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Crítica Literária







                                                   Foto: Fernando Bruno


Livro 19 - POEMAS EM SI MENOR

ENSAIO DE EDUARDO JABLONSKI
Publicado no livro Literatura Contemporânea de Gravataí em 2016 pelo Clube Literário

Como afirmou Dilque Diones Westphal na apresentação do livro Poemas em Si Menor, talvez o poeta tivesse interrompido sua fonte lírica, uma vez que autografou uma coletânea com toda a sua produção. Mas isso não se confirmou, e as musas o chamaram de novo. O lado positivo da volta de Borges Netto à poesia é o seu amadurecimento intelectual. Os poemas estão melhor trabalhados, as expressões mais exatas, as imagens mais nobres. Neste pequeno artigo, pretendemos ressaltar os recursos usados pelo autor e sua temática, interpretando-a.

A poesia é dívida,
Disso eu bem sei,
Não é apenas
O néctar do paladar,
Nem a mão calejada
Do homem que rabisca
E repensa a saudade.
(NETTO, 2015, p. 6)

Mas por que “a poesia é dívida”? Por que tem compromisso com as vivências do autor? É o mais perfeito livro de memórias que se poderia desenvolver, como faz Luiz de Miranda em toda sua obra, desnudando a alma? E é exatamente por essa razão que o homem rabisca e repensa a saudade.
Como se aposentou e pode se dedicar à literatura, ao Clube Literário de Gravataí e à sua editora, é compreensível o porquê de ter escrito estes versos: “E a melodia suave do destino / Corre com doçura nas veias” (NETTO, 2015, p. 30). A poesia diz muito do poeta, é sua melhor biografia, se o leitor soube ver.
“É tanto explicar / É tanto sentir” (NETTO, 2015, p. 6), como se estivesse dizendo que a principal característica do poeta é a sensibilidade. Logo, o poeta é mais do que um fingidor (para lembrar as palavras de Fernando Pessoa). Ele sente, e chora, e ri e é feliz ou triste e se emociona, e tudo isso se transforma em versos.
A tentativa de buscar a memória, de vasculhá-la, está presente aqui:

São chaves enferrujadas,
Portas emperradas,
É o tempo que chega
Na carona daquele que sonha
E quer se expressar.
(NETTO, 2015, p. 6)

Certa vez, Ruy Carlos Ostermann dizia, na rádio Gaúcha, quem fala da primavera, do sol? Borges Netto resolve ingressa por essa vereda:“Canto a luz do sol / Que morre ao final do dia” (BORGES, 2015, p. 7). No estudo que escrevemos a respeito da sua obra, já havíamos constatado que ele busca inspiração na natureza e, mais do que isso, acha que só ela existe.
Mas também escreve sobre amor, na maioria das vezes um relacionamento mal resolvido, como fizeram os românticos. Parece que os poetas não se inspiram com a felicidade, somente com a tristeza:

Pela primeira vez
Indaguei por que a escola rural
Já não te servia mais
E o que fazia de nós
Duas peças tão diferentes
Dentro do mesmo tabuleiro
Em um jogo decepcionante.
(BORGES, 2015, p. 9)

Sempre a vida do campo, da agricultura, do meio rural o acompanha, visto que até os 18 trabalhou na área, como outro escritor de Gravataí, Círio de Melo. Assim diversas imagens apresentam tais posições: “Percebo que a vida / É como cacos de cristais / Esquecidos no caminho das carretas” (BORGES, 2015, p. 10). E, ao contrário das primeiras antologias, compõe uma metáfora por verso, ou quase.
“Com a certeza de que estamos bem / E donos de nosso destino” (BORGES, 2015, p. 10). Borges Netto sempre foi o senhor da sua vida: saiu da agricultura e ingressou no meio empresarial, passando por todas as funções até se tornar um executivo de sucesso. Na literatura, mercado difícil, aprimorou-se como autodidata e criou o seu meio de divulgação, uma vez que abriu o Clube Literário de Gravataí, a editora dele e uma gráfica. Enfim Borges Netto é o “dono do seu rumo”, e sua poesia é a que dá os melhores indícios do que ele sentiu e viveu.
Igual a um Mario Quintana, Borges Netto também escreve poemas metalinguísticos, explicando o que pensa a respeito do fazer literário:

Não pense que uma ideia,
Apenas uma inspiração,
Significa grande achado
Ou ter um romance à mão.

Há que ter muito trabalho
Na busca da perfeição
Retirar palavras erradas
Que roubam o sentido da ação
(NETTO, 2015, p. 11)

Em alguns poemas, tem-se a impressão de que Borges Netto alcançou a sabedoria e se dispôs a admirar as pequenas coisas. Afinal se vê numa etapa em que pode se afastar do corre corre cotidiano, do estresse, da pressão, das tarefas diárias:

Gosto de observar
As folhas que se decompõe
Ao sabor do tempo
E do córrego macio.

