse pensamento volta a aparecer no primeiro conto de O Jardim Chinês de Pu-Uan (NETTO, 2004,
p. 09). O pai de Carlinhos se
envolveu com uma mulher do bairro e nunca mais voltou. Quantos homens agem
dessa forma? Milhares.
Como poeta que é (ou seria prosador?), Borges Netto insere figuras de
linguagem em momentos inusitados e constrói uma sensação lírica na cena: “O
andar gostoso da filha do velho Hans, aquele toque de céu no olhar, as ondas da
ressaca no desalinho do cabelo” (NETTO, 2004, p. 12), também relembrando ou
mesmo fazendo homenagem aos “olhos de ressaca” de Capitu, do velho Machado.
A narração acontece no momento da leitura, o que dá um caráter mais
literário ao texto. Antonio Hohlfeldt (1984, 1985, 1988, 1998), sempre que
analisa o conto de algum escritor, preocupa-se com cenas bem desenvolvidas,
caso de Borges Netto. A personagem Lucas decide enfrentar a possível fúria do
velho Hans a fim de que pudesse devolver a pandorga recém caída no pátio
daquele senhor. O problema é que circulavam histórias a respeito do velho. Mas
não precisou solicitar permissão: subiu no telhado, pegou a pandorga, ouviu
barulho de chuveiro e decidiu ver o que era, até porque boa parte do teto ainda
não tinha forro. Era Júlia, a filha do velho, que ele estava observando há
dias, indo e vindo da escola. O autor faz a personagem fugir, devolver a
pandorga e retornar. A moça, num semiconvite, recepciona-o com esta frase:
“-Pensei que não viesse.” (NETTO, 2004, p. 19) E o conto se encerra, dando a
oportunidade para o leitor preencher o “espaço entre a letra e o espírito”.
No conto seguinte, “Estranhos Fenômenos de L.”, um rapaz busca um quarto
para morar e passa horas lendo as cartas que mandou para a mãe. Numa delas, diz
ter encontrado um centauro (NETTO, 2004, p. 27). A cena parece homenagear
Moacyr Scliar, que publicou O Centauro no
Jardim em 1980. Mas, ao contrário do sul-rio-grandense, a personagem em
Borges Netto é uma centaura, que preencheu o ambiente com os seios fartos
(NETTO, 2004, p. 30). Porém a centaura não era uma figura mitológica: estava
mais para um transformista, por se dividir em metade mulher, metade homem
(NETTO, 2004, p. 31).
O Jardim Chinês de
Pu-Uan apresenta
melhor qualidade de texto que alguns livros anteriores. Além de escrever frases
curtas e de ritmo harmônico, como devem ser as obras contemporâneas, o autor
parece evitar problemas de som, como ecos (rimas indesejadas), colisões
(encontros de sílabas com o mesmo som no final de um vocábulo e no início do
subsequente), aliterações (repetição de consoante) e assonância (repetição de
vogais).
Quando menciona a magreza da personagem Eleanor, mais uma vez apresenta
sua visão masculina e tipicamente brasileira da mulher: as moças, para os
tupiniquins, devem ter coxas grossas, quadris largos e seios grandes, afora a
cintura fina. “Quem iria querer uma mulher (...) tão magricela?” (NETTO, 2004,
p. 28). Por isso Gretchen e Rita Cadilac tiveram sucesso no seu tempo, e as
mulheres-fruta acenderam o desejo dos machos nos anos 2000.
O final do conto amplia o significado, como deve ser em literatura. A
personagem principal em nenhum momento lê uma carta enviada pela mãe, e não
está claro se mandou as suas para ela. Ele pede para a mãe entrar em contato, e
aqui está o ponto que faz o leitor pensar: por que a mãe se distanciou dele?
Por que o rapaz tinha de viver meio escondido em quartos paupérrimos, sem a
ajuda materna? Que tipo de problema ou desavença teria acontecido? O autor não
precisa descrevê-los, porque o espaço em branco é um convite para que o leitor
o preencha. Afinal, muitos já se afastaram dos progenitores por algum motivo.
Cada leitor entenderá a passagem conforme sua experiência de vida.
O conto seguinte, “No meio do nada” (NETTO, 2004, p. 35), parece dar
continuidade à história de Lucas. Wilson Martins certa vez disse que Clarice
Lispector não era romancista, mas contista, porque concatenava narrativas
curtas num todo homogêneo. Mas ela fazia longos poemas em prosa. A respeito de
Borges Netto, embora tenha dividido Jardim
Chinês em contos e o classificado como tal, a obra se assemelha a uma
novela bem-organizada, porque traz a mesma personagem em situações diferentes.
E a visão masculina das coisas, da sociedade e do mundo não fica para
trás: “A quantidade, mais que a qualidade, passou a ser a filosofia mais
adequada naquele tempo.” (NETTO, 2004, p. 37) Um homem normal não pensa dessa
forma? Com os sensos comuns tipicamente masculinos, como “o que cair na rede é
peixe?” Alguns homens, com relação às mulheres, agem da seguinte forma: sendo mulher,
ótimo.
Em algumas passagens, tem-se a impressão de que Borges Netto é um
contador de histórias, como ele próprio se classificou. Mas, em certos
momentos, devido às figuras de linguagem, assemelha-se a um poeta, como no
trecho: “Álcool ricocheteando pelos corredores da sobriedade” (NETTO, 2004, p.
37), “o álcool sacudindo o cérebro, interrompendo as correntes elétricas entre
os neurônios” (NETTO, 2004, p. 38).
Raramente Borges Netto faz crítica a algum aspecto da sociedade. Porém,
no conto “Avenida Farrapos”, talvez sem perceber, debocha da Brigada Militar:
“Também não perseguiam ladrões; não estariam indo com tanta velocidade.”
(NETTO, 2004, p. 44) O autor parece mais interessado em explorar as facetas da
vida do macho brasileiro sulista no final do século XX, início do XXI. Não é do
seu interesse analisar questões políticas ou econômicas.
Quando descreve a atendente da Rodoviária: “Usava uma saia de gabardine
suficientemente apertada para ressaltar a curva das coxas” (NETTO, 2004, p.
46), é difícil o leitor homem não se identificar, pois é exatamente assim que
os machos heterossexuais pensam: todas as mulheres são observadas, analisadas,
desejadas e até classificadas.
Ficar em silêncio e falar pouco é outra característica de machos, embora
existam alguns que falem bastante: “Lucas é assim. Adora dirigir em silêncio e
com uma companhia calada.” (NETTO, 2004, p. 71)
Os aspectos históricos de Gravataí marcaram a vida do escritor. A ponte
da cidade é comentada por ele umas quatro ou cinco vezes ao longo da sua obra.
Neste livro, aparece dessa maneira: “Nele o passado flui pelos labirintos da
memória. Naquela época não era esta ponte de concreto e sim uma construção
metálica com gigantescas barras de ferro, com mil parafusos, trançada dos lados
e em cima.” (NETTO, 2004, p. 71) Linhas abaixo explica o mistério que envolvia
a ponte na sua imaginação: “Considerou a estrutura da ponte como um filtro,
onde os maus hábitos eram coisas da cidade grande. A perversão, a prostituição,
a insônia, a bebida alcoólica, ou qualquer outra coisa que lembrava o inferno
às beatas, como coisas que aconteciam do outro lado da ponte.” (NETTO, 2004, p.