Na suavidade da corrente,
Logo que o inverno se vai,
Vão trocando as cores
E desbotando despreocupadas.
(BORGES, 2015, p. 12)

Estes Poemas em Si Menor assinalam a aproximação de Borges Netto da poesia pura, das imagens em todos os versos, da forte ampliação do significado. Além disso, resgata lembranças e reflete sobre a vida. É seu melhor livro de poemas:

Isso resgata o meu passado,
Criança alegre e descalça,
Coroada de sensações,
Despreocupado com rotinas,
Imune às intempéries,
Quando brincar de adulto
Era um exercício saudável.
(NETTO, 2015, p. 12)

Poesia é palavra rica em significação, como disse Pound (1990, 1995), e Fernando Pessoa, nos seus estudos particulares de literatura, enfatizou que a mais nobre ampliação semântica acontece sem o emprego da imagem, porém é mais difícil de concretizar. Borges Netto conseguiu nestes versos: “Quando retorno ao córrego / Passado tanto tempo /Já não encontro o menino que fui” (NETTO, 2015, p. 12).
“Tive saudades de mim / E de nossos adoráveis dias azuis” (NETTO, 2015, p. 13). Uma das funções do poeta é recriar o clichê e dar uma nova roupagem a ele. As pessoas em geral sentem falta do outro, da amada. Borges Netto, de si, do que foi, do vigor físico da juventude. “Dias azuis”, que aparece na sequência, retoma a tradição iniciada por Mario Quintana e por Luiz de Miranda de adjetivar de azul tudo o que for positivo. Inclusive escrevemos um ensaio a respeito essa cor na obra do poeta uruguaianense, publicado em Luiz de Miranda, o vendaval da poesia (Pradense, 2015).
Em “O Semeador” (NETTO, 2015, p. 16), Borges Netto volta a reescrever um lugar-comum. Sempre os poetas fizeram a metáfora, dizendo que a mulher é uma rosa. O autor de Gravataí sabe que, em literatura, precisa escapar do já-visto. Então, escreve:

Em cada recanto esquecido
Do meu triste jardim
Semeei aromas e amores
Na esperança de encontrar
Tua presença entre as flores.
(NETTO, 2015, p. 16)

Agricultor que foi, gosta de trazer a sua vida de antes para compará-la à literatura. Talvez o seu mundo da plantação e da colheita apresente um significado muito forte para o autor:

Preparei a terra
Que ficou macia
Como húmus natural
Para que a semente plantada
Vingasse sem fazer mal

Joguei a lanço as sementes
Que em mim sempre foi um ideal

Brotaram lindos poemas
Que colho em meu quintal
Dou de presente à amada
Que me faz feliz
Sem nada igual.
(NETTO, 2015, p. 14)

Já assinalamos em Natureza da Palavra em Borges Netto que, em alguns momentos, o autor, igual a José Eduardo Degrazia, parece querer pintar um quadro com poesia, usando a imagem e descrevendo uma pintura: “Tão logo a revoada / Pousava nos fios da rede elétrica / Para uma pauta musical” (NETTO, 2015, p. 15). E sempre a natureza em destaque. Acreditamos que um estudo a ser feito sobre o autor de Gravataí seria averiguar o papel da natureza na sua produção.
Será que, da mesma forma que Sérgio Faraco, que parou de escrever por achar que não teria com o que contribuir, Borges Netto está em vias de pôr fim às atividades? Então o que significa este verso: “Nada mais me resta semear” (NETTO, 2015, p. 16)? Talvez não seja isso: recentemente o autor viajou pela Europa e já disse que pretende escrever a respeito, ou seja, ainda está produzindo.
A maioria das pessoas acha que a juventude é a melhor época da vida, pois estão belos e em pleno vigor e podem curtir as festas e as mulheres. Borges Netto pensa igual: “Devolva, destino injusto, / Os felizes dias / De minha mocidade” (NETTO, 2015, p. 17). Mas também há os que refletem de outra forma e aproveitam melhor uma época mais avançada. Acima dos 40, amadurecemos, nos estabilizamos nas finanças e na sabedoria. Além disso, se passamos praticando esportes e ingerindo alimentos saudáveis, o corpo será melhor do que aos 20 anos.
Nesta antologia, Borges Netto reflete sobre um tema novo – a morte, mas supera Mario Quintana nesse quesito. O velho mestre citava a expressão numa linguagem denotativa, ou seja, não poética. O gravataiense apresenta uma metáfora por verso:

Não é possível e natural
Prolongar a existência.

Chegamos ao mundo
Com data de validade.

Façamos o que temos que fazer
Com a urgência
Que nos impõe o calendário.

O resto é cinza
Soprada impiedosamente
Aos confins da existência.
(NETTO, 2015, p. 18)

Certa vez conhecemos uma pessoa que dizia: “Cara, gosto de mulher grande, quadris largos, cintura fina, coxas grossas, rosto de atriz, pode até apresentar gordurinhas. Se eu tiver alguém assim, sua beleza e sensualidade vão mexer tanto comigo, que não terei forças para nada, a não ser para conduzi-la à cama”. De certa forma, é o que defende Borges Netto com esta passagem: “Na tua presença / Sou disforme e fraco” (NETTO, 2015, p. 19). Lembramos que defendemos, no livro Natureza da Palavra em Borges Netto (2015), que o autor de Gravataí produziu uma literatura (contos, crônicas, novelas e poesia), inconscientemente falando, com o objetivo de desenvolver uma teoria do que é ser macho.
Existe uma brincadeira entre os homens que diz mais ou menos: tudo que se faz na vida é com apenas um objetivo: pegar mulher. Em toda a sua obra, o autor de Gravataí parece desenvolver uma teoria do macho e já assinalamos isso em Natureza da Palavra em Borges Netto. Neste poema, ele resume as suas reflexões filosóficas:

Estou cansado
Das buscas incessantes
Pelos emaranhados
Desencontros do destino
E das tentativas infrutíferas
Da conquista do teu olhar.
(NETTO, 2015, p. 17)

Outra novidade deste livro de uma produção literária madura é a reflexão filosófica. Em tese, como já escrevemos, o filosofar não tem ligação com a poesia, uma vez que a primeira persegue o conceito pela argumentação; a segunda, a síntese pela metáfora. São diferentes. Mas T.S. Eliot tentou uni-las, da mesma forma como Jaime Paviani e Borges Netto:

Diante das vitrines
E dos espelhos,
Não consigo me ver.
Então fujo das indagações
Que me perseguem
Há tanto tempo.
(NETTO, 2015, p. 19)

“O passado foi gotejando / Até se transformar / Numa imensidão de água” (NETTO, 2015, p. 20). É uma forma poética de refletir sobre a idade, sobre a vida. O poeta é aquele que diz o que todo mundo pensa, mas duma forma que só ele descobriu. A poesia tem de ser original, fugir do clichê, do lugar comum, do já-visto. E Borges Netto, dessa forma, vai fixando o seu nome no Panteon dos Literatos, mesmo que paralelamente, como fez Rossyr Berny, dono da editora Alcance. Aliás, Borges Netto é o idealizador do Clube Literário de Gravataí.
Sobre o poema “Versos ao Pai”, reflete a respeito dos motivos por que escreveu sobre o progenitor. Qualquer pessoa diria alguns clichês, como carinho, valores. Ele não; saiu com uma frase tão enigmática, quanto poética, que pode significar muita coisa, como deve ser a poesia: “Direi apenas que com ele / Aprendi sobre o silêncio /E o aroma do vento” (NETTO, 2015, p. 29).
Existe um senso comum que leva milhares de aposentados a viverem no litoral: de que a felicidade está ali, em meio às ondas e à areia do mar. Depois de ter se retirado das lides como executivo de empresa, Borges Netto, que há anos tem o ofício de escritor, resolveu testar para ver se é verdade: “Percebeu que era feliz / E que ao caminhar pela areia / Buscava mais felicidade” (NETTO, 2015, p. 22).
Igual a outros poetas, como Luiz de Miranda (2013), em Salve Argentina, também mostra compaixão pelos desassistidos e trabalhadores, que não conseguem aproveitar as belezas do litoral por causa da luta diária pelo sustento:

Por um instante,
Imaginou entristecido
Que os pescadores não eram felizes,
Pois a fadiga sempre era grande
Ao final do cansativo dia.
(NETTO, 2015, p. 22)

Já tínhamos percebido, analisando a obra de Luiz de Miranda, que o poeta é aquele que está sempre à procura do belo, que o admira e sobrevive dele. Escreve para encontrar a metáfora mais bonita, a expressão mais elegante, vive em situações agradáveis e procura mulheres atraentes. Luiz de Miranda, por exemplo, já saiu com atrizes da Globo, com a cantora Maysa, com modelos e, apesar dos 70 anos, recusa-se a ter um caso com mulheres da sua idade. Borges Netto também cultiva o belo, mas seu foco é a natureza, as flores, os pássaros, os rios, o mar, as conchas, quase como um Manoel de Barros à gaúcha. E o belo para um escritor é sinônimo de poesia:

Poeta que era,
Admirando a concha,
Sentenciou sem pensar
Que encontrara um poema.
(NETTO, 2015, p. 23)

Não sabemos o que o autor pensa da literatura gaudéria, dos CTGs, dos trovadores, mas estamos cientes de que não cria, em geral, metáforas camponeiras. Lemos toda a sua produção e não encontramos. Porém, nesta passagem, meio que tangencia um Jayme Caetano Braum ou Apparício Silva Rillo:

Que os verdadeiros poemas
Não podem ficar guardados
À espera de amigos.
Devem ser escritos
E distribuídos a lanço.
(NETTO, 2015, p. 25)