72) Mais um comentário a respeito esclarece o porquê de ser tão importante para
o imaginário do escritor: “— Quando eu era menino pensava que a ponte era obra
de Deus.” (NETTO, 2004, p. 72)
O conto “Os Anjos no Quintal” (NETTO, 2004, p. 77) é forte para um
leitor que já tenha sido pai e que ama os seus filhos, porque trata de bebês
abortados e escondidos no pátio da casa. O aborto significa o assassinato de um
ser inocente que ainda não conhece a maldade humana. É nisso que trabalha o
conto. Mas, em síntese, é um conto de atmosfera. Não relata uma estória, apenas
acumula palavras no sentido de criar um ambiente desagradável com relação aos
abortos.
No conto “Duas Horas”, o autor parece disfarçar um preconceito que a
maioria dos machos tem sobre as mulheres. Muitos deles pensam que as belas
estão sempre nervosas e, por consequência, apresentam comportamento
desequilibrado e às vezes agressivo: “E o que seria das mãos delicadas de uma
mulher apaixonada se não houvesse motivos para nervosismo.” (NETTO, 2004, p.
83) Na verdade, o autor não dá elementos para que se tirem essas conclusões.
Elas foram desenvolvidas, porque fazem parte do senso comum do que os homens
pensam das mulheres. Borges Netto escreve sobre isso. Seu tema é a visão da
sociedade pela ótica do macho. Não se interessa por fazer o contraponto, mostrando
a visão da mulher. Talvez ela seja a adversária do macho no convívio social,
até porque muitos afirmam a seus pares: “O que temos de aguentar só para ter o
sexo delas?”
“No Fio Mágico” (NETTO, 2004, p. 88), aborda outra faceta do macho: a de
sumir quando a mulher engravida. Talvez não haja percentuais a respeito, mas
uma grande quantidade de homens abandona as mulheres nessa situação. As vilas
mais carentes estão repletas de mulheres sozinhas que tomam conta dos filhos.
Essa é quem sabe a maior qualidade da maioria das mães, enquanto os homens
mudam o endereço para usufruir de uma mulher mais nova e cheia de curvas, não
dando importância aos pequenos.
Os contos vêm como personagem principal Lucas, mas em situações
diferentes. Isso pode acontecer na vida de qualquer um. Por que Lucas não
poderia ter sido artista plástico, entregador de pães e desempregado? E por que
Lucas não poderia ter tido várias mulheres? Um homem normal geralmente visita a
cama de todas as mulheres que permitirem. Borges Netto utiliza diversos nomes
para mulheres, até para caracterizar o comportamento do macho, que tenta
“pegar” o maior número delas. Mas a personagem, pelo menos nesse livro e talvez
para fazer a ligação entre as histórias, chama-se Lucas.
FOI ASSIM...
Contos, 1989 – Livro 03
Alguns escritores têm por costume reescrever infinitamente os seus
textos. Machado de Assis, ao contrário, negava-se a refazer ou mesmo revisar a
sua produção de tempos anteriores. Borges Netto publicou a coletânea de contos Foi Assim em 1989 e, em 2004, aproveitou
algumas dessas narrativas no livro O
Jardim Chinês de Pu-Uan, talvez na tentativa de encontrar a pureza do
estilo.
Como já fez algumas vezes, no conto “957” (NETTO, 1989, p. 08), um
militar inventa músicas para assobio. É outra forma de aproximar a literatura
da música, só que, desta vez, por um meio diferente.
No Jardim Chinês, a personagem
Lucas conecta as histórias, aparecendo em diversas fases da vida e dando a
entender que o livro pudesse funcionar como uma novela. Em Foi Assim, Lucas também é citado, mas como uma de tantas
personagens. É mais ou menos assim que escreveu Balzac, fez inúmeros romances e
contos, e personagens secundárias de uns eram protagonistas dos seguintes.
“O Tigre Doido” traz uma faceta ainda não trabalhada pelo autor. O homem
perde a esposa, mas, em vez de ficar triste, alegra-se, porque recém adquirira
um apartamento, para o qual almejava levar todas as fêmeas que pudesse
conquistar, ou mesmo prostitutas: “- Mulheres, entrem no cio, porque o tigre doido
está à solta.” (NETTO, 1989, p. 23) Os machos também gostam de binóculos, para
garimpar mulheres descuidadas ou exibidas. Rapidamente tal passagem é citada.
Além disso, a maioria deles acredita que as fêmeas (e o termo está empregado na
forma exata, porque as mulheres têm serventia para os homens somente como
fêmeas, segundo a visão de Borges Netto) ficam desfilando para mostrar sua
beleza. Na opinião dos machos comuns, as fêmeas são obras de arte que têm
apenas duas funções: ser admiradas e usufruídas: “Madames e empregadas (...) se
exibiam num desfile exuberante.” (NETTO, 1989, p. 30)
Quando as fêmeas se mostram (ou pelo simples fato de estarem vivas), os
homens comuns se veem incomodados, ouriçados, provocados e já pensam nos corpos
delas: “Chico suava, pensava em mil coisas, milhões de planos, que iam do rapto
ao simples galanteio.” (NETTO, 1989, p. 33)
O conto “Magricela” (NETTO, 1989, p. 33) enfatiza os ossos de uma
mulher. Assim a expressão “magricela” funciona como pejorativa. Homem comum não
gosta de osso, mas de carne e de volume. O desfecho o aproxima de Dalton
Trevisan, que só falava de sexo vulgar: “Ficou apenas o gosto da língua
atrevida, com seu sabor de feijão requentado e carne cozida.” (NETTO, 1989, p.
34)
A maioria dos homens vai a cabarés. As “mulheres da vida” estão por toda
a parte em Borges Netto. A antologia Foi
Assim não é diferente. No conto “O Botão de Rosa Vermelho”, o marido compra
uma rosa para a esposa diarista, mas, enquanto anda por uma rua do centro, uma
prostituta lhe surge à frente e o convida para o sexo. O homem lhe dá o
presente da esposa e entra no quarto. Essa atitude é bem típica.
Tecnicamente, os textos não obedecem à estrutura clássica do conto
desenvolvida por Edgar Allan Poe. Estão mais para fotografias de instantes do
cotidiano, como é a característica da crônica praticada no Brasil. Mas os temas
são os mesmos que voltarão a povoar o imaginário do autor nos livros
subsequentes: mulheres, prostitutas, bar, violão.
Borges Netto produziu uma passagem com a meta de abrir leve sorriso no
leitor, não uma gargalhada, porque não tem o objetivo de se transformar num Jô
Soares ou Ernâni Ssó. Está mais para o humor fino de um Machado de Assis, que
também não era comediante, mas fazia rápidos deboches, almejando ridicularizar
o ser humano. Borges Netto pretende fazer gozação das fêmeas, ressaltando o
exagero muitas vezes cometido por razão nenhuma: “Desembarcou [do ônibus] no
ponto seguinte, reclamando a presença de um advogado, pois, conforme
declarações, foi deflorada no percurso da porta traseira à dianteira e
precisava, urgente, mover um processo de averiguações de paternidade.” (NETTO,
1989, p. 76) Trata-se de outro pensamento típico de machos, para os quais as
mulheres só criam problema e aumentam de proporção qualquer coisa que lhes
tenha acontecido.