Às vezes, não se sabe de onde surge um relacionamento. Duas pessoas começam a conversar, e a coisa vai se alongando, se aprofundando e termina num motel. Com estes versos, o escritor parece falar disso: “Pelo amor que brotou / Entre as nuvens / Sopradas no firmamento” (NETTO, 2015, p. 27). Enfim, o poeta fala da vida de todos nós.
Num dos seus romances, O Lorde do Casarão, publicado em 1990, conta a história de um homem que se aposenta, muda-se para um município do interior, invade uma casa antiga e passa a viver ali, saindo com prostitutas, mas sem pagar, tocando violão em bares. Borges Netto nos relatou de onde veio a história. Parece que estava em São Paulo e, numa das andanças, viu uma casa velha, e a história apareceu em sua mente, sentou-se no cordão da calçada e escreveu boa parte dela. Esse fascínio por residências centenares ressurge nestes versos: “Um tropel de dor / E de desespero, /Derramando seu lume /Sobre o casario antigo” (NETTO, 2015, p. 28).
Era natural que o poeta começasse a escrever sobre o envelhecimento e sobre a vida que nos consome. Afinal ele já está nos 60, não sei se um pouco antes ou um pouco depois: “Não há como escapar / Da água e da idade que avança” (NETTO, 2015, p. 31).
No poema “Olhar Singelo”, faz um convite inusitado: pede que a amada visite o seu espírito, a sua vida, analisando o seu olhar: “Te dou a chave / Dos meus olhos /E o passado / Por eles vivido” (NETTO, 2015, p. 33).
Num poema seguinte, o autor filosofa sobre a vida, porém faz o seguinte comentário: “E o suor é nossa missão” (NETTO, 2015, p. 36). Será que ele é um dos que acreditam que estamos na vida para sofrer? Talvez por isso tenha se aposentado na primeira oportunidade e passado a se dedicar à literatura? Porque sua essência está na palavra. Mais do que isso: sua vida é dar o sangue para conseguir o pão e tem como destino a literatura: “sangue, poema e pão” (NETTO, 2015, p. 36).
A humildade é bonita em qualquer circunstância. É simpático ver Armindo Trevisan jamais se elogiar, como é desagradável ouvir outros se considerando o melhor do mundo. Borges Netto construiu a sua carreira longe dos holofotes da mídia e talvez por isso se veja como um “poeta de água doce”. “Não me importo / Ser poeta de água doce /Ou qualquer desprezível sinônimo / Criado com pouca inspiração” (NETTO, 2015, p. 37). Schopenhauer (1991) diz que o homem sábio deve-se manter calmo e tranquilo na sua condição, sem se alterar ou se sentir menosprezado. Paulo Coelho sempre teve o apoio da mídia e não aprendeu a escrever.
Talvez aconteça com grande parte das pessoas: quando jovens, nutrem sonhos mirabolantes, gigantescos, porém, aos poucos, tudo vai diminuindo de proporção, adequando-se ao correr da vida. É mais ou menos o que Borges Netto diz nesta passagem:

Da infância perdida
E dos sonhos encantados
Restam nada mais
Do que uma janela aberta
Voltada para o anoitecer.
(NETTO, 2015, p. 39) 

Algumas pessoas se dedicam a uma arte, a um esporte, às línguas, ao lado intelectual e não compreendem o porquê de os outros não fazerem o mesmo. Se é tão bom para alguns, por que não seria para os demais? Schopenhauer (1991) alertava que as pessoas raciocinam de maneira diferente. Enquanto alguns amam a literatura, caso de Borges Netto, por exemplo, outros gastam a vida nas redes sociais; enquanto alguns seguem o caminho do karatê, junto de uma vida saudável, outros não praticam nenhum esporte, bebem refrigerante ou cerveja, comem doces e frituras. Enquanto alguns exercitam o cérebro com várias línguas e diversos assuntos, outros levam a escola na malandragem e escapam dos livros o mais rápido que podem. Atendo-se às Letras, Borges Netto não compreende:

O que me assusta, meu amor,
Não é a violência das ruas
Mas a ausência de versos
A correr por tuas veias
E nas veias da população.
(NETTO, 2015, p. 42)

Enfim, neste Poemas em Si Menor, Borges Netto ampliou todas as qualidades que já havia mostrado nas primeiras antologias. Expandiu o número de figuras de linguagem, aproximando-se da poesia pura; inspirou-se mais uma vez na natureza e convidou a amada para uma longa conversa, cheia de imagens. Às vezes temos a impressão de que alguns homens não amam uma fêmea, mas o gênero feminino como um todo. E fica bem falar com Ela, sem citar nomes, porque, assim, podem ser todas as mulheres. Uma vez Paulo Hecker Filho escreveu uma antologia denominada Para todas as mulheres, com perdão das que faltam. E Vinícius de Moraes amava todas. Borges Netto é um poeta que ama o gênero feminino e a literatura.



Livro 00 DAS COISAS DE POUCA IMPORTÂNCIA

ENSAIO DE EDUARDO JABLONSKI
Publicado no livro Literatura Contemporânea de Gravataí em 2016 pelo Clube Literário

No livro Natureza da Palavra em Borges Netto, publicado em 2014, estudamos 17 dos seus livros e percebemos uma similaridade em todos: parecia que o autor desejava desenvolver uma tese sobre o macho, porque nas cenas dos romances, nos contos, nas crônicas e até nos poemas explorou a visão de mundo com os preconceitos e ideologias de um homem em fins do século XX, início do XXI, de uma região como Gravataí, que integra a Grande Porto Alegre, Sul do Brasil.
Neste ensaio, porém, analisamos Das Coisas de Pouca Importância, uma antologia de crônicas que tratam da memória do autor. Logo, tem importância; é tudo o que ele é e o que viveu. De alguma forma, o título apresenta uma rápida ironia, porque traz um significado oposto ao das palavras ou se pode compreendê-lo como uma lição de humildade, situação que ele reproduziu em Poemas em Si Menor.
Parece um livro de memórias, apesar de que, na teoria da crônica, os estudiosos afirmem que os escritores falam de si mesmo. No início, como se fosse um ensaísta da sociologia da literatura, primeiro aborda o que se passava no mundo em 1957 para depois dizer que foi o ano em que nasceu (NETTO, 2014, p. 11). Como explicou Zilá Bernd (1995, 1998, 1999), esse hibridismo é uma das características da literatura contemporânea ou do pós-moderno.
Grande parte das crônicas fala da sua vida de agricultor em Canoas. Talvez por isso usa uma linguagem simples, que flui. Borges Netto faz ironia, mas sem a tradicional maldade, com o pensamento da mãe, que perdera uma menina e, por isso, pensava na punição de Deus (NETTO, 2014, p. 11).
A comédia também está presente em grande parte dos cronistas, Luiz Fernando Verissimo, Paulo Mendes Campos e Stanislaw Ponte Preta que o neguem. Borges Netto faz piada com o seu nascimento:

Vó Norica chegou para o corte do cordão umbilical e foi quem sentenciou: — É homem. Há quem diga que ela teria completado ao examinar as genitais: — Podia ser um pouquinho maior. Mas não há provas de que tenha dito isso. Deve ser intriga familiar. Despeito dos irmãos. (NETTO, 2014, p 14)

O cronista recorda que a mãe, devido às suas crenças, sem base nenhuma nos fatos, como geralmente acontece com a fé, acreditava que nasceria uma guria e assim preparou o enxoval rosa e rendado, mas nasceu Borges Netto, que terminou usando aquelas roupas. O autor lembra tudo isso com naturalidade, sem rancor, e ainda se refere ao pai e à mãe com carinho e admiração: “O sábio da natureza, dos animais e das coisas”, (NETTO, 2014, p. 13); “Deveria estar no lugar do padre Reus sempre que a mãe se ajoelhava por uma graça alcançada” (NETTO, 2014, p. 17); “Como é seguro e doce os braços de mãe” (NETTO, 2014, p. 16). Também comenta que “o pai não era dado a saidelas de madrugada” (NETTO, 2014, p. 13), ao contrário do que acontecia com as personagens da literatura que ele desenvolveu desde o livro Foi Assim, contos, publicado em 1989.
Embora Das Coisas de Pouca Importância enfatize a memória, o autor não deixa de expor algo da sua visão de mundo: “Finalmente ele poderia retornar à única diversão possível a um homem da roça naquele tempo. Claro que tão logo o período de quarentena fosse contemplado” (NETTO, 2014, p. 13). Um homem normal, no entender de Borges, só pensa no sexo feminino, e os casamentos, noivados, namoros e pegações acontecem por causa desse propósito. Um vídeo da internet mostrado um por educador apenas para dar risinhos apresenta uma suposta psicóloga dizendo, com expressões bem chulas: “Homem não gosta de mulher; homem gosta de b... (o órgão sexual feminino)”. É mais ou menos o que pensam as personagens de Borges Netto, o mundo do macho.
A crônica “Do Talo de Couve” relata duas passagens que, se não despertam uma gargalhada no leitor, pelo menos conseguiriam abrir-lhe um sorriso:

Naquela época as mães estimulavam o bolo fecal a descer a ladeira de forma indecente. Utilizavam o talo da couve para forçar o intestino a funcionar. Algo como um carro com bateria arriada a pegar no tranco. Devia ser uma tortura. Os irmãos levariam a minha experiência, à guisa de gozação, se não para o resto da vida, por um bom tempo da infância. Naquela época não se falava nestas coisas de traumas e terapias. Cada um se virava como podia. E naqueles dias era certo que no cardápio haveria refogado de couve. Claro que sem o talo. (NETTO, 2014, p. 17)

Já adulto eu ainda era famoso pela preguiça estomacal. Os colegas de escritório chegavam a marcar o dia da semana em que aconteceria a avalanche: sempre às quintas-feiras. E me acostumei com isso. Nas quartas-feiras começavam as contrações que eclodiam com o parto fecal às quintas. Era a maior gozação quando eu sumia do escritório três, quatro vezes durante o expediente quando o calendário chegava à quinta. Ficava mais assado que churrasco de gaúcho distraído. (NETTO, 2014, p. 18)