ENTREVISTA COM BORGES NETTO
E.J.: O nome literário sempre tem
algum fundamento muitas vezes teórico. De onde vem a denominação de Muralhas de Cristal?
B.N.: Minha mãe falava de uma
radionovela inesquecível chamada Algemas
de Cristal, e aquele título ficou na minha memória até que compus o poema
"Valsas". Antes da publicação, e para participar da 1ª Mostra
Cultural de Canoas, elaborei um panfleto com alguns desses poemas e que
denominei Poemas ao Acaso. Foi a
certeza de que eu de fato queria aquela publicação. O poema que deu origem à
obra se chama Valsas.
"Valsas
Valsas
Saudosas
valsas
Deslizando
pelo salão
Em
sapatinhos de cristal.
Lá fora
As muralhas
impenetráveis.
E as valsas
Saudosas
valsas
Que tocam
fundo ao coração
Rompem as
muralhas
Infiltram-se
na alma.
Agora sei:
Estas
muralhas são de cristal
E as valsas
De
metal."
E.J.: Explique como se deu o processo criativo de Muralhas de Cristal.
B.N.: Este livro foi fruto de minhas angústias de
adolescente, passadas na lavoura. Naquela época, não tinha autocrítica e tudo
que me vinha à cabeça ia escrevendo. Imaginava que o que se escrevia podia ser
publicado. Ali tem coisas que hoje não publicaria, mas fui fiel na segunda
edição e na composição da antologia 4
Livros de Poemas, somente fiz ajustes de revisão devido ao amadurecimento.
Era muita pretensão um lavoureiro ser poeta. "Fui lavoureiro até os 20
anos. Meus irmãos já estavam trabalhando em Porto Alegre, inclusive o mais
novo, quando finalmente decidi abandonar a lavoura. Em mim ficou aquele jeito
de lidar com as plantas, que, se não ajuda, também não atrapalha. Penso que
nunca deixei de ser lavoureiro." Trecho da 2ª edição.
E.J.: Geralmente, segundo informações estatísticas
de vários editores, a poesia está em último lugar em termos de vendagem. Por
que decidiste fazer a segunda edição, juntando os teus quatro livros de poemas?
B.N.: São as angústias que nos jogam na poesia. É
uma literatura rápida no sentido de amenizar as energias em ebulição e que se
torna agradável devido ao enorme tempo em que exercitamos nossa capacidade de
buscar o belo das palavras, nas trocas necessárias, nos ajustes. Quanto à
reedição, os leitores novos, quando se deparam com um autor, acabam querendo
conhecer toda a obra, e os títulos mais antigos esgotados são cobrados.
E.J.: Em geral os teus livros não apresentam
prefaciador. Por que isso?
B.N.: À exceção da 1ª edição de Muralhas de Cristal, prefaciado por Antônio Hohlfeldt, os demais
não possuem prefácio. O prefácio se presta para apresentar a obra ao leitor, e
como acredito que isso quebra um pouco da magia pelo inesperado, e dificilmente
leio o prefácio de um livro antes de terminar a leitura, optei por não ter um
prefácio. Também não dedico meus livros a pessoas conhecidas, pois acredito que
o livro é dedicado ao leitor.
E.J.: A alimentação intelectual do escritor se dá de
duas formas: viver, como pregava Flaubert, e ler. O que tu lês?
B.N.: Inicialmente fui um grande leitor de ficção
científica: Arthur Clarke, Isaac Asimov, Paul Anderson. Depois pulei para José
Mauro de Vasconcelos, Richard Bach, Hemingway, Marguerite Duras, Moacyr Scliar.
E.J.: Na análise sobre o livro Jogos de Calçadas, tu utilizas de três a quatro figuras de
linguagem por texto poético. Isso significaria que tu trabalhas cada poema e
dás menos importância à inspiração. Machado de Assis e outros escritores
afirmaram que não existe inspiração em literatura. O que há é trabalho. O que
tu pensas disso?
B.N.: Concordo plenamente com Machado de Assis. O
que nos acostumamos a chamar de inspiração nada mais é do que um estímulo ao
pensamento que acaba desencadeando uma atividade criadora. O autor deve estar
preparado para o exercício de dar continuidade a esse estímulo. Produzir um
texto independe de inspiração, mas da capacidade do autor em fazer-se entender
no que escreve, ser dotado de bons argumentos e fluidez na escrita. E isso só
se atinge sendo um grande leitor. A exemplo, cito a crônica na qual se
necessita apenas do tema, argumentos e fluidez na escrita, nada de inspiração.
E.J.: A quase totalidade dos escritores ou mais
veteranos
renegam
suas primeiras obras. Tu, no entanto, publicaste o primeiro trabalho escrito
aos 11 anos (“Descoberta do amor” em Jogos
de Calçadas). Por que agiste assim?
B.N.: Costumo preservar os meus escritos. Quando
encontrei em meus blocos de anotação o poema escrito na adolescência, apenas
fiz ajustes, levando em conta meu amadurecimento, minhas leituras e o
transportei à nova realidade. Renegar um trabalho me parece como renegar um
filho. Outro exemplo é a 3ª edição de A
Amante do Rincão da Madalena, que recebeu uma releitura. Houve um
amadurecimento como autor, e necessitei fazer ajustes. O livro foi partido em
quatro momentos, buscando as quatro estações, e novas cenas foram incluídas,
como a visita à Igreja Nossa Senhora dos Anjos, pois uma boa amante precisava
estar em harmonia com o divino. Além disso, aproveitei para enaltecer a
importância arquitetônica do prédio, visando a que os leitores se
identificassem um pouco mais com a cidade. É só exercício, exercício e
exercício para o texto ser oferecido ao público. A obra é um produto como outro
qualquer e temos sempre que ofertar o melhor que conseguimos.
E.J.: Geralmente o que te comove para escrever é a
natureza e o sexo feminino? Que outros aspectos da vida mexem contigo para que
tu transformes em literatura?
B.N.: Não costumo escolher temas. Procuro escrever
sobre tudo que estiver relacionado com o meu dia a dia. Trazer a natureza em
muitos poemas pode ser relacionado com o fato de eu ter saído muito tarde da
roça, só aos 20 anos. Levando em conta que meu espírito estava em formação,
levou junto uma forte parcela.
E.J.: Como poeta e escritor, te sentes com alguma espécie
de obrigação de cantar as belezas de Gravataí, descrever e resgatar as
personagens e a história do município?
B.N.: Quando escrevo, não existe obrigação ou
preocupação em enaltecer a cidade ou mesmo resgatar sua história. Não posso
escrever sobre o que não conheço. Jamais colocaria uma personagem em Nova
Iorque. O máximo que faria é criar uma cidade imaginária, como fiz em O Lorde do Casarão (Mirim) ou em Limites de Segurança. Situo minhas
personagens sobre uma base sólida, ou seja, as cidades que conheço, e conhecer
uma cidade me faz falar de suas belezas, sua história e seus moradores.
E.J.: Como já escreveste um romance abordando a vida
de um tocador de violão, e alguns dos seus poemas trazem figuras de linguagem
sobre música, tiveste alguma pretensão de ser instrumentista? Se a resposta é
positiva, de que forma esse gênero artístico influenciou a tua literatura?
B.N.: Quando jovem sonhava em ser violonista.
Comprei um violão na minha juventude, frequentei escola, professor particular e
nada. Não tenho habilidade nem talento. Diria que a frustração é a palavra chave,
e a literatura nos permite isto: realizar nossos sonhos.