Uma das crônicas narra a história de um cavalo, a égua Rosilha. Conforme José de Alencar (1982), esse é um dos símbolos do gaúcho, porém Borges Netto não comenta como se estivesse explorando palavras gaudérias. Apenas conta o relato porque o animal fazia parte da sua família.
Mal comparando, certa vez aconteceu algo parecido conosco. Em 1990, visitamos Quaraí e Artigas, viagem que faríamos algumas vezes por ano até 2003, e vimos dezenas de pessoas de bombacha, guaiaca e chapéu, andando a cavalo. Ingênuos, perguntamos se havia um CTG por perto. O interlocutor achou esquisito e apenas disse que essas pessoas estavam trabalhando. Daí se conclui que o cavalo e as roupas tradicionais ainda fazem parte do dia a dia do gaúcho.
A crônica “Dos Pés da Égua” (NETTO, 2014, p. 14-17) também explora a tensão narrativa. O bebê (na verdade, Borges Netto) cai entre os pés da égua, que se mostrava nervosa e tinha personalidade forte. Cada um dos enredos que viraram tradição na família é relatado por ele.
O livro parece uma espécie de homenagem ao avô, aos pais, aos irmãos e à mulher que passou a viver o resto da vida com ele. Em todas as crônicas, mesmo que divulgue certas desavenças, sempre fala de todos com amor.
A crônica “Dos Ditos do Pai” (NETTO, 2014, p. 23) relata uma história que parece ter passado com a maioria dos rapazes do interior do Rio Grande: barranquear égua. Um moço estava sentindo saudade física da namorada e se dirigiu à residência dela a cavalo. No meio do caminho, não aguentou e decidiu fazer sexo com a égua, mas, logo em seguida, o sogro passou cerca dali, e o rapaz se escondeu no matagal. Essa é mais uma nuança da perspectiva do macho na sociedade. Parece que o sexo é uma urgência maior para eles, ou pelo menos é assim que alguns homens pensam.
Uma das crônicas – bem focada como as demais – aborda a iniciação do sexo nos meninos com a cadela Brigite (NETTO, 2014, p 28-29). Não sabemos se todos os guris do campo ou da cidade atuam dessa maneira, mas certa vez, numa aula de ética, os alunos defenderam o posicionamento de que um heterossexual masculino é por natureza tarado. Se isso é verdade, e se os machos pensam eternamente em penetrar alguém, aí tudo se explica.
Quanto à estilística, igual aos livros anteriores, apresenta embalo de texto condizente com as narrações contemporâneas, períodos curtos, linguagem do dia a dia, temas do cotidiano. Todos os casos são verossímeis e poderiam ter se passado com qualquer pessoa. O leitor percebe verdade em cada história.
Segundo Schiller (apud LIMA org., 1983, p. 140), citado por Martin Fontius, “é a missão da beleza fazer-nos caminhar para a liberdade”. Quanto à literatura, entendemos isso como a chance de fazer o leitor refletir através de um texto. Borges Netto alcança melhor esse aspecto na sua poesia. As crônicas deste livro talvez façam o leitor pensar sobre o que é importante para cada um, apesar do título irônico. Aí quem sabe se encontre a ampliação do significado em Das Coisas de Pouca Importância.
Todas as curiosidades dos parentes de Borges Netto são retratadas, ou seja, as melhores ou mais divertidas lembranças do autor. Eles souberam apenas no dia do alistamento militar que o tio não se chamava Mario Borges, porém Vilmar da Silva. Antes de chegar nesse ponto, Borges Netto dá uma explicação de caráter histórico, de como se comportavam as pessoas do Rincão da Madalena em 1920 e 1930.

O pai conta que ele descobriu que não se chamava Mário quando foi sentar praça no exército. Havia centenas de agricultores como eles no pátio da inscrição. Ele e o pai. É que foram registrados no mesmo dia, mês e ano. Como se fossem gêmeos para evitar a multa pelo registro atrasado. Era comum no Rincão da Madalena, região de difícil acesso nos idos 1920/1930 e por muitas décadas depois. Então se fazia assim: as crianças do lugarejo iam nascendo e, quando um dos moradores vinha entregar a produção agrícola na Vila, fazia-se o registro de todas. Traziam anotado num pedaço de papel o nome das crianças nascidas no último ano. Ou nos últimos dois anos, caso do pai. Dois anos mais velho que o tio e gêmeo. Mas o assunto não é sobre o pai, que recebeu o pomposo nome de Ary, com “ipsilone” e tudo. (BORGES, 2014, p. 29)

Certa vez Roland Barthes afirmou que, se houvesse uma catástrofe e perdêssemos tudo, mas sobrassem homens e livros, tudo estaria a salvo. As obras também servem para registrar a vida como ela foi e não apenas como poderia ter sido. Os conhecimentos mais variados das ciências humanas ou da natureza, das linguagens, das matemáticas e outras estão na escrita. Borges Netto também contribui para que estudiosos conheçam como era a existência dos humildes numa cidade de porte médio na Região Metropolitana de Porto Alegre, Sul do Brasil, ao longo do século XX, início do XXI. É o autor por excelência de Gravataí, como Luiz Nicanor é de Santo Antônio da Patrulha.
Outro exemplo disso foi a troca de nome da avenida Flores da Cunha para Doriva Cândido Luz de Oliveira, ex-deputado e ex-prefeito da cidade (NETTO, 2014, p. 31). A todo o momento, não só nesse livro, como em outros, registra detalhes históricos. 
Quando o autor se considerava “famoso por ser esquecido” (NETTO, 2014, p. 31), é claro que o termo não está correto. Pouca gente é famosa, apenas os que aparecem na mídia com tanta freqüência que as pessoas sabem de quem se trata. Assim é a Xuxa, o Didi, o Faustão, o Pelé, o Sílvio Santos, hoje o Neymar. Porém, quando pararem da sair na imprensa, quase todos esquecerão. Isso aconteceu com Garrincha, Machado de Assis, Oscarito, Ataulfo Alves, Grande Otelo, para citar um de cada arte: jogador de futebol, escritor, comediante, cantor e ator, nessa ordem. O que pretendemos dizer com tudo isso é que, se Borges Netto faz uma declaração como essa, é porque o seu mundo envolve os familiares e os amigos, exclusivamente dentro de Gravataí. É nessa realidade que se acha famoso.
Como se trata de crônicas, e esse gênero aborda questões biográficas, é por meio do esquecimento que ele se tornou escritor, uma vez que anotava as coisas que se passavam na sua vida para contá-las aos familiares, e daí surgiram crônicas, poemas, contos e novelas, tudo ambientado na cidade natal.