E.J.: Conte de que maneira se iniciou a ligação da
tua literatura com as escolas de Gravataí.
B.N.: Há
um tripé em Gravataí que faz a aproximação de autores e escola: Fundarc,
Biblioteca Pública e Feira do Livro.
E.J.: Quantas palestras já deste?
B.N.: Foram muitas escolas em conjunto com
saraus: Fundação Bradesco, Paulo Freire, Parque Florido, Jerônimo, Parque dos
Eucaliptos, Antonio Gomes Correa, Mascarenhas de Moraes (Cachoeirinha),
Rondônia (Canoas), Ulbra, Barbosa Rodrigues, Gomes Jardim (Canoas—Patrono),
Gensa, Dora Dimer, Supletivo Mestre, Santa Rita, Colombito, Timóteo da Fonseca,
Dom Diogo de Souza (POA), Dolores Alcaraz Gomes (POA). Além de sarau na Casa de
Cultura de Esteio, Casa de Cultura Mário Quintana, Casa do Leite
(Cachoeirinha), Fórum Social (POA), Habitasul (POA), Snack Beer, Hospital
Conceição (POA), Kaiser, Wotan, escadaria da rua 24 de maio (POA). Aproveito para
destacar as oficinas do CEDUGRA e para a Guarda Metropolitana, além dos saraus
Ulbra e Barbosa Rodrigues.
E.J.: Quantos livros já vendeste?
B.N.: Não saberia dizer quanto já foi vendido,
mas sei qual o mais procurado: A Amante
do Rincão da Madalena, que neste ano segue para a terceira edição, agora
revista.
E.J.: Já foste patrono de feiras escolares de
livros?
B.N.: Para mim a mais importante participação
foi ser o patrono da Feira do Livro de Gravataí em 1997: o reconhecimento da
minha cidade para com minha obra.
E.J.: A solidão também faz parte do teu cotidiano e
da tua literatura?
B.N.: Não faz parte do meu cotidiano, mas da
minha literatura. É um dos melhores temas para trabalhar. Uma vida feliz, com
família que se completa, dificilmente é um bom tema para ser desenvolvido. Não
a solidão de quem vive só, em isolamento, mas a solidão daqueles casados, ou
mesmo vivendo em grupo, por não haver entre eles entendimento. Lembro aqui a
solidão de minha bisavó negra e meu bisavô chinês que nem ao menos falavam a
mesma língua. Viviam juntos pela necessidade de sobrevivência.
E.J.: O álcool ajuda, atrapalha ou não faz diferença
na produção da tua literatura?
B.N.: O álcool atrapalha. Literatura se faz com
esmero, sensibilidade e sobriedade, mesmo que a personagem central seja
alcoolista. Não creio que Charles Bukowski tenha criado suas personagens
alcoolizado.
E.J.: No poema “Espera”, fizeste uma rápida apologia
ao “silêncio”. Porém as grandes cidades, e Gravataí está se tornando uma delas,
a cada dia oferecem mais barulho. Como a literatura, que precisa de silêncio
para ser gestada e produzida, convive com a balbúrdia urbana?
B.N.: Os fatores externos não influenciam no
desenvolvimento do trabalho. Costumo escrever durante outras atividades.
Normalmente não produzo no silêncio total ou na calma, mas entre uma atividade
e outra. Quando estou em férias, dificilmente escrevo. Há que se ter um olho no
texto e outro nos fatos.
E.J.: No
poema “O Sino”, de Jogos de Calçadas,
tu fazes crítica às igrejas, com o barulho dos sinos, o padre que não crê no
que lê e os fiéis que se dirigem às igrejas mais por distração. O que pensas da
religião?
B.N.: É necessária aos que necessitam; é
dispensável aos que não necessitam.
E.J.: És católico, ateu ou seguidor de outra igreja?
B.N.: Esta é uma pergunta bem difícil. Fui
batizado pela Igreja Católica, e isso se dá por hereditariedade. Hoje não
possuo crença. Entretanto reconheço meus deveres como cidadão quando realizo
anualmente campanhas de agasalho, Natal, Páscoa e Dia da Criança, visando
amenizar as diferenças sociais. Tenho ação social inclusive dentro de uma
aldeia indígena com plantio de pomar. E essas atividades deveriam ser
contempladas também pelas Igrejas. Os cultos religiosos prestados às divindades
me interessam apenas como mantenedor da ordem e servem para embasar minhas
personagens. Gosto de saber todo o ambiente religioso, os rituais, os
sentimentos, mas não segui-los. Creio ser ateu, mas nunca me aprofundei no real
significado disso. E não tem muita importância. Basta respeitar quem cultua e
esperar ser respeitado por não cultuar.
E.J.: De que forma a religião influencia a tua
literatura?
B.N.: Apenas na composição das personagens.
Procuro me orientar mais pela católica, que é onde se tem o maior domínio público,
que está mais enraizada na sociedade.
E.J.: A escolha de um Papa argentino influenciou de
alguma forma a tua crença?
B.N.: Não.
Continuo descrente com as religiões. Entretanto reconheço que minha base veio
da católica, como narro em O Romance de Gravataí,
em suas páginas 59 e 60. Esse livro traz algumas informações adicionais, e lá
na página 170 justifico algumas indagações que me afastaram definitivamente da
Igreja. Meu pai foi Festeiro da Igreja de Fátima comandada pelo Padre Cláudio,
e foi daí que retirei conhecimento para fundar a Associação Literária e depois
o Clube Literário, mas a Igreja Católica achou por bem afastá-lo das
atividades.
E.J.: De onde surgiu a ideia e como se deu a
fundação da Associação
Literária e
do Clube Literário de Gravataí? E como são escolhidos os seus membros?
B.N.: A Associação Literária surgiu com a criação da
FUNDARC — Fundação Municipal de Arte e Cultura. As artes foram organizadas em
grupos, e incentivada a criação de associações e seus estatutos. Criaram-se a
Associação de Artes Plásticas, de Artes Cênicas, de Músicos e de Literatura. O
projeto visava a um amplo cadastro no município de interessados em ler e
escrever. Após meu quinto mandato, houve rumores de novas lideranças e preferi
não aguardar as eleições. Incomodada com minha saída, saiu também a poetisa
Tami Caureo. O Clube Literário foi criado um ano depois, quando se esgotou
oficialmente o término do meu mandato, e a poetisa Tami Caureo necessitava de
um grupo de apoio para o lançamento de seu primeiro livro. Então recrutei novos
integrantes, outros dissidentes e formamos o Clube Literário, sendo a obra Meu Eu, de Tami Caureo, o primeiro livro
com o selo Clube Literário. Os membros são escolhidos para mandato de dois anos
dentre seus integrantes, não sendo relevante o fato de ser escritor para
integrar a diretoria.
E.J.: O que tu buscas com a literatura?
B.N.: Busco lazer. Algumas pessoas vão ao parque, ao
circo, andam de bicicleta. Eu vou às letras. Isso me completa, me faz vencer
desafios e situações, preenche o meu tempo.
E.J.: Tanto a personagem Júlia, de A Amante do Rincão da Madalena,
como o
casal Júlia e Lione, de Erosão,
viveram em São Paulo. Existe algum motivo especial para teres escolhido essa
cidade?
B.N.: Fora o fato de ter morado em São Paulo e por
lá ter conhecido minha companheira Denise Jorge, não há outro motivo especial.
Como gosto de escrever apenas sobre cidades que conheço, visando evitar falar
de coisas que desconheço, sempre que preciso escrever sobre uma cidade
distante, relembro São Paulo. Isso tem causado alguns fatos curiosos. A
exemplo, cito a apresentação em escolas quando os alunos trabalham com A Amante do Rincão da Madalena. A
primeira pergunta é se minha esposa se chama Júlia. A seguinte é sobre a cidade
de onde minha esposa veio. E a terceira é sobre qual a profissão dela. É a
velha questão de leitores associarem o autor à personagem.
E.J.: Tens alguma fixação pelo nome Júlia?
B.N.: Não recordava da existência de duas
personagens com o mesmo nome. Normalmente os nomes surgem ao acaso e nunca
pensei em dedicar um nome conhecido a algum personagem. A exceção do Darci
Nardini, de O Romance de Gravataí,
onde de fato ele é a personagem. Também Reni César e Paulo Emílio, colegas de
Ensino Fundamental, que tiveram os nomes em O
Cantor. Os outros são pura obra do acaso. Não tive uma namorada chamada
Júlia, mas creio ser um bom nome para ficção.
E.J.: O estilo e o ritmo de texto são marcados por
frases curtas. Os melhores escritores trabalham dessa forma, porém alguns optam
pelo excesso de vírgulas em períodos muito longos. Por que optaste pela frase
curta? Isso é pensado ou saiu ao natural?
B.N.: Essas coisas surgem ao natural. Gosto de ler
um livro e imaginar as cenas através dos diálogos. Encontrei neste processo
aquele que mais contempla o que gosto de encontrar num livro: frases curtas.
Diálogos com frases longas parecem tão monótonas.
E.J.: Tiveste algum preconceito por parte dos
leitores por que o livro Erosão trata
de casal lésbico?
B.N.: Nenhum leitor se manifestou quanto a isso. Até
porque procurei apenas contar uma história que me parecia simpática de duas
garotas cuidando de uma chácara, sem me preocupar muito com detalhes que
pudessem parecer embaraçosos, diferente de A
Amante do Rincão da Madalena. E veja que precisei retocar a narrativa para
atender aos professores nesta 3ª edição.
E.J.: E por que um autor que faz literatura
masculina se interessou pelo tema do lesbianismo?
B.N.: A ideia surgiu e escrevi com foco em duas
mulheres que cuidavam de uma chácara, sendo uma delas a secretária e a outra
uma artista plástica renomada. Não dei ênfase a suas preferências sexuais.
Considerando que escrevo com foco em minhas vivências, estarei sempre compondo
literatura masculina, onde consigo me aprofundar mais, enquanto Erosão ficou num relacionamento mais
superficial.
E.J.: Em algum momento, revelaste ter participado de
cursos de formação de escritores. Poderias falar a respeito deles e o que foi
relevante?
B.N.: Participei de alguns cursos e oficinas de
literatura na Biblioteca Municipal de São Paulo. Entretanto não os considero
relevantes. O que me dá base à escrita é a leitura. É o que amadurece o meu
trabalho. Esses cursos foram importantes naquele momento, quando precisava
trocar ideias, buscar alternativas, analisar textos. Hoje entendo que o que faz
uma obra boa é o exercício de reescrever, reescrever e reescrever.
E.J.:
Muitos dos poemas tratam da mulher amada ou de mulheres de modo geral, e parece
que, em muitos desses relacionamentos, aconteceu alguma coisa de errado, pois
as belas estão distantes. Como se dá a participação do belo sexo na tua
produção?
B.N.: O amor correspondido traz menos recursos para
a construção de poemas. Nada aconteceu de errado nos relacionamentos. É que
prefiro trabalhar com a dor, e, na ausência dela, sou forçado a criá-la. Minha
atual companheira me acompanha desde 1987 e estamos envolvidos num clima
excelente, o que é pouco criativo. Então crio situações de dor, de despedida,
de tristeza para compor meus versos.
E.J.: O
livro Erosão parece ter sido escrito
com a estrutura de folhetim, ou seja, feito para ser veiculado em colunas de
jornal, uma vez que as frases do desfecho de cada capítulo são impactantes e
despertam o interesse do leitor ao mesmo tempo em que o fazem pensar talvez na
história ou na sua própria vida. Tiveste intenção de publicar esse livro em
fascículos na imprensa?
B.N.: Quanto ao livro Erosão, não me recordo do motivo de tê-lo escrito diferente dos
demais. Talvez tenha sido influência do que eu estivesse lendo naquela época,
mas não vou lembrar qual. Para falar a verdade, não percebi que a escrita
destoou dos demais.
E.J.: No
livro Passeio, misturaste crônica e
poesia. De onde veio essa ideia? Apenas Mario Benedetti trabalhou dessa forma.
B.N.: Quanto ao Passeio,
é uma história de que gosto muito. Ali pude colocar todos os meus anseios,
todas as frustrações, tudo o que pensava quando trabalhava na lavoura e sonhava
com o que ia encontrar na cidade grande. Como queria um livro de crônicas,
desenvolvi as situações para ter um livro de crônicas, e a primeira edição saiu
no formato de prosa. Para a segunda, criei alguns elementos poéticos para
lapidar aquelas crônicas inventadas e das quais tanto gostava, e mudei o
leiaute dos blocos escritos para o formato de poesia. Entretanto mantive o
gênero crônica, pois os elementos poéticos são insuficientes.
E.J.: No
poema “Morte”, de Passeio, dá a
entender ao leitor que a personagem Júlia cometeu suicídio. Como a obra é
autobiográfica, isso realmente aconteceu? Foi daí que o nome Júlia te marcou e
apareceu em outros livros?"
B.N.:
Eduardo, sempre considerei o Passeio
como crônicas do imaginário, mesmo tendo consciência de que a maioria das
situações ali descritas são realidades. Talvez por não querer me comprometer,
tal o número de situações com mulheres. Afinal, tive cinco uniões estáveis, mas
a atual se prolonga por mais de vinte anos, 26 para ser exato. As primeiras
crônicas (Pai, adolescência, Tomate -
fui plantador de tomates nos dois últimos anos em que fui lavoureiro -, Mudança e Carreteiro) são realidades. Já
a crônica seguinte, A menina dos
papa-terras, criada para a 2ª edição, é fruto da minha imaginação, apesar
de o cãozinho Nero ali descrito fazer parte da minha infância. Esses pescadores
que surgem nas narrativas busquei em Garopaba/SC, onde por diversas vezes
participei do grupo de artes da Fundarc que ia àquele município para os
Encontros de Artes dos Municípios Açorianos. As pensões destas crônicas retirei
de São Paulo, quando lá cheguei na década de 1980. Logo após o lançamento de
meu primeiro livro, Muralhas de Cristal;
morei em diversas pensões. A maioria dos envolvimentos descritos é de minha
imaginação, inclusive a Denise de Seara, apesar de este ser o nome de minha
companheira, e de Seara ser o nome que inventei para ocultar "a minha
praia", que é Balneário Gaivota, de onde retirei as características
narradas. Também é fictícia a situação sobre a tal Júlia, que graças a ti tomou
uma forma na minha linha de raciocínio. Não recordo o que imaginei à época,
mas, analisando hoje, percebo que era a finalização da carreira amorosa da
personagem central, a morte da companheira, que leva às reflexões uma tragédia
grega e a “aposentadoria” do varão, pois na crônica seguinte o vejo (ou seria
me vejo?) como padeiro de sessenta anos, com um olhar de lobo para a cliente
Chapeuzinho Vermelho, e me acho no direito de pedir ao cardiologista que seu
medicamento urinante não me cause disfunção erétil. A crônica seguinte é Oração, quase um apelo a Deus da
personagem para suportar a complicada convivência com o sexo frágil, o que não
é o caso do autor, que está cansado do suceder de companhias que não se
perpetuam ao seu lado para acompanhá-lo na velhice. O mesmo argumento segue em Vazio e Retorno. Na sequência, tudo aponta para o desfecho do Passeio e da vida daquela personagem.