Fui arrecadando muitas outras cenas ao longo da vida para dar movimento às personagens que passei a criar depois que iniciei a lidar com a escrita. Tenho apenas medo de que tudo se acabe. Que se esgotem minhas lembranças. Que desapareça meu material de pesquisa para criar personagens, cenários e enredos.
(NETTO, 2014, p. 32)

Até o seu processo de criação aparece em meio às crônicas, funcionando como uma oficina literária ocasional:

Anos mais tarde, ao escrever A Amante do Rincão da Madalena, busquei inspiração neste lenhador para compor a personagem Israel. Imenso, forte, camisa arremangada, golpeando as árvores. Um lenhador daqueles que se vê nos filmes de colonizadores. Desmatando tudo para iniciar as plantações de roças e de casas. Durante anos este lenhador adormeceu na maciez dos meus neurônios. Num instante despertou e saltou para dentro do Rincão. (NETTO, 2014, p. 31)

Daí se conclui que esse gênero possibilita falar de lembranças, de fatos históricos, de crítica literária, e o autor também faz uma citação pós-moderna: “Com seu poderoso machado — quase Thor, o Deus do Trovão — subiu no tronco vencido e atacou a galharia menor.” (NETTO, 2014, p. 32) Segundo autores como Andreas Hyussen, Jean-François Lyotard, Linda Hutcheon e Frederic Jameson, entre outras características, essa fase da literatura promove a união do sofisticado e do popular. Assim faz sentido uma citação de um herói das Histórias em Quadrinhos.
Ezra Pound (1990, 1995) também dizia que o escritor é a antena da raça, precisa escrever a língua do seu povo e registrar os assuntos relevantes na sua época. “Lembrando que em Gravataí os mutirões são chamados pixurus.” (NETTO, 2014, p. 32)
Em alguns momentos, como acontece em grandes autores, entre os quais o romancista e secretário estadual de Cultura Luiz Antonio de Assis Brasil, Borges Netto insere uma imagem em meio ao texto, neste caso, crônica: “E abri as porteiras do passado” (NETTO, 2014, p. 36). Até por causa da expressão “porteiras”, desperta o caráter de agricultor, que sempre foi a vida de Borges Netto, pelo menos até os seus 18 anos.
Os seus traumas também aparecem nesta obra que deve ter sido escrita para fazer um apanhado geral da sua existência:

Ali perto da piscina ficava o matadouro do Alvício. Era onde o pai trabalhou por muitos anos. Levava os três filhos homens para iniciar nas lidas da vida. Paulo, Flávio e eu. Éramos os três pequenos trabalhadores. Tenho um quarto irmão, o José Carlos. Ainda bebê de colo que ficava em casa. Íamos para o matadouro de carroça puxada pela égua Rosilha. Eu era o mais novo dos três, coisa de cinco ou seis anos.
O odor de sangue e dejetos ficaram impregnados na pele. Náuseas não sinto mais. Apenas rejeito um bom bife acebolado ou uma picanha no espeto. Raríssimas vezes uma ponta de bife. Uma carne moída. Para não esquecer por completo de todo os caminhos da vida. Este é o resultado dos meus fantasmas. Os fantasmas do matadouro. Entretanto não resisto a uma bandeja de quibe. (NETTO, 2014, p. 36)