E.J.: Num dos últimos poemas de Passeio,
alguns versos dão a entender que tu escreves para colocar tua vida em ordem. O
objetivo é esse mesmo? Pôr ordem no caos da vida cotidiana?
B.N.:
Quando escrevi Passeio, publicado em
1996, era algo experimental. Queria um livro de crônicas e não tinha muitos
assuntos para abordar. Então imaginei todas aquelas cenas com mulheres, algumas
com base na realidade, mas a maioria são imaginárias. Quanto a colocar a vida
em ordem, por experiência sabemos ser impossível, assim como na literatura.
Quando não conseguimos realizar as coisas, escrevemos.
E.J.: Em
“Tina”, poema do livro Passeio,
enquanto andava de moto, vê uma mulher na estrada e oferece carona. Leva-a para
casa, onde morava com a filha. Parece a descrição – ou pelo menos parte dela –
do livro A Amante do Rincão da Madalena.
Tem alguma coisa a ver?
B.N.: Esta
situação de passar por mulher na estrada sempre desperta curiosidade e interesse:
Quem é ela? O que faz? Seria boa companhia de jogos? E o que está fazendo por
ali? O que quer? É um chamariz? Para onde vai? Que história tem para nos
contar? Daria uma boa personagem? Essa curiosidade que tenho sempre que passo
por uma mulher na estrada me fez incorrer na repetição da cena.
E.J.: Em
“Pés Trinta e Cinco”, chama-te a atenção os pés diminutos da moça. Por que isso
acontece? Em geral, apenas os chineses têm fetiche por pés delicados e
pequenos. Como sabe, a fissura dos tupiniquins são quadris largos.
B.N.: Por
descendência materna, tenho um pé na África e outro na China. Dos ancestrais
africanos, e por consequência dos brasileiros, trago o gosto pelo quadril
largo, do andar com malícia, mas não me furto a admirar um bem torneado pé de
uma dama sempre que é ofertado ao meu olhar. E por acaso o pé de Denise é
número 35. Puro acaso.
E.J.:
Acredito que fizeste uma literatura com o objetivo de explorar a visão de mundo
da sociedade e da mulher pela ótica do macho, razão pela qual defendo a ideia
de que desenvolveste a teoria do macho em literatura. Isso tudo foi espontâneo
ou premeditado?
B.N.: Tudo espontâneo. Jamais pensei em escrever
para firmar uma teoria; apenas para meus anseios e minhas distrações. Algumas
vezes parto das frustrações com algumas leituras, onde o autor poderia ter
escrito de outra maneira, realizar um desfecho diferente, e a história brota
natural e simples.
E.J.:
Graciliano Ramos garantiu só escrever a respeito de suas vivências, ou que
tivessem acontecido com ele ou que ele presenciasse. É o teu caso quando fala
das experiências com uma padaria?
B.N.: Não tenho compromisso com minhas vivências,
apesar de utilizá-las sempre que possível para dar credibilidade em algumas
narrativas. Nunca fui padeiro, apesar de esta profissão aparecer também em Passeio, a Crônica de Uma Vida. Sou um
dissimulador. Iniciei no meio rural, depois quartel, voltei para a lavoura e só
então para um escritório. Tinha um amigo, João Rippel, cujo tio era gerente do
Bradesco e conseguiu tirá-lo da lavoura. Fiquei tentado com a ideia. Fiz um
curso de datilografia em 20 dias e concorri a uma vaga na Cia Internacional de
Seguros, iniciando ali minha fase no escritório.
E.J.: Como
surgiu a ideia para o argumento do romance O
Lorde do Casarão?
B.N.: Eu era muito imaturo em
literatura. Atropelei regras básicas. Foi escrito no impulso. Terei muito
trabalho para a segunda edição. De qualquer forma a história nasceu quando
morava em São Paulo. A empresa pagava o almoço e eu levava um pote de plástico
para trazer a sobra e transformá-la no jantar. Após assistir à Crônica do Amor
Louco, do Bukowski, no CineSesc da avenida Augusta, desci pela avenida
Consolação. Quando cheguei em frente a um casarão abandonado, que é a foto da
capa, a história brotou completa. Então sentei no meio fio da calçada e
escrevi. A história veio com tal intensidade que não consegui parar de
escrever. Então jantei ali mesmo, pegando feijão, arroz e batatas fritas com
uma mão, enquanto escrevia com a outra. Toda aquela movimentação de travestis e
meretrizes pela minha sala de jantar migrou para a história. Passava da
meia-noite quando cheguei à pensão. Ainda tenho os manuscritos engordurados
daquele jantar.
E.J.: Alguns homens fazem uma espécie de lista das
mulheres que pegou. É o teu caso? Quantas foram, somando tudo? Fala sobre as
conquistas amorosas.
B.N.: Muitas pessoas imaginam isso. Não sou um
"pegador". É tudo fruto da minha imaginação. É simulação, mentira,
engano, fraude, lorota. A literatura permite isto: mentir e convencer que é
verdade. Me ajuda a vencer meus traumas. Nunca "cantei" uma mulher.
Sempre deixei que elas tomassem a iniciativa. Tenho medo do "não", de
não ser correspondido, de ser mal interpretado, e uma série de outras coisas.
Lembre sempre que sou homem da roça. Mais fácil me relacionar com a Mimosa.
Apesar de considerar cinco relacionamentos como sérios, todos foram por
iniciativa delas. O primeiro, aos 20 anos, com quem permaneci sete anos. Durou
até o dia em que ela disse: ou a literatura ou eu. A segunda conheci no bar
Alles Blau, na noite de Novo Hamburgo. Quando percebi, ela estava na minha cama
em Sapucaia do Sul. Durou três meses.
Foi contrato de experiência. Não fui aprovado. Com a terceira fiquei seis
meses. Uma amazonense de Parintins, a escritora e advogada Maria do Carmo
Lobato. A quarta, a Paulistana Esther, funcionária pública do BNH (lembra do
BNH?). A conheci num bar no Bexiga, em
São Paulo. Quando me dei por conta, estávamos na cama que era dividida com a filha,
ainda criança. Sufoco, maratona, barras assimétricas, argolas. Atletismo puro.
Às crianças precisam ser preservadas. Então namoramos por um ano e marcamos
casamento. Lua de mel no Pantanal. Lá se revelou. Tive vontade de jogá-la na
boca de um jacaré. Durou 20 dias. O tempo exato das férias. Voltamos de trem.
Cortamos o Brasil de Oeste a Leste, de Corumbá a Santos. 36 horas dentro de um
trem. Ainda vou escrever sobre isso.
E depois de jogar todas as minhas fantasias sexuais
na literatura, quando tinha decidido não mais ter uma parceira fixa, Denise
pega na minha mão. E já faz 26 anos. Sobre ela anexei três crônicas do próximo
livro. Perceba que a técnica é a mesma. Elas tomam a iniciativa. Mesmo no caso
da Denise, que a conheci quando com 23 anos e sendo eu seu primeiro namorado.
E.J.: Há
motivo especial para a escolha do nome Nardini como personagem principal de O Romance de Gravataí?
B.N.: Nardini é uma personagem real que não precisa
grande esforço para incorporá-lo numa obra de ficção. É avesso às normas
sociais, vivendo num mundo paralelo. Além disso, temos que considerar que é um
gênio das artes plásticas, um excelente poeta e um grande amigo.
E.J.: Por que escolheste um artista plástico para
servir de personagem principal de um romance? O que te chamou a atenção foi ele
desejar viver de um ideal, tirando o sustento da arte?
B.N.: Sempre quis incluí-lo num romance por ser uma
pessoa especial. Quando resolvi refazer o texto que se chamava A Vampirinha de Gravataí, quase uma
"História em Quadrinho", necessitei de uma personagem real, que as
pessoas pudessem encontrar na rua, um homem capaz de viver seus ideais e se
sustentar precariamente de sua arte.
E.J.: No Romance de Gravataí, pela metade do livro,
as personagens comentam que o prefeito de então, um professor de História (clara
referência a Daniel Bordignon), teria cogitado a possibilidade de mudar o nome
de Gravataí. De onde tiraste isso? Foi uma fofoquinha da época ou apenas
invenção ficcional?
B.N.: Foi uma invenção ficcional. De fato o prefeito
que inspirou a situação é o Bordignon. Como procurava enxertar três artistas da
cidade, Nardini, Lessa e Denise Lopes no enredo, utilizei o fato de o prefeito
ser professor de História para justificar a tentativa de mudança do nome para
Aquilea. Com isso preparei a possibilidade da continuação a partir do resgate
da estátua. Outra situação é o banco dos Fonsecas na beira do rio. Pura ficção.
Ainda sobre Bordignon, em conversas antigas com Denise Lopes, admiradora
incondicional do prefeito, cheguei a sugerir um título para outro romance
ficcional: Bordignon I, Imperador de Gravataí. Mas foi só brincadeirinha. Seria
embaraçoso.
E.J.: No desfecho do Romance de Gravataí, Nardini pergunta se Poeta gostaria de levar o
quadro da Vampirinha, e o escritor diz não. Porém, ao chegar ao litoral,
reencontra Raquel, que, suponho, seja a Vampirinha. A cena em si já é
literária, porque faz um convite para que o leitor reflita a respeito e ainda
faça conexões. Não seria uma boa ideia escrever uma novela sobre o relacionamento
entre Poeta e Raquel?
B.N.: Sim, Raquel é a Vampirinha. Creio ser bastante
complicado fazer uma continuação. Quando se fala que é a continuação da obra, o
leitor sempre espera os mesmos efeitos conseguidos no primeiro livro. José
Mauro de Vasconcelos escreveu a continuação do "Meu Pé de Laranja
Lima" com aquela história do "Sapo Cururu", mas não ficou a
mesma coisa. Assim também o é com "Rebecca" e O "Dossiê de
Odessa". Títulos populares do cinema como "Indiana Jones" ou
"Jurasic Park" também deixam bastante a desejar a partir do segundo
título.
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SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos sobre filosofia de vida. Rio de Janeiro: Ediouro, 1991.
SCHWARTZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo. 4.ed. São Paulo: Duas
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Porto Alegre: Movimento, 1983.
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VERISSIMO, Erico. O Continente. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
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WHITMAN, Walt. Folhas das folhas de relva. 6. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993.
Entrevista ao Correio de Gravataí
Borges Netto, indagado se o livro era mais ficção ou se atinha aos
fatos, garantiu utilizar as histórias para compor a espinha dorsal do romance e
procurou não dar muita asa à imaginação, a fim de não correr o risco de perder
o controle, o que geralmente acontece num livro de ficção. O escritor afirmou
que precisava ser o mais fidedigno ao que aconteceu, sem modificar a índole da
personagem. Segundo ele, as entrevistas foram gravadas e decodificadas até
formarem “blocos”, vinte e cinco “blocos” para ser exato. Depois experimentou
as melhores sequências sem alterar a cronologia. Borges revelou que as
personagens fictícias foram criadas apenas para completar os vazios, como no
diálogo dentro da cadeia para criar no leitor a sensação de tempo na cela.
Conforme Borges Netto, do capítulo “Às Portas do Céu” apenas o acidente é
verdadeiro, o restante não passa de ficção, e ali começa a busca pela memória.
O autor acredita que todos os indivíduos são uma história e merecem
deixar seu legado para o futuro, por menos importante que seja. No seu
entender, cada pessoa tem sua importância dentro da comunidade. No caso de
Pedro Paulino, comenta, o escritor sempre o ouvia contar seu passado e
considerava tudo pitoresco, material bom, de primeira linha. “Bastavam apenas
os alinhavos”, diz. “E a necessidade de ele narrar aquelas aventuras foram
vistas como o grito de quem precisa deixar um legado à sociedade.” Borges Netto
ama contar histórias. “Fez-me muito bem escrevê-la, pois se apresentou como um
desafio. Aqueles vinte e cinco “blocos” foram resumidos em dez capítulos para
não deixar o romance enfadonho, e tudo concluído em treze capítulos.”
Borges Netto afirma ter encontrado dificuldade para alinhar os blocos de
entrevistas com Pedro Paulino, porque, quando o Pedrão narrou, as coisas
ficaram misturadas, o passado e o presente se confundiam, e alguns fatos se
repetiam em momentos diferentes. Então, acrescenta, foi necessário colocar na
devida ordem cronológica para entender as motivações. “Teve alguns casos, que,
pela necessidade de criar expectativa, os acontecimentos foram alterados, e
então tive que trabalhar para que o leitor não perdesse o foco”, ressalta.
“Foram trinta e duas cópias impressas que iam recebendo modificações a cada
nova impressão, além, é claro, dos copiões por capítulo.”