O autor é de uma época diferente, quando os tempos de locomoção eram mais longos. Levava entre cinco e seis horas para se deslocar de Canoas a Gravataí, percurso que hoje se faz em menos de 30 minutos (NETTO, 2014, p. 39). Também pertenceu ao período que se deveria fazer prova de admissão para o ginásio. Tratava-se de um momento da história em que os meninos e meninas sentiam orgulho de sair pelas ruas com o uniforme da escola (NETTO, 2014, p. 40) e talvez respeitassem os professores.
Hoje em dia, um aluno inábil no futebol – como se sabe, o esporte nacional – se refugiaria nos jogos em celular ou tablet. Naqueles anos, havia poucas opções, e o menino se escondia na biblioteca (NETTO, 2014, p. 40). Aí nasceu o escritor. Não queremos dizer com isso que todos os pequenos que leem muito se inclinam para a literatura, mas não existe escritor sem grande quantidade de pestanas cansadas. É quase uma condição sine qua non.
Numas das crônicas, revela ter brincado de bonecas com as irmãs, e elas eram o público inicial das histórias do futuro escritor. (NETTO, 2014, p. 41). Tudo na vida tem começo, meio e fim. No caso de um artista da palavra, sua atividade intelectual só termina com a morte, nesta situação no auge de duas dezenas de títulos e presidente do Clube Literário.
Certa vez, Guy de Maupassant – que desejava se tornar escritor – perguntou a Gustave Flaubert o que precisaria para ingressar na carreira das Letras, e o velho mestre respondeu: “- Viva”, pois é das próprias experiências e das de outras pessoas que o autor se nutre para criar. É exatamente assim que age Borges Netto. Tudo na sua vida pode servir para desenvolver uma personagem, uma cena, uma história:

Cheguei na casa do vovô, soluçando e com a moral abalada. Só me reanimei quando encontramos as bergamoteiras carregadas de frutos maduros — Lembram da bergamoteira carregada que o Israel de A Amante do Rincão da Madalena precisou erguer com uma vara para sustentar os frutos? (NETTO, 2014, p. 42)

A natureza é importante para a obra desse autor, motivo pelo qual denominamos um estudo a respeito dos seus primeiros 17 livros de Natureza da Palavra em Borges Netto:

Noutra vez fui com a mãe e a irmã Lea a pé. Levamos a manhã inteira para percorrer a estrada. Saímos bem cedinho e fomos acompanhados por todos os sons do amanhecer. Um cão que latia a distância. Uma ovelha que balia. A infinidade de canto dos pássaros. (NETTO, 2014, p. 42)

Em inúmeros livros – talvez em todos – são trabalhados personagens instrumentistas. Por exemplo, no Lorde do Casarão, a personagem principal tocava num bar. No Abismo de Rosas, a personagem era boêmia. Talvez a importância da música tenha relação com o vivenciado pelo jovem Borges Netto:

Tinha eu seis anos. Nesta idade costumávamos atravessar a rua 15 de Novembro. Morávamos no número 81. A travessia era para chegar na cerca do Colégio José Maurício. Lá havia aulas de música. Ficávamos ouvindo os alunos nos ensaios. (NETTO, 2014, p. 42)

De volta a Canoas, Borges Netto trocou o amor pelos livros da biblioteca da escola na sua cidade natal pela coleção de gibis vendida e trocada por um pipoqueiro. Chegou também a escrever histórias em quadrinhos, criando os seus próprios super-heróis. (NETTO, 2014, p. 43).
Talvez um escritor tenha por missão criar símbolos, como faz Borges Netto. Vários detalhes da sua vida ocupam um lugar na sua memória, como tudo que se liga ao pai:

Nestes dias saíamos mais cedo da lavoura. O pai afiava sua boa faca carneadeira na pedra do rebolo tocado à manivela. Herdei dele esta faca. Mas não a utilizo por tratar-se de objeto sagrado.

Apesar de existirem escritores praticantes de artes marciais, como Paulo Leminski, faixa preta de judô, o senso comum diz que os autores não gostam de violência e preferem a vida calma dos livros, caso de Borges Netto. Um episódio de briga entre dois valentões de escola o marcou e fez com que escrevesse uma crônica a respeito:

Fiquei longo tempo ali, nervoso, pensando na cena selvagem. Eram apenas dois cães na disputa por território. Garotos de cidade. Apenas isso. (NETTO, 204, p. 47)

Além disso, várias das crônicas – da metade para o final da obra – homenageiam a convivência com sua mulher. Mesmo que Borges Netto comente sobre os pequenos desentendimentos que o casal contabilizou ao longo dos anos - nada muito relevante, como a mulher insistir em pôr louça dentro da pia e pedir para ele lavá-la – quase todas essas crônicas têm o caráter de uma declaração de amor.

Enfim, pelo que se percebe, talvez Das Coisas de Pouca Importância foi desenvolvido visando reconstruir o passado com a finalidade de resgatar as origens, as situações que fizeram com que o autor se tornasse o que é hoje como pessoa e como homem. 

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Desenho: Denise Pacheco Lopes                   Escritor de Gravataí Patrono da XII Feira do Livro de Gravataí 1997 borgesnettoescritor@gmail.com borgesnettoescritor.blogspot.com Borges Netto, filho de pai agricultor e mãe costureira, nasceu em 26 de julho de 1957, em Gravataí/RS, nas dependências dos empregados que cuidavam da criação de ovelhas e gado leiteiro nas terras de Pompílio Gomes, hoje Parque Dom Feliciano.   O cenário bucólico de sua infância está presente na maioria de seus romances. Mudou-se para Canoas aos sete anos, tendo trabalhado na agricultura de subsistência, ordenha e comércio de leite. Alfabetizou-se na Escola Estadual Fátima. Na pré-adolescência, devido à falta de escola pública em Canoas, foi enviado a Gravataí para estudar na Escola Estadual Maria Josefina Becker, descobrindo a biblioteca e se a...