Borges Netto defende que desenvolver uma personagem ficcional é mais
fácil. “Se, durante a narrativa, surgir uma demanda”, explica, “é só descrever
o que pensou”. Mas, quando se trabalha com uma história real, acrescenta, há
que se ter alguns cuidados. “Verificar se realmente as personagens ficcionais
não atrapalham o fato histórico é uma delas”. De acordo com Borges Netto,
Pedrão só disse que ficara detido numa cela com outro prisioneiro, e ele teria
alertado sobre como se comportar diante dos agentes da ditadura militar. Na
opinião do romancista, apenas isso era meio sem graça. “Que leitor iria se
interessar? Então montou a personagem do prisioneiro, toda uma história para
que ele acabasse atrás das grades. Foi quando desenvolveu outra personagem de
ficção, a dama dos rabanetes, que rebolava pela feira livre de hortigranjeiros
e seduziu o tal homem. Para criar a feira, ele buscou em São Paulo aquelas
imensas de 1km ou mais e que a Denise, sua companheira há 25 anos, gosta tanto,
e onde se comem pastéis fresquinhos. “A Denise é tão fissurada que em outubro
de 2012 fomos a São Paulo para visitar a Exposição Impressionista, Esplendores
do Vaticano, Objetos Pessoais de Elvis Presley e comer pastel na feira”,
comenta. Outra personagem é o delegado Castro. Na 2ª prisão do Pedrão, diz,
havia um delegado baixinho, invocado e que tocava muito mal um violão. Quando o
Francisco Castro soube das características da personagem que estava sendo
elaborada, foi categórico: se é baixinho, invocado e toca mal o violão, só pode
chamar-se Francisco Castro. E foi batizado naquele instante. Um terceiro que
merece destaque, lá no capítulo “O Vendedor de Quarai”, Borges Netto ressalta
que precisava de um tropeiro para conduzir o gado do Uruguai ao Brasil. “E quem
em Gravataí estaria apto para a tarefa? Quem conhece as lidas no lombo de um
matungo, as cavalgadas, as carreteadas? O meu consultor técnico para assuntos
de tropeiradas.” Quando precisa saber quanto tempo um cavaleiro leva de uma
cidade a outra, pergunta ao amigo Hélio Lopes. “No projeto O Incrível Domador de Pessoas, que trouxe D. Pedro I para um baile
em Gravataí, foi ele quem marcou tempo e distância entre Gravataí e Santo
Antônio”, revela.
Borges Netto acredita que o primeiro capítulo de No Abismo de Rosas ficou muito longo. No seu entender, é importante
que o primeiro capítulo fique pequeno, pois é aí que se “amarra o leitor”.
Borges Netto trabalhava no setor de recursos humanos numa metalúrgica. Mas foi
agricultor até seus 20 anos. Conforme diz, há uma piada na área de RH sobre
essa condição: se ele sabia lidar com bois e cavalos, certamente saberia lidar
com pessoas. Nas horas de folga, cuida de uma horta, realiza ações sociais e
escreve. Hoje em dia cuida de uma neta.
ÚLTIMAS
PALAVRAS
Em todos
os seus livros publicados desde o final da década de 1980, início da de 1990,
Borges Netto parece estar disposto, mesmo inconscientemente, a desenvolver uma
espécie de teoria do macho em literatura. A todo o momento, aborda uma questão,
um ponto de vista, uma nuança que os homens têm da sociedade e da mulher. Em
princípio, nada foge da reflexão do autor, que deve ter desenvolvido essa forma
de literatura de maneira espontânea, sem premeditação nem cálculo.
Embora
existam várias personagens espalhadas pelos romances, novelas e contos, parece
haver apenas uma, que incorpora outros nomes, conforme a necessidade do autor.
É o macho típico, talvez o foco da literatura de Borges Netto. Esse macho
aprecia a noite, as mulheres, a bebida, a música; tem amantes; visita os
cabarés; pega prostitutas nas estradas; fica bêbado com alguma frequência; não
se vê inclinado a assumir a mulher quando engravida; pensa no sexo feminino ou na
caça como meta da existência; na maioria das situações, alcança o poder, visto
que assume posições de liderança nas empresas para as quais trabalha. Em todos
os momentos, quem sabe explorando um aspecto da visão do macho ainda não vista,
o autor vai por esse caminho, tornando a sua produção unitária, focada e com
propósito.
Ainda que
seja um excelente contador de histórias, Borges Netto apresenta qualidade de
poeta, ao trabalhar com as figuras de linguagem sinestesia e metáfora. Esse
conhecimento ele transfere às narrativas, o que proporciona a ampliação do
significado ao mesmo tempo em que promove um pouco da mistura de gêneros,
incluindo a poesia dentro da narrativa. Enfim, Borges Netto é o melhor escritor
da história de Gravataí e deveria ser respeitado e visto como tal.
REFERÊNCIAS:
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. 17. ed. São Paulo: Ática, 1999.
ARISTÓTELES. Ética.
São Paulo: Ediouro, s/d.
— De Anima.
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— Crítica
e teoria literária na antiguidade. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.
BARROS, Manoel de. Concerto a céu aberto para solos de ave. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1991.
— Gramática
expositiva do chão. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.
— O livro das ignorâncias. 3.ed.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994
— Livro
sobre nada. 2.ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
BERND, Zilá.
Escrituras híbridas - estudos em literatura comparada interamericana. Porto
Alegre: Editora da Universidade, 1998.
BILAC, Olavo. Obra Reunida. Nova Aguiar. São Paulo: 1992.
NETTO, Borges. Foi Assim. São Paulo: Estévia, 1989.
___. O
Lorde do Casarão. São Paulo: Estévia, 1990.
___. Limites
de Segurança. São Paulo: Estévia, 1991.
___. Um
Deserto Logo Ali. São Paulo: Estévia, 1997.
— Erosão.
Gravataí: Clube Literário, 2003.
— O Jardim
Chinês de Pu-Uan. Gravataí: Clube Literário, 2004.
— Muralhas
de Cristal. Gravataí: Clube Literário, 2004.
— Solto no
Ar. Gravataí: Clube Literário, 2006.
— Max, o
Príncipe Guerreiro. Gravataí: Clube Literário, 2007.
— O Romance
de Gravataí. Gravataí: Clube Literário, 2009.
— Quatro
Livros de Poemas. Gravataí: Clube Literário, 2010.
MINIBIOGRAFIA DE EJ
Eduardo Jablonski (e-mail evjj1969@gmail.com) nasceu no dia 2 de agosto
de 1969, em Porto Alegre. Dos cursos que concluiu e dos que ainda está
cursando, tem três graduações, sete especializações, um mestrado e um curso
técnico, divididos assim: é mestre em Literatura Brasileira (UFRGS),
especialista em Inglês e Ética (ambas pelo Unilasalle), Gestão Financeira e Docência
de Ensino Superior e Profissional (ambas pelas Faculdades QI), Ensino de
Filosofia e Artes (ambas pela Ufpel) e Espaços e Possibilidades para a Educação
Continuada (IFSUL). É licenciado em Letras/Inglês (Unilasalle), em Filosofia e
Letras Espanhol (ambas pela Ufpel) e técnico em Multimeios Didáticos (IFSUL).
Participou de 63 antologias, publicou 18 livros individuais e 360 artigos em
jornais diários (afora 1.400 em semanários). Escreveu para Zero Hora, Jornal do
Comércio, Correio do Povo, NH, VS, ABC Domingo, Diário de Canoas, Exclusivo,
Radar, O Timoneiro, La Stampa, A Razão, Correio de Gravataí, Diário de
Cachoeirinha, Correio de Viamão e Gazeta do Sul. Ainda que tenha recebido dez
prêmios literários ao todo, foi 2º no Açorianos de Literatura (categoria
crônica), organizado pela Prefeitura de Porto Alegre em 1997. É fluente em
inglês, espanhol e italiano, revisor de português e trabalha como professor
desde março de 2000. É concursado pelo Estado do RS e pela Prefeitura de Santo
Antônio da Patrulha. Já trabalhou como professor universitário nas seguintes
instituições de ensino superior: Unijuí, Facos, Facensa, Faculdades Senac,
Faculdades QI, Feevale e FG Faculdades. Como hobby, é praticante de artes
marciais: faixa preta de taekwondo, full contact e karatê wadokai, faixa preta
e branca de hapkido Um Yan kwan e faixa azul de judô.

borgesnettoescritor@gmail.com
